quarta-feira, 24 de maio de 2017

Filme: Koe no Katachi - Deficiência é apenas um dos fatores

Deficiência é sempre um assunto delicado e a maior parte das pessoas prefere evitar ele com medo de parecerem preconceituosas ou insensíveis, porém mal sabem elas que com isso os seus jovens dependentes acabam trilhando o mesmo caminho. Koe no Katachi é um filme sobre relações humanas, aquelas incomuns, com o intuito de lhe fazer pensar: Quem é a pessoa com limitações?

Koe no Katachi é um caso interessante na atual fanbase do pessoal que assiste animes, afinal, é um mangá relativamente popular, mas aparentemente apenas isso não é o suficiente para um sucesso. 
O mangá, fonte original para a criação do filme, foi publicado entre agosto de 2013 e novembro de 2014, e inicialmente seria apenas uma oneshot, porém acabou popularizando e o resto é história.
Até que na primeira metade de 2015 foi anunciada uma adaptação animada da obra, e claro, os fãs foram a loucura (inclusive eu).


O filme foi oficialmente lançado em setembro de 2016 no Japão, e como tudo indicou, o filme foi super popular! ... Bom, seria caso o furacão Shinkai não tivesse aparecido um mês antes com Kimi no Na Wa, filme esse que estourou em popularidade e bilheteria, ganhando até o primeiro lugar no top de animes no My Anime List (top esse que é protegido e defendido a unhas e dentes pelos diversos fãs obcecados de obras populares e cult).
Então, apenas nesta semana de 2017 nós tivemos a chance de assistir o filme, e desconsiderando a bagunça gerada por fansubs apressados, tivemos o filme legendado relativamente rápido. 
E depois de todo esse background confuso, temos tudo para falar sobre o filme sem interferências, e nada melhor do que começar falando do que se trata o filme:
Ishida Shouya é um moleque agitado, e Nishimiya Shouko é uma menina surda, que depende de aparelhos auditivos e só consegue se relacionar através de escrita e sinais. As outras crianças não sabem lidar com a deficiência da menina, e logo passam a evitá-la, e Shouya especificamente, passa a assediar a menina com bullying e violência. Shouko porém não reage ao bullying, ela apenas se desculpa e pede por amizade, fazendo Shouya se sentir culpado pelo assédio (o que ele deveria sentir desde sempre). Como esperado, o assédio se torna cada vez mais tóxico, até o ponto que Shouko se obriga a trocar de escola. Shouya é imediatamente apontado como culpado, e então passa a ser evitado e sofrer bullying por um longo período. Cinco anos se passam, Shouya não consegue fazer amigos, evita contato com outras pessoas e é infeliz. Um reencontro com Shouko pode ser a única forma de ter uma redenção e um recomeço. 

Já está mais que explicado que Koe no Katachi é um drama daqueles que o tempo todo tende a fazer o público sentir aperto no coração, por mais que Shouya seja o principal foco de evolução no enredo, a deficiência de Shouko está a todo momento inserida no contexto, afinal, é uma "barreira" a ser superada (ou nesse caso, a ser entendida?). Eu não gosto tanto da forma que a surdez dela é usada, é um fator um pouco forçado para sentir pena da personagem e tomar as dores dela (e eu garanto que funciona), porém, com o pacing do filme a surdez dela passa a parecer mais uma característica do que um problema de fato, uma tentativa de roteiro de mostrar que os personagens estão evoluindo de alguma forma. 
Como o filme se trata de um drama, discussões não faltam, o enredo basicamente constrói boa parte do seu roteiro em cima delas, afinal, se um problema é resolvido mas o personagem não se desenvolveu, precisa de um novo problema que vá desenvolvê-lo mais um pouco, novamente retornando ao mangá, nele essa forma de construção parece melhor construída porque é mais extenso, o intervalo é maior (é parecido com o que Aku no Hana faz, porém de forma bem mais pesada), já o filme condensa essas discussões principais dentro de duas horas, logo soa um pouco como se os personagens gostassem muito de discutir.
Por mais que tenha várias discussões, o filme não é pesado ou super triste, ele é na verdade bem leve na maior parte do tempo, tendo espaço até para uns alívios cômicos (parecendo um pouco com a direção tomada em Kokoro ga Sakebitagatterunda). Esses alívios cômