sábado, 17 de fevereiro de 2018

Sessão Nostalgia: A história do mahou shoujo, ou por que Sakura Card Captors: Clear Hen presta .

  
 Olá, gente!

O post da vez que escrevo no calor do ônibus da viagem a trabalho é  para contestar e dissertar sobre um assunto que li muito por ai: Clear Card Hen estar chato. Li marmanjos falando por aí. Eu não quero convencer ninguém de que não está chato, e eu mesma não aguentei me atualizar ainda porque dá aquela sonolência quando vou assistir. A questão são os motivos. Tem gente em verdadeiras crises: quem sou eu? Pensei que gostasse de Sakura se até Tsubasa eu curti pacas? CLAMP, volte a sua forma original!!.

Quem é você para falar que... Olha, Sakura foi meu primeiro mangá e se eu aprendi alguma coisa em 24 anos de vida certamente não foi Física Quântica.  Eu venho pensando, confesso, em deletar ou mudar radicalmente o blog porque afinal #meublogminhasregras e retomar o ar personalista que tinha no começo, porque sinto que tenho pouco a oferecer aquela velha competição por publicações rápidas sobre series in que poucos têm tempo de ler infelizmente . Mas então me surgiu isso, e eu lembrei exatamente por que tenho um aniblog: para falar sobre aquilo que gosto e tenho propriedade para falar sobre, e dar voz a vozes raramente ouvidas ou tomadas por relevantes. Então, diga ao povo que fico. E agradeçam CCS ^_-  

Então, vamos do começo.

Card Captor Sakura é originalmente uma série de manga, que começou a ser serializada em 1997 na (saudosa - podemos admitir que aquela já não existe mais) Nakayoshi, lar de séries como Sailor Moon e Rayearth alguns anos antes já bem estabelecida e renomada. Não era uma revista adulta, era bem de shoujo infantil - ao contrário do formato atual - mas também não tinha um teor tão puritano quanto uma Ciao ou Ribon. Apesar da popularidade e da demografia um pouco mais velha, eram essas suas concorrentes em termos de revistas que serializavam mahou shoujo.

A Ciao é uma revista de garotas olhudas que serializou, entre outros, Hamtaro, Super Pig e Mirmo Zibang (olá, pessoal dos anos 90 que entendeu bem!) mas também Utena. Utena, aquele que até hoje eu tenho uma vergonhazinha de ter na minha estante porque até minha família tem certeza que é coisa de lésbica e dá um trabalho esquivar dos questionamentos finais de ano. Utena.

A Ribon é outra revista de garotas olhudas, lar de Arina Tanemura e Wataru Yoshizumi, entre outras popularzonas. Revista de Kodocha, Akazukin Chacha, Marmalade Boy, mas também Gals. Quem conhece sabe que Gals não é exatamente o cúmulo da inocência mas definitivamente é infantil e procura ser boa influência.

Mas a Nakayoshi era definitivamente o grande nome nos anos 90, com as supracitadas. Era difícil nomear uma série shoujo mais popular que Sailor Moon ou Card Captor Sakura naqueles tempos, não só nacionalmente.

E o que essas revistas estão publicando hoje? A Ciao segue focando em mahou shoujo e publicando os Pripara da vida; a Ribon, ali no meio-termo, publica algumas séries de fantasia mas principalmente romance como Romantica Clock; ousada, mas não tanto quanto a Nakayoshi e romances que beiram o "tem certeza que é shoujo?" como o popular Watashi ni xx Shinasai! e outras séries que evidenciam a total falta de rumo dessas publicações shoujo outrora famosas. Ué, por que? Garotas não lêem mangá agora? Na verdade, a popularidade delas migrou para um outro estilo de séries - as séries que todos conhecem atualmente por shoujo como se fossem o único tipo de shoujo: romances escolares açucarados.

No começo dos anos 2000, a Hana to Yume de séries como Fruits Basket, Gakuen Alice e Skip Beat, bem como a Margaret mas sobretudo a Bessatsu Margaret de séries como Aoharaido, Kimi ni Todoke e Ore Monogatari tomaram o lugar até literalmente. O que aconteceu exatamente com o mahou shoujo é um mistério para mim, mas possivelmente as garotas cresceram, enjoaram e passaram a preferir as séries de garotas normais e identificáveis ao invés de esperar eternamente a carta de Hogwarts. Coincidência ou não, e eu não sou nenhuma expert para dizer que não foi, tivemos desde aquela época o surgimento e ascensão dos otome games e consequentemente dos animes baseados em otome games, o que significa que tinha mais um fator para tirar a atenção dos mahou shoujos - e não raras são as protagonistas que vivem em um mundo cheio de magia e aventura mas, oh, são apenas garotas normais!

