quarta-feira, 25 de julho de 2018

[Mangá] Bokura no Hentai - Os limites entre transexualidade e cross-dressing

Não existe um consenso geral quando fãs de animes e mangás discutem sobre o que "trap" deveria ou não significar, alguns acham que é okay, outros consideram totalmente ofensivo, outros tentam criar um meio termo, mas as vezes o problema não é a denominação, mas sim o quanto entendemos sobre o assunto.



Bokura no Hentai é um mangá de 2012, escrito e desenhado por Fumiko Fumi na revista Comic Ryu, mangá que desenvolve sua história com um ponto em comum entre os protagonistas, e ramificando seus temas de acordo com a ação de seus personagens, o ponto comum em questão é o encontro do trio em virtude de um mesmo assunto, cross-dressing.
Tamura se veste de mulher para o homem heterossexual que gosta. Ryousuke se veste à imagem de sua irmã para ajudar a mãe sofrendo com o trauma da perda. E por fim, Marika, uma mulher transexual, que mesmo sempre sabendo e sentindo que é uma mulher, tem suas inseguranças por causa das suas experiências de vida, e por causa de seus crescimento e as mudanças que vem com a puberdade. 
Foi essa exata sinopse que me deixou curioso e me fez ler o mangá, é raro uma obra nipônica abordar transexualidade e gêneros abertamente, ou na maioria dos casos, ofendê-los tão abertamente. 
Bokura no Hentai acerta em tratar de seus temas com delicadeza, ele trata de temas sérios e pesados com uma leveza que não pesa em sua leitura, sempre mantendo um sentimento alegre para neutro, dando o merecido climão para aos poucos desenvolver seu enredo.
A história trabalha um período relativamente longo da vida dos personagens, dando tempo suficiente para que eles cresçam e mudem, que na minha opinião é onde a obra brilha. Ele começa sua história mostrando os problemas dos personagens e como esses problemas dão a eles, além de mais problemas, também motivos para seguirem em frente.
Quando a sua abordagem de gêneros, ele trabalha diversas frentes do assunto que, para a maioria, ainda é um tanto complicado. Tanto da relação das outras pessoas com gêneros fora do padrão habitual quanto a pessoas descobrindo e entendendo os próprios gêneros, com o maior destaque é claro para a Marika, a mudança dela é a de maior escala na obra, ela ajuda a entender vários dos preconceitos que a transexualidade traz consigo, entre eles, a tão notória denominação do que seria uma "trap", ainda acho a denominação vulgar, porém, o mangá se sai bem com ele e em vários momentos deixa claro "Marika não está fazendo cross-dressing, ela é uma mulher", acho que essa frase por si só já aplica ao conceito o porquê do termo trap ser tão ofensivo, basicamente, ele diminui a causa e existência de alguém que já trilhou um caminho árduo para a própria aceitação. Em contra partida, temos Tamura, que se traveste com o único objetivo de ter relações sexuais, ele é um homem homossexual, igualmente, com suas próprias lutas e caminho trilhado, e também com suas escolhas, estando entre elas, o cross-dressing, ele mesmo se denomina como "trap", e convive sem problemas com o termo. Enquanto Ryou, como um rapaz heterossexual, começa aos poucos entender mais sobre o assunto e sobre si mesmo apenas por conviver com seus amigos, entendendo aos poucos que não tem nada de errado ou estranho no cross-dressing ou na própria transexualidade, ajudando ele mesmo a se aceitar melhor pelo que tem feito na sua vida, ajudando-o a carregar uma carga emocional pesada que ele traz com seu passado.
O mangá, com sua delicadeza em tratar de um tema incomum no Japão, é uma ótima porta de entrada tanto para quem tem suas dúvidas sobre o assunto quanto para quem tem suas dúvidas sobre si mesmo, isso sem perder o fator de enredo, trazendo um drama coerente com seu tema sem perder o que tem de informativo sobre o mesmo, deixando de lado o pré-conceito tido sobre grande parte das coisas que rondam as diferenças de gênero, mas claro, tudo isso só será positivo caso se esteja aberto ao tema. A importância dele é realmente significativa pois lidar com temas como transexualidade é como pisar em ovos, pois a informação que é chega aos que olham de longe é ínfima, fazendo confusão no que as pessoas conhecem sobre e assim trazendo o preconceito e ignorância sobre o mesmo, mídias de fácil acesso e entendimento para quem ainda tem o que entender sobre algo é essencial, e esse mangá traz essa característica, trazendo sua importância.


A obra não é de toda perfeita, e ela tem seus erros aqui e ali, mas nada que estrague o andar geral dele, sendo bom o suficiente para me deixar com saudades após seu término, pois, além de muito delicado, instrutivo e denso, ele também possui vários personagens incrivelmente carismáticos, que são os responsáveis por manter o leitor preocupado com como irão lidar com suas diferenças e problemas, fazendo o mesmo aprender com eles no processo, trazendo não só a experiência, mas também mantendo-se vivo através dos questionamentos que gera, uma ótima leitura para os interessados no tema (ou em um drama particularmente diferente). 

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