quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Aku no Hana, a sociedade e sua instabilidade

Provavelmente o timing para se falar desta obra já se foi há muito tempo, porém, Aku no Hana é um caso que vale a conversa, e bem, eu já estou enrolando esta conversa faz um bom tempo, afinal, Aku no Hana é provavelmente a obra japonesa mais injustiçada dos últimos anos.



Originalmente publicado de 2009 há 2014, Aku no Hana é um mangá de drama repleto de tensão psicológica, o típico "deep but not much", saindo pela Bessatsu Shounen Magazine, sendo um mangá relativamente popular e tendo uma das adaptações animadas mais odiadas da década.
Eu vim por ler o mangá apenas em meados de 2016, porém já tinha assistido a versão animada (e não odiado ela), e por mais que ele tente muito parecer profundo, ele apenas aumenta sua densidade, sem mais rodeios, vamos para uma breve sinopse.





Takao Kasuga, um comum adolescente edgy que tem uma paixão profunda por livros complicados para a maioria, sendo seu favorito As Flores do Mal (Aku no Hana, sim). Um dia, por puro impulso, ele rouba as roupas de ginásio da menina que gosta, Nanako Saeki, mas ele acaba se arrependendo, porém, tarde demais, Sawa Nakamura, uma colega de personalidade tóxica e perigosa, viu todo o ocorrido, e o obriga a criar um "contrato", onde ele faria tudo que ela quiser em troca dela não contar nada sobre o que tinha visto.

Essa sinopse é terrível sim, porém, suficiente, pois o mangá inicia basicamente com isso, e passa um bom tempo trabalhando apenas essa fase do "contrato", que é lenta, bastante lenta, porém, que trabalha até bem a relação dos personagens se desenvolvendo, mostrando aos poucos que Takao não é tão diferentão quanto acha ser, que a Nakamura é muito mais pirada do que todos esperavam, e que a deusa do amor Saeki não era uma entidade tão distante assim, mesmo com o eterno ar de calamidade, há um certo ar positivo sobre como as coisas andam, um ponto até parecendo andar para um caminho sem fim.
Para mim, é a partir dessa parte que o mangá realmente começa, o caos. Por mais que a reviravolta principal soe um tanto corrida quando comparada com o ritmo anterior, é onde ele brilha, a imprevisibilidade e rebeldia, momentos onde a moral social é desafiada e abandonada apenas pela impulsividade, anarquismo puro, é o tipo de reviravolta que realmente causa aflição, pois o mangá cria muito bem todo um ambiente social consolidado anteriormente, com toda pressão das pessoas saberem seus segredos profundos e o constante perigo de que isso venha à tona, é um tipo de tensão dramática fácil de trabalhar, mas ainda assim muito efetiva, pois todos podem se relacionar facilmente com ela, todos estão sujeitos a quebrar sem aviso prévio.
Por mais que seja um drama psicológico um tanto pobre, ele sempre me pega, e em Aku no Hana o tom anárquico foi muito bem usado, dando um real tom de clímax muito antes de seu real fim.
A terceira e última parte da história retorna ao tom lento, e apenas revisita o que ele trabalhou nas partes anteriores a fim de reaver o que havia passado, de uma forma mais segura e controlada, deixando o círculo social do começo redondinho de novo, não da mesma forma que antes, e ainda deixando as marcas do passado, mas ainda assim com o tom levemente otimista que tem no começo, e mesmo que soe como um final um tanto "out of nowhere", acho que é o final adequado, pelo menos, soa mais como o que aconteceria quando se tenta fugir de algo, porém, em termos de leitura no geral ele tem um gosto insatisfatório, porém, isso não pesa muito no resultado final.

Por mais que o mangá não seja tão profundo quanto ele tenta mostrar ser, ele faz muito bem o seu trabalho dentro desse gênero de "dramas densos para adolescentes", pois algo que até mesmo os mais introvertidos temem é o julgamento em massa, mesmo que nem notem que esse medo exista.




Agora, vamos focar na ovelha azarada de toda essa obra, sua animação, odiada por muitos, e apenas odiada mesmo. O anime é feito com base na rotoscopia, usando filmagens reais e apenas as redesenhando, algo que funciona quando se quer dar um tom de irrealidade, porém, com resultados bizarros quando se trata do contrário. Buscar a realidade em algum anime sempre é bem desafiador para os animadores, especialmente quando é uma obra que exige tanto de expressão facial, representações realmente fortes. 
O resultado do uso da rotoscopia não é dos mais bonitos, mas é com certeza muito efetivo nesse sentido, as expressões estão ali, não estão bonitas, mas mais reconhecíveis que nunca, quando engajado, o espectador realmente fica preso dentro da tensão, porém, o problema é justamente esse, conseguir se engajar no estilo de arte, pois como dito acima, ele fica realmente feio, por parte pouco aceito por causa da "geração moe", e parte também porque é desconfortável mesmo, tem pessoas mais sensíveis a isso e não há o que discutir, ainda mais considerando que seu roteiro não é lá o mais filosófico profundo de todos, é fácil se dispersar nele quando usado em um timing da animação, e não um timing pessoal como é em uma leitura. O que quero dizer é: O anime não é ruim, ele é difícil, apenas isso, tanto que, foi através dele que eu resolvi ler a obra original e por fim, escrever essa postagem muito atrasada (parte também porque eu sou muito indie pra gostar de algo que outras pessoas gostam).

Algo que mesmo quem odeia o anime concorda é que a trilha sonora dele é bastante estranha, porém boa. Dando o primeiro destaque para o encerramento, que abandona conceitos de sonoridade e ritmo, mas mantém um pouco de melodia, dando uma sensação realmente desconfortável, porém, ainda boa de se ouvir, que gera curiosidade.
A abertura é dividida em uma parte para cada personagem, sendo dividida no decorrer do anime, com cantores que obviamente estão ali para representar os personagens também, tendo a abertura da Nakamura cantada pela Mariko Goto, já conhecida por ser completamente doida e imprevisível, a abertura do Takao cantada pelo Noko, conhecido pelo seu egocentrismo e desapego à socialização, e a abertura da Saeki cantada por uma cantora pop que eu não gosto tanto assim (desrespeitoso sim, desculpa).

Por fim, Aku no Hana é uma obra que não é excepcional em tudo que faz, mas é suficiente na maioria dos campos, e seus bons momentos são realmente muito bons, que fazem valer a sua leitura, ainda mais para os que conseguirem se relacionar com os pontos da história que não são tão em vista assim, pontos que para mim, na maioria das vezes, são o complemento perfeito pra qualquer história, e deveriam ser mais bem explorados, tanto por autores quanto pelos leitores.


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