domingo, 12 de novembro de 2017

Música: Kidney function is not a right it’s a privilege - A cultura do K-pop e meus temores


 Contexto. 


Raios problematizadores, vão!


Olá, galera. Eu podia fazer coisas úteis - estudando, digamos? - mas estou optando por escrever um post relativamente inútil para vocês que também tem tendência a problematizar coisas aparentemente inocentes. Afinal, como diria Douglas Adams:

1. Anything that is in the world when you’re born is normal and ordinary and is just a natural part of the way the world works.
2. Anything that's invented between when you’re fifteen and thirty-five is new and exciting and revolutionary and you can probably get a career in it.
3. Anything invented after you're thirty-five is against the natural order of things.


Eu estou para fazer 24, o que justifica. Explicadas essas coisas, vamos ao assunto. Que nem chega a render, praticamente um desabafo.




Eu gosto de pop coreano. Não, sério. Sei que é chocante para quem lê o blog, só que não. Eu gosto porque há uma década atrás eu já acompanhava pop japonês e a hallyu tomou conta do Japão e assim fui. E tem muitas crianças que crescem gostando de pop coreano. Eu não sei que houve - provavelmente minha ausência, já que tudo que eu gosto flopa ainda que seja maravilhoso? Refletirei - que a hallyu tomou conta do mundo de um jeito insano nessa última década. E com insano quero dizer que eu vou ao shopping e tem criança com camiseta do BTS e gargantilha da IU, e ainda assusto.


E obviamente isso significa que tudo aquilo que eu tive uma década de leitura, discernimento e reflexão para absorver e entender, as crianças de hoje estão recebendo mastigado (praticamente cospidos) e sem entender bosta nenhuma. Vamos ao que eu penso: corresponsabilização. No caso, um mea culpa.


Eu tenho o background necessário, I got it. FFS, eu comecei a ter amigos que gostavam de música oriental - particularmente, japonesa. Particularmente, vocês já viram os fanservice do visual kei nas décadas 90 e 2000? - e eu sei que as coisas são assim por motivos X, Y, Z. Começo com um machismo ali, uma revolta aqui, umas desenhistas muito talentosas fazendo uns shoujo homoeróticos porque namorar homem era bosta. Nos anos 80. Nos anos 90, as desenhistas começaram a fazer doujinshi e outras coisas mais homoeróticas - daí, BL. E nessa mesma época surgiam uns visual kei diferentão - não pensem que X Japan fazia fanservice nos anos 80 e tal. O fanservice nesses estilos surgiu realmente com gente que nem Gackmaravilhosot e Miyavi e tal, já nos anos 90 para 2000. E daí para ir para grupos da Johnnys Entertainment foi um salto infeliz. Aliás, nem daí - pessoal que nem o Access já fazia um fanservice legalzão no palco nos anos 90. Tudo pensando nas “fujoshi” emergentes.



Um momento para eu falar sobre o Tegolindo e o Masufofo que fazem fanservice com velhos porque é 2017 e eles tem 30 anos e fazem o que quiser, mas é perturbador pensar que ele surgiu nessa Disney japonesa que é a JE. Verdadeiro “que monstro criei?”. Prossigamos.

Voltando ao assunto, então essas coisas de fanservice em pop surgiu realmente no pop japonês, especialmente no “nem tão pop” japonês. Não me surpreenderia se Gravitation - aliás, que contou com composições e inspirações do Daisuke Asakura do Access entre outros músicos, que coincidência sqn - estivesse certo o tempo inteiro sobre speculah de rpf, e no final das contas essas coisas acontecessem mais por “já pensou como seria legal se a gente pudesse se pegar no palco e atrair esquisitonas aos nossos CDs” e menos por “obviamente existe um público enoooorme que vai adorar isso porque fizemos estudos sociológicos cautelosos”. Er, na verdade me surpreenderia sim.
Fast-forward. K-pop começa a se popularizar e demora um pouco até o pessoal aceitar essas coisas de fanservice gay que já estavam amplamente populares no Japão, por quê? Porque enquanto a cultura japonesa nunca teve propriamente uma visão religiosa sobre homossexualidade - a maior opinião dos japoneses sobre homossexualidade era provavelmente “primitivo, que nem os samurais históricos” até a onda pró-gay mundial nos anos 70 ... ? - a Coréia do Sul é cristã é não criou o BL, então vai vendo. A cultura coreana já pegou a coisa do fanservice mastigada - o famosissimo Pepero game nada mais é que o Pocky game - mas incorporou por qualquer motivo que eu mesma não entendo e tem essa coisa tão bipolar quanto a nossa cultura ocidental de que “homossexuais são nojentos a menos que sejam ídolos gatinhos se beijando na frente das câmeras”. O que às vezes confunde… muito.

