domingo, 18 de agosto de 2019

Mangá: Subarashii Sekai - Uma Cidade de Muitas Colinas, de Inio Asano


Olá! Hoje eu venho aqui para trazer um post engavetado há literalmente mais de 4 anos. Trata-se de uma breve resenha de um mangá de Inio Asano, a pedido do Leonardo Bonkoski do saudoso Portal Tanaka (sério, que outro portal tem uma visão psicanalítica de Boku no Pico? Faz falta). Ele propôs que os membros de um certo grupo de anime do Facebook resenhássemos oneshots do Inio Asano - autor do popular Solanin, que foi lançado aqui no Brasil, e também do premiado Oyasumi Punpun - e o primeiro escolhido foi o oneshot Uma Cidade de Muitas Colinas, da compilação Subarashii Sekai. Eu gostei muito desse oneshot e queria muito publicar o post, mas acabou que o post deles não saiu e o meu foi engavetado. Mas eu queria compartilhar esses pensamentos sobre essa história tão encantadora, então pedi autorização para publicar esse post.


Com 28 páginas, Uma Cidade de Muitas Colinas conta a história de uma garota do primário que presencia uma cena traumática, e começa a conversar com um corvo...

Vou começar essa resenha recontando a história, segundo minha interpretação. Obviamente, terão spoilers aqui; continue lendo por conta e risco. O corvo, que a menina descreve como um "deus da morte" (o folclórico "shinigami" 死神 à la Death Note e afins), a faz uma revelação - os humanos são tolos. Por que você quer tão desesperadamente viver? A jovem garota tenta cometer suicídio - um grande problema social no Japão, por sinal, segundo mostram os dados - jogando-se na frente de um caminhão. O caminhão pára, a menina sobrevive, e olha para um par de dentes-de-leão que floresciam no concreto: "Bem aqui na minha frente, pesas ao concreto, estavam um par de dentes-de-leão. Eu não consegui não olhar para elas. Não era a época de dentes-de-leão, mas elas estavam florescendo mesmo assim."

Assim, com essa cena forte e singela, começa o mangá.

Em nota talvez mais ou menos importante, essa primeira cena já me lembrou do poema A Flor e a Náusea, do meu querido Carlos Drummond de Andrade, que talvez seja o nosso escritor mais humano - como é Inio Asano: muito humano, muito sensível, muito doído. Enfim. Todo o oneshot, e o efeito que ele provocou em mim, especificamente no dia da leitura (um dia em que eu cheguei do estágio quebrada como tantos outros) pode ser comparado à flor. O que significa que eu gostei pra caramba dele.

"Subarashii Sekai", ou "mundo maravilhoso". A menina sobrevive, passando a ser perseguida pelo shinigami, e segue conversando com ele sobre as coisas da vida - podemos supor que ela é solitária. Um dia, na sala de aula, ela derruba uma borracha, e descobrimos a origem de toda a sua raiva: a menina sofre bullying, ou ijime, outro grave problema social no Japão, por sinal. Seja chamando-a de "lixo" ou colocando lixo em seu armário, é isso que ela é - lixo; e o abutre é aquele que se alimenta do lixo. Quem não é lixo, isto é, quem é o contraponto da protagonista nessa história? A garota que age como a "rainha da sala" porque o namorado dela ganhou um concurso ou algo do tipo. É ela quem não é lixo. O abutre diz: "E a rainha, para unificar seu reino, criou uma vilã: você!".

E o que mais ele diz nesse momento foi, possivelmente, uma das frases que mais me tocou na leitura: "O mundo das crianças é só a sociedade dos adultos escrita de uma forma pequena." O que vemos até então é que, por uma casualidade, uma questão de estar no lugar errado e na hora errada, a menina está errada. Enquanto isso acontece, há o contraponto: quem está certo. Isso é obviamente errado e infantil - afinal, o que acontece é um mero acaso - mas será que o mundo adulto também não funciona de formas arbitrárias? Segundo o corvo, ela "exala o fedor de quem quer morrer". E por que é assim? Por que uns ganham e outros perdem, e quem ganha quer viver, e quem perde quer morrer?

Continuemos.

O corvo continua importunando a menina, até que ela tenta cometer suicídio de novo - dessa vez, na frente de todos que cometem bullying contra ela. E quase consegue. No último minuto, em um ímpeto, ela se agarra ao corvo e, mais uma vez, sobrevive. "É um milagre!", ele diria. Ela vai parar em uma cama de hospital durante o seu verão, seus pais ficam naturalmente muito preocupados, ela se dá conta de tudo isso, e conclui: "Eu fico feliz por não ter morrido".