Enquanto isso, a popularidade tamanha das séries de mahou shoujo dos anos 90 fez com que um público fora da demografia começasse a se envolver e produzí-las.  Muito antes de Madoka Magica, séries de uma década antes tratavam de garotas mágicas mas definitivamente não tentavam apelar exclusivamente para garotinhas. Essas séries não foram exatamente a porta de entrada para que uma demografia masculina e adulta abraçasse garotas mágicas - afinal, Creamy Mami e Minky Momo já existiam uma década antes, e Cutie Honey nem se comente - mas com certeza séries como Utena e Sailor Moon provaram para indústrias que era possível (gasp!) ter garotas mágicas e conteúdo profundo. É a coisa da demografia: ela existe, mas não impede ninguém de gostar de uma coisa fora da sua demografia, especialmente não quando mahou shoujo tinha ótimas waifu.

E gradualmente surgiu a cisão dos mahou shoujo para as crianças novinhas que não tinham crescido com essas séries e os famosos mahou marmanjos.  Nos anos 2000, já era possível identificar alguns estilos de mahou shoujo e algumas tendências que apontavam para o futuro. (Trovões de desespero ~ ) O futuro, porém, ainda era desconhecido e as séries não se posicionavam definitivamente. Havia séries como Ojamajo Doremi, Tokyo Mew Mew e Precure que faziam sucesso com as menininhas pequenas que ainda não haviam saturado de mahou shoujo açucarado, e não faziam questão de convidar homens ou adultos para a festa. Mas tendências ganhavam força em paralelo.

Anime original de garotas mágicas nos anos 2000 começa com um Bottle Fairy cá, um Kaleido Star acolá, ali um Princess Tutu e quando vê tem tendências realmente estranhas? O que explica Uta~Kata? A mesma coisa que explica o surgimento e popularização de Happiness!, remake de Cutie Honey focando na estética de mahou shoujo e sequências de transformação, e as coisas escalando de Dokuro-chan a Moetan e a Madoka Magica, que não foi mais do que o óbvio culminando no óbvio. Óbvio: mahou shoujo virou mainstream e estava aberta uma porta para exploração de "mahou shoujo" que não era mais no sentido de "demografia shoujo" mas sim garotas mágicas nas mais diversas demografias e alcances. Majokkos são moe. Aceitem a mudança.

Vamos não falar de Madoka. Ainda no começo dos anos 2000, a Gainax fez o anime de Petite Princess Yucie baseado em Princess Maker mas com um apelo definitivamente mahou shoujo que não necessariamente havia nos games e levando em consideração que é o jogo com vibes hentai da Gainax, isso representa muito. Falando em Gainax, até a Sra. Hideaki se aventurou no gênero com Sugar Sugar Rune em 2004. Falando em aventuras mahou shoujo, Shugo Chara - um dos mahou shoujos verdadeiramente shoujos mais populares dos anos 2000 - é da Peach-Pit, famosa por ter criado Rozen Maiden, aquele mangá tornado anime de bonequinhas falando que definitivamente virou um dos shounen de harém mais popular na sua época ~ desu. Shounen de harém aliás foi um gênero que perdeu popularidade.

Com tudo isso, o que quero dizer é que Madoka não é o divisor de águas que alguns ocidentais pensam porque os mahou marmanjos já existiam - e claro que eram muito mais nicho diferentão escondido no ocidente - mas definitivamente dividiu águas no sentido de que hoje ninguém  questiona Fate Prisma Illya e similares, afinal nada mais normal que homem gostando de mahou shoujo. É até o padrão talvez.

 E aí que está afinal:  a diferenciação do que é para criancinhas e o que é para marmanjos passou a existir a partir do momento em que o que é para marmanjos virou o padrão. As séries de mahou shoujo para crianças passaram a ter estéticas bem over the top e bem particulares. Novamente, não sou expert, mas tenho a sensação de que a mudança aconteceu como uma forma de gritar "ei, sou shoujo, brilhos purpurina" . Eu poderia fazer um post zoeira para falar sobre como homens obviamente não gostam de brilhos purpurina, mas a questão é entender que há agora uma diferenciação estética. Em nota, tenho 24 anos e adoro brilhos purpurina, Pripara e se fosse homem provavelmente seria um marmanjo das majokko.



E Card Captor Sakura surgiu no naquele fim dos anos 1999 em que tudo era mahou shoujo e experimentação no gênero. Definitivamente shoujo de garota mágica, mas CLAMP nunca foi Wataru Yoshimizu - definitivamente um grupo de mulheres que emergiu desenhando yaoi não tem grande compromisso com a pureza. O que significa que tranquilo uma controvérsia ali, uns gay cá (e lá, e acolá, e) uma pedofilia ali e coisa e tal. Tá de boa. Apenas mahou shoujo do CLAMP.  A adaptação era inegavelmente shoujo, mas respeitosa ao material original em comparação a outras séries, e se tinha alguma controvérsia ou um ar mais sério que outras séries era porque o material original já tinha. E a estética não tinha a obrigatoriedade de ser "extremamente shoujo". Várias coisas diferentes de hoje simplesmente porque a indústria era outra, não porque se queria fazer assim ou assado.

