quarta-feira, 22 de maio de 2019

Anime: Tsurune - O que você faz depois de dar seu melhor?

Faça enquanto você pode fazer.

Olá! A resenha da vez é para falar sobre um anime de duas temporadas atrás - mais que atrasada, portanto - mas que quem me conhece saberia de cara que é exatamente o meu tipo e não poderia deixar de comentar neste humilde recinto. Kyoto Animation? Sim. Bishounen? Claro. Yaois? Opa. Cultura japonesa tradicional? Tem. Histórias de vida, mensagens profundas e coming of age? Senhoras e senhores...

Tsurune é uma série em 13 episódios, baseada em uma light novel ou em uma série de light novels publicadas pela Kadokawa, como tantas outras séries animadas pelo estúdio Kyoto Animation (Free! [resenha], Hibike! Euphonium [resenha] pós-2010. Tsurune conta a história de um jovem chamado Minato Narumiya que, por circunstâncias inicialmente desconhecidas pelos espectadores, deixou de praticar o kyuudou (ou, basicamente, arquearia) durante o ensino fundamental, mas se vê convidado a participar do clube de seu novo colégio agora no ensino médio. A princípio relutante, é a figura de um desconhecido atirando uma flecha no meio da noite o que o convence a voltar a praticar kyuudou, e enfrentar os desafios que vem junto com a decisão.        

Ai, pipipipopopo, KyoAni agora só faz anime de clubinhooo! é o que 90% dos fãs de animes devem pensar ao ler esta descrição. Não está totalmente errado em pensar que o enredo é clichê e lembra um tanto Free!! e Hibike! Euphonium, para citar os mais próximos, mas Tsurune não é nem um, nem outro. Felizmente para mim. Nada contra nenhum dos dois, mas eu pessoalmente prefiro Tsurune nesse momento da minha vida e posso explicar. Adianto: Se Hibike! Euphonium está para Gurren Lagann (er, só vai entender essa quem leu minha resenha) assim como Free!! está para UtaPri [resenha], Tsurune está para Ookiku Furikabutte [resenha no Suco de Mangá]. Tsurune, inclusive, me lembra um pouco Hibike! Euphonium [resenha] no sentido de que as mensagens de coming of age são o ponto forte do anime, que de maneira geral é um slice of life feel good pagando - aqui, ainda mais fortemente - de anime de esporte. Tem uma série de coisas na vida que são pouco ditas, e os filmes de Hollywood há muito deixaram de pregar a sinceridade. Mas, se em Hibike! Euphoniumapresentam-se mensagens um tanto jovens, aqui as mensagens são mais, digamos, universais, talvez.

Mas vamos voltar ao Tsurune.

A começar pelo nome do anime - "tsurune" é um termo do kyuudou para o som que um arco faz ao ser puxado, ou mais especificamente, a linha do arco faz. Só aí, já nos atentamos para duas qualidades do anime: a sua delicadeza, e a sinestesia que propõe o tempo inteiro.

Tsurune tem uma qualidade de produção que é basicamente KyoAni dando o seu melhor. Eu sei que repito sempre que escrevo resenha que "se é KyoAni, é maravilhoso" e não sei me isentar, mas o melhor do melhor é realmente bom. Não o seu melhor em opulência que nem em Violet Evergarden, mas o seu melhor técnico, que mesmo sem um carão de "gastamos milhões neste episódio, seus pobretões" ainda é bastante inspirada, cheia de símbolos e rica em detalhes; pequenos detalhes da produção dão a graça à visão.

Babei ou babei neste cabelo?

A delicadeza reside exatamente no fato de que a produção é linda. Repito: a produção é linda. Mas tenho muito mais coisas a falar sobre o meu novo queridinho, evidentemente. Ah! A produção é linda. Desde as folhas nos refletidas nos olhos do Minato nos em um dos episódio finais, remetendo ao famoso som a que o título do anime se refere, até a postura perfeita dos nossos admiráveis arqueiros dão a credibilidade que a mensagem singela precisa. Um parênteses: Tem muito anime que tenta passar uma mensagem essencial e faz uso de uma apresentação singela, mas se a apresentação só é modesta porque o estúdio não tem qualidade técnica, não é modéstia, mas pretensão. Forte da minha parte, sim, mas a real é que virou legalzinho dar ares de josei ao shounen mais raso, mas uma coisa acaba levando a outra. Traduzindo: história medíocre leva a produção tosca que leva a "vocês não deveriam estar mirando um pouco mais baixo...?" que leva a uma situação de ovo e galinha.

Mas Tsurune não é assim. Ao contrário, tem conteúdo. E outro parênteses: do que tenho visto parece que o anime tem mais conteúdo que as novels e não o contrário, atipicamente. Isto pode ser preocupante porque vai que acaba a inspiração dos produtores do anime e a coisa descamba, mas tenho fé de que KyoAni não dá ponto sem nó. Por ter o carro-chefe chamado Free!, acredito que tenham impedido que Tsurune fosse pelo caminho do fanservice raso, apesar de o material original ser a primeira vista cheio de fanservice para fujoshi potencial. Mas tinham os produtores uma escolha.