No outro dia, na escola, o corvo continua seguindo-a; não voando, mas timidamente. Uma pessoa vem falar com a garota; é a "rainha da sala", a que praticava bullying com ela. Ela tenta cumprimentar a rival, arrependida: "bom dia". A qual, por sua vez, exige o tratamento de rainha: "eu acho que você pode fazer melhor"; "isso é tudo que eu recebo por ser a rainha da sala?!". Ela inverte a sua posição de subjugada, elas andam para a escola, e o corvo nunca mais foi visto; o mangá se encerra com a imagem dos dentes de leão.



Daqui em diante, vocês só vão ler os meus comentários a respeito do mangá em um momento totalmente diferente da minha vida. Quando comecei a postagem, eu estava terminando a faculdade de Psicologia, bastante cansada (esgotada, a bem da verdade) e com uma mente bem mais aberta. Continuei a escrever um ano depois durante as férias do curso de Gestão Empresarial, muito mais triste do que cansada mas com uma mente muito mais fechada. O que significa que eu consigo olhar a mesma história um pouco menos da perspectiva da empatia com a menina fragilizada, e mais a lição que ela passa, e perceber por que Inio Asano é considerado tão genial: porque de qualquer perspectiva a história é muito completa e muito forte.

A lição metafórica é clara: o corvo importuna a menina até que ela desista, e quando ela desiste e tenta morrer, ela se agarra justamente ao corvo no último segundo e se salva. Acho que muita gente consegue se identificar com uma situação assim, de se agarrar justamente ao que está destruindo seus sonhos e perspectivas para se salvar, porque no fundo não quer que sua "identidade" deixe de existir. A depressão no seu último estágio tende a isso, quando não ao suicídio de fato, e acredito que a maneira pela qual a sociedade japonesa encara a depressão é exemplar não só das suas altas taxas de suicídio mas também da sensibilidade do povo japonês, capaz de um Inio Asano. Para falar de uma realidade mais próxima à nossa realidade ocidental, irônica e paradoxal, acho que é isso que a militância contemporânea representa - seja feminismo, negra, de classe etc. Muita gente se agarra a lutar contra aquilo que o destruiu. É tão natural, mas tão errado.

A lição como um conto é complexa, mas nem por isso menos clara: por mais que a garota se deixasse ser colocada para baixo pela "rainha", que se julgava cheia de sentido e de importância, ela tinha sentido. Era algo latente - o fato de ela existir era inegavelmente real. A flor do começo da história para a qual ela não conseguia olhar é como ela que escapa da morte e volta outra, e a rainha certamente preferiria não ver isso. Afinal, como ela surge tão diferente em um ambiente nada propício, depois de tentar cometer suicídio por conta de bullying e ainda na frente de todos? O triunfo é desconfortável por ser tão inegavelmente real. E o corvo, aquilo que importunava a menina, nunca mais apareceu. É uma história sobre esperança, mas que boa história não o é?

Sucede que ambas as interpretações possíveis, seja de uma visão mais distanciada ou de uma visão mais fria, são muito coerentes e muito claras. As boas histórias tem que ter mensagens claras, e talvez esteja aí a maestria e a sensibilidade deste autor. Preciso dizer que li Solanin e Oyasumi Punpun depois de ler Uma Cidade de Muitas Colinas, e apesar de não ter achado tão horrível assim, eu não gostei tanto de Solanin quanto desse capítulo (e nem gostei dos volumes que li de Oyasumi Punpun). O negócio de histórias multicapítulos é que a mensagem acaba se perdendo pro leitor enquanto a história se desenrola se ele não estiver muito investido e concentrado, e eu provavelmente não teria gostado tanto desse capítulo se ele focasse nas dores da menina enquanto ela está no hospital, por exemplo, ou no bullying incansável da rainha, que é o que acontece nas suas obras longas. Nessa obra curta, a mensagem é rápida e clara e sem enrolações e cenas muito impactantes, porque tudo precisa acontecer rápido.

Por isso, eu só posso recomendá-los que leiam esse mangá caso ainda não tenham lido. A arte muito bonitinha realmente complementa a sua mensagem impactante e transmitida através de garotinhas e flores como a coisa mais fofinha e casual do universo, o que realmente ajuda no seu impacto. Espero que tenham gostado desse post, dos meus comentários, e deixem aí se tiveram mais alguma reflexão a respeito dessa obra ou de Subarashii Sekai como um todo. Eu gostaria muito que a iniciativa tivesse dado certo, e torço para que mais pessoas se interessem por essa obra do Inio Asano, que apesar de ser tão secundária e pouco falada, me impactou muito positivamente quando da leitura. Espero que influencie vocês positivamente também. ^_^ Grata a quem leu o post, e até mais! ~

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