De fato, nos Estados Unidos Sakura foi promovido de uma forma quase "unissex", com uma abertura muito menos fofinha que a original e uma voz menos aguda, por exemplo. Sua popularidade no Ocidente é em muito devida às alterações feitas nesse sentido. [Fonte] Era possível modificar, porque ainda que inegavelmente shoujo, Sakura tinha conteúdo e ia na linha dos seus contemporâneos.  Coisa mais difícil de se fazer com um Tokyo Mew Mew e outros posteriores, que gritavam "paleta cor-de-rosa!" e outras coisas que diferenciam de um Nanoha ou outro mahou shoujo não-infantil.

Clear Card Hen se baseia fielmente no mangá, e se propõe não fazer grandes alterações à história - o que não era uma tendência nos anos 90 em que só se queria vender brinquedos - e por fim propõe ser muito próximo ao manter praticamente o staff inteiro de 2 décadas atrás. É muita coisa. Madhouse mandou ver na animação. Não houve desrespeito. Ao contrário de um Sailor Moon Crystal, CLAMP segue em franca atividade e tem decisões e controle. As coisas foram feitas do jeito mais certo que poderiam ser feitas para uma continuação 20 anos depois, até porque nesse inteirim houve Tsubasa e todo o CLAMPverse desenvolveu-se. A culpa da chatice não é da produção. Nem do CLAMP. Nem sua, mas você já não é nem de longe o público alvo.  

Enfim, todas as coisas que foram mudadas em Sakura Card Captors foram realmente para adaptar a série aos novos tempos. Está bobinho? Sim, mas ei, os anos 90 eram época de Sailor Moon e Evangelion bombando entre as crianças. Está homofóbico? Um pouco e tenho medinho.  As vozes estão tão agudas quanto deveriam (afinal, a tendência de vozes tão femininas quanto a do Yukito só fez crescer) e os celulares foram atualizados. Ah, e claro, todo mundo manja CLAMP bingo. Somente o óbvio. 

Até a proporção ridiculamente alongada para um garoto de colegial não mudou. Nadinha mudou mesmo.

 Em resumo: Você tem o direito de estar achando Clear Card Hen chato, mas não é porque Sakura Card Captors mudou. E não é necessariamente porque você mudou. Talvez essas sejam as coisas menos mudadas na história inteira, por mais incrível. É porque os tempos mudaram, a indústria mudou, o mundo mudou. O que era revolucionário em Sakura na sua época - a forma de misturar o SoL na vida de uma garota mágica, relacionamentos amorosos profundos, um macrocosmo complexo e reviravoltas - virou lugar-comum, a estética precisou ser dramaticamente feminilizada e kodomizada (vulgo equiparada à de outras séries kodomo - oi, neologismos!) para corresponder à tendência atual das séries shoujo de Sábado, o anime não sofreu alterações para se conformar a um padrão ocidental e outros motivos que podem te fazer consciente ou inconscientemente rejeitar Clear Card Hen.
  
O que não tira os seus méritos como série de mahou shoujo isolada, porque em comparação a outras do seu tempo é até bem nobre no sentido de que não é extremamente apelativa para marmanjos sem perder o moe, é extremamente infantilizada e inegavelmente kodomo e episódica sem ser bobinha, a animação não decepciona jamais e com certeza tem um apelo nostálgico para gente que nem eu. Resta, por enquanto, o suspense se a progressão e o final vão corresponder à emoção da série original.

Enfim, espero ter elucidados vocês sem me mostrar muito pró nem contra Clear Card Hen. Assisto aos poucos, não amo até porque nunca fui amores por CCS ou CLAMPverse mas respeito os méritos que a série possui e espero ter revertido alguns julgamentos precipitados. Até a próxima ~    

4 comentários:

  1. Que post maravilhoso!Sakura é um dos meus animes favoritos e marcou muito minha infância!(foi o primeiro anime que vi na vida!).Adorei,ficou muito bom!<3333

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    1. Oi angel chan! Primeiramente desculpa minha demora em responder e super obrigada por comentar ♥ Espero vê-la novamente e até ~ *

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  2. Ahhh gostei muito de ler este post! Adorei a forma como foi explicada a evolução da "indústria mahou shoujo". Ao mesmo tempo, deu para reviver uma enoooorme nostalgia da infância, ao ler todas essas referências que me animavam os dias!
    Honestamente, ainda não vi esta nova animação de CCS. Depois de Sailor Moon Crystal (só assisti a primeira temporada de, tal que foi a desilusão), e de também verificar vários comentários negativos acerca de Clear Card Hen, fiquei de pé atrás e acabei por nem começar. Por outro lado, tenho sempre aquela curiosidade.
    Acredito que eventualmente acabei por lhe dar uma chance e assistir, pelo menos, 1 episódio ><
    Parabéns pelo post!

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  3. Oi, Ani! Primeiramente, muito obrigada por comentar e desculpa o meu atraso porque eu perdi totalmente a notificação ; ; ;

    Feliz que a postagem esteja legal e super entendo porque eu demorei bastante justamente porque não curti SMC tanto assim também, mas achei Sakura bem fofinho. É aquela coisa, não é o que era porque eu não tenho a mesma paciência para ritmo episódico mas não é culpa do anime em si, penso eu.

    Super obrigada por sua visita, e desculpa mais uma vez! m (_ _) m

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