Voltemos. O anime é também muito sinestésico, a meu ver. Em muitos momentos ele nos convida a escutar imagens, como na cena mencionada das folhas nos olhos em que a coisa fica mais evidente, porque é o momento em que cai a ficha do "ah, sim, o anime se chama tsurune" para qualquer um, mas ela acontece, de verdade, o tempo inteirinho. A associação de sons e de imagens é sempre muito forte, e você não precisa de nenhum efeito sonoro de brilhos de shoujo para pensar nele ao ver aquele cabelo, ou de qualquer música triste para entender o quão destruído o Minato se sentiu ao perder na final do campeonato. Em alguns momentos parece rolar uma Soundtrack Dissonance, mas na real, é só a forma de Tsurune. E é por estas que eu descreveria Tsurune como, entre outras coisas, muito sinestésico. É em muitos momentos como assistir a um AMV bem-feito. É por essas que repito que a produção não é luxuosa, mas é muito cuidadosa.


Mas vamos ao que realmente nos interessa: o conteúdo. E por conteúdo eu quero dizer o enredo, mas mais ainda, os personagens. Aqui, os personagens são incrivelmente humanos. Seus traumas e sentimentos estão sempre escancarados para o espectador, mas destaca o fato de que cada um se encaixa na história de uma forma como uma peça indispensável, assim como são dispostos os membros do clube de arquearia em uma fileira de 5 durante a competição, cada um com seu papel. Cada personagem tem também o seu papel nos eventos cotidianos, e é a forma que um afeta o outro o brilho da história. Eu sou pessoalmente fã de histórias que focam em relacionamentos, mais do que de personagens fortemente individuais, e o fato de que a história original é basicamente fujoshi bait diz muito dessa organização da história, mas Tsurune tem bem essa coisa típica de shoujosei de focar nas relações mais que nos personagens isoladamente, e talvez seja este um dos motivos de eu ter gostado tanto da série. À exceção de um ou de outro personagem, como o protagonista e o husbando da galera técnica Masaki, os persdonagens não são incrivelmente cativantes e excepcionais, mas são simplesmente personalidades pouco notáveis tentando dar o seu melhor.                             

E, honestamente, essa é a melhor parte de Tsurune: personalidades pouco notáveis tentando dar o seu melhor. Que nem eu, que nem você, que nem a população mundial inteira e especialmente a população asiática, eu suponho. Tsurune é tão... quintessencialmente japonês em todos os sentidos, não é não? Enfim. Supondo que você seja mais um ser humano na face da Terra não entendendo muito bem o que raios está acontecendo e simplesmente dando o seu melhor para se esquivar de ou resolver situações, surpresa, surpresa, Tsurune é sobre você. Se você0 é mais um adulto tentando não falhar miseravelmente em ser um adulto apesar de a vida nunca ter te dado um manual de como ser adulto, surpresa, é sobre você mas é sobre o Masaki também. Ou talvez você esteja se esquivando de amigos de infância pouco desejados, perseguindo crushes que não te querem ou arrumando inimizades por nada, que são coisas que os personagens fazem. Nada especial, não tem nenhum barco legal [resenha] neste meio, as coisas só acontecem e vão se acumulando sem desfecho. Meio que nem a vida. Às vezes, o melhor não é o suficiente para resolver as coisas. E daí vem a grande questão, que é só uma das grandes questões que Tsurune coloca - o que você faz?


O anime abre a discussão de maneira tão sincera que me senti travando um diálogo. Cada um dos personagens tem uma forma de lidar, e existe a sugestão latente de que a forma do protagonista é a correta, porque Tsurune ainda é um anime de esportes e portanto precisa ter uma mensagem de guuuts! e perseverança, mas é muito legal ter ali outras visões. Desde o Seiya, que persegue silenciosamente - quase que sorrateiramente - os seus objetivos, até o Merha-Nanao que é o epicurista de plantão, cada um tem uma forma diferente de lidar. E o reconfortante é que cada um deles tem lá o seu papel no grande - e bota grande, competição nacional! - cenário que vai se desenrolando. 

Ademais, do ponto de vista de uma recém adulta - ou não tão recém, vai - é legal o quanto, apesar de ter um elenco jovem, Tsurune aborda questões que são universais e, ainda que o drama do Masaki seja de longe o mais fácil de se identificar, porque é literalmente "minha rebeldia só me fez perder tempo" - literalmente, todos. Nós. - todos os outros são simples e de fácil identificação, também. E, claro, a questão de perder pessoas queridas também é muito forte em Tsurune, e talvez seja um outro ponto que me levou a me identificar rapidamente com o drama dos personagens e entender de onde eles vem.  

Em síntese, são questões bastante universais e "para todo mundo" que fazem o enredo de Tsurune, ainda que a sua magia resida na apresentação, e neste sentido não sei se é tão palatável. Nem todos gostam de uma coisa tão feel good, especialmente para um anime de esportes, mas é inegável que o anime faz no mínimo bem aquilo a que se prestou. Que é, bem, ser um anime de esportes feel good.

Enfim., espero que tenham gostado dessa resenha humilde depois de literalmente um ano, acho, sem resenhas neste blog. Pretendo voltar a postar resenhas aos poucos, se a vida e a agenda permitirem. Por hora, deixem aí sugestões de outras séries para eu assistir. ♥ Até a próxima! ~ 

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