E com confunde eu quero dizer que as opiniões no k-pop vão desde “não me importo se se beijarem desde que meu oppa não seja gay” passando por “SNSD Madonna coreana” até “respeite as preferências dos idols, não se metam nas vidas, fanservice é péssimo”. Existe literalmente qualquer tipo de pensamento possível e imaginável sobre esse assunto no meio do pop coreano, exatamente porque a hallyu é essa mistura de backgrounds e públicos.  E infelizmente não me lembro de nenhum momento agora, mas mostras de homofobia da parte de fãs e curiosos não são raras e comentários de netizens que misturam curiosidade e raiva sempre que surge alguma fofoca de que alguém é gay de algum website de notícias desesperado por atenção, em geral a Coréia do Sul é homofóbica e confusa.




Bom, por que eu cheguei nisso? Agora vamos à parte séria. Recentemente eu vi um clipe, de um grupo rookie que me interessou bastante desde que surgiu mas nunca acompanhei. Beleza. O clipe no caso era…




Você realmente não precisa ser nenhum gênio para entender que um grupo de garotos dizendo “my eyes give shining signs to others” e comendo uma banana de outro ou discutindo alianças não é exatamente… heterossexual. É o contrário. Ok, “beleza” - ou não beleza, afinal o que raios a Cube está fazendo … não basta lolicon - E daí, beleza. A questão aí é que não é “fanservice” genérico, não é Wish Tree que é romance e nem All In que é “historinha ft queria ser 1 banheira”, é “vamos incitar atração homossexual porém no homo coreanos são homofóbicos” e os comentários endereçam absolutamente qualquer coisa no MV exceto o conteúdo. O conteúdo foi literalmente jogado para baixo do tapete.


Mas o MV existe e o conteúdo existe, e é ele meu assunto.


Então essas coisas - um fanservice ridiculamente abusivo de garotas de 16 a 20 e poucos anos já extensivamente comentado no NOT LOLI, HUR mas também um fanservice ridiculamente abusivo de garotos de 16 a 20 e poucos anos - existem e não são endereçadas. Se você não conhecer esse background inteiro que eu tentei explicar sem nenhum estudo em 20 minutos, é provável que você naturalize a mudança histórica de “beijinhos no palco kawaii xD” a “what’s the point in saying it if it’s obvious *morde banana e ignora subtextos*” afinal Sempre Foi Assim, só que não. Chegamos em um momento em que as pessoas comentam extensivamente a estética do negócio - mas a música é bop? Cute ou sexy? Belas cores? O que dizer do relógio na parede?? - e a essência - GAROTOS! EXPLORADOS! SEXUALMENTE - é irrelevante.


Nada beleza.


Eu sou simplesmente uma garota que faz desabafos em um canto da Internet. Eu não posso entrar na cabeça de todos e falar “gente, não é legal que Laboum - hello new world! faiyah faiyah faiyah! - flope majestosamente enquanto Twice-likey-likey é o clipe de girlgroup mais assistido do ano simplesmente porque um tem uma corporação contra e outro tem boobshake”. Porque quem sou eu para dizer o que é legal ou não é. Mas vai ter gente chorando. É claro que é legal pensar que não tem absolutamente nada de exploração aí, mas que é livre arbítrio? Recentemente o ACE - que eu falei bem 1 dia antes, vai vê - deu um tapa na cara metafórico do YG dizendo basicamente “usamos shortinhos para causar mesmo, afinal se não causarmos nem estivermos sob o YG ninguém vai olhar para nós”. Corretíssimos. Slay, babies.


Enfim, a grande questão é que k-pop é uma indústria feita de ídolos, de público. Se é assim então o que acontece é produto das nossas ações, inclusive apoiar gravadoras exploradoras horríveis. Verdade, não somos obrigados a refletir sobre todas as coisas, nem devemos. Mas antigamente ainda existia uma comoção coletiva quando um TVXQ da vida dizia “não dá, desistimos, somos explorados”, mas tem acontecido essa naturalização. Da exploração do trabalho e sexual e qualquer outro tipo, e isso é humanamente desafiador. E vamos jogando para baixo do tapete enquanto a coisa não eclode, aparentemente. Não é difícil perceber o quanto grupos como o BTS se esforçam (se exaurem, mesmo) diariamente para manter o nível. Talvez por isso eu sinto que deveria apoiar a indústria não somente comprando CDs ou produtos ou ingressos, mas principalmente apoiando o que eu acredito ser bom e construtivo, e essas explorações não são. Ter olhar crítico é importante. Mas isso não é nem o assunto desse post, é coisa pessoal minha mesmo - sou ex-cassie, bbc e choice, Deus tá vendo - o assunto desse post vem…


Agora! Naturalizações.


E aí a criança de 12 anos cai de paraquedas nesse universo e não entende por que é OK que sujeitos sejam incentivados a se beijarem (explico: história acima) ou serem explorados e fazerem coisas até caírem de cansaço (explico: os burros velhos de k-pop estão dessensibilizados depois de 10 anos sendo explorados no trabalho e vendo os idolos explorados) ou qualquer outra coisa escrota que acontece e não é mais questionada. Pronto, joguei a bosta. Bem no ventilador. Bem na pá.


Fácil cair numas de assimilar um monte de bosta quando você não entende o que está acontecendo e ninguém explica, ainda mais em uma era de imediatismos e #aesthetic. E é difícil então entender que você não precisa apoiar. Se você não curte fanservice, beleza! Acha invasivo? Legal. Não quer pagar por CDs de grupos explorados? Tamos juntos. Acho que se colocar politicamente como fã de qualquer coisa é sempre positivo - na verdade, se colocar politicamente é sempre positivo na minha opinião. E, bom, essas coisas aconteceram em 20 anos. 20 anos é tipo… ontem. Sempre dá para nós mudarmos.


Yes we can, fim do discurso do Obama, eu para presidente do k-pop em 2018 etc. Não, falando sério. Eu queria compartilhar um pouco de História e esclarecer alguns acontecimentos mas também falar sobre o meu temor afinal. Qual é o seu temor, Chell? Que a gente esteja cansado demais para refletir sobre essas coisas quando o momento enfim chegar, porque claramente as coisas estão indo em uma direção… complicada. Refletir a exploração 1000 vezes, refletir o fanservice 1000 vezes, e importante. Passa um, passa outro horrível, é pelo meme pela estética … e quando a gente vê. Sinceramente, não sou carat - porque tenho vergonha na cara? O hyung tem 2 anos a menos que eu e não quero me considerar fã de um grupo de menininhos que fazem fanservice por mais que as músicas sejam ótimas??? - mas às vezes assisto videos, e me preocupo. Me preocupo porque são garotos adolescentes que já tem um preparo psicológico para levar celular e CD na cara sem motivo aparente e entendem que precisam fazer músicas e coreografias quietinhos e se manterem na Elite, e Não Namorar, mas também não chegam no nível AKB48 de ter gente noticiando internacionalmente que Algo Está Errado até porque “se estão na bolha do capope é tudo BTS mesmo”. E beleza, afinal eles tem 20 anos de idade e cresceram conscientes de que K-Pop Explora Aceita Ou Surta. Afinal, as vidas deles já estão expostas mesmo conforme atestado pelo vídeo do Vernon com 5 anos falando que Kidney Function Is A Privilege. (Em nota: também não cresçam pensando assim, e antes que falem que eu tenho PRIVILÉGIOS DE RIM!!, eu tenho 1 rim ok)

Existem muitos motivos para desabafar, mas um deles é que as pessoas não falam porque sabem que se abrirem a boca incorrem no risco de parecerem ruins, preconceituosas, horríveis mesmo sem intenção. O que é hilário porque dizer que fulana é horrível, ciclana é galinha ou sei lá quem é nugu beleza, mas ofender as sensibilidades homossexuais, aí não. Gente, podemos não adotar nenhum dos comportamentos péssimos da internet coreana? Enfim, e aí os sites de notícias falsas desesperados mencionados acima tiram notícias da cabeça deles, e aí fulano ou ciclana ficam marcados como "é o ídolo do rumor" - sendo que este nem existe, foi uma invenção da indústria abusiva que caga para suicídios.


Eu simplesmente não tenho o que dizer sobre o mundo. Sei lá. Estou chorando e o post acaba por aqui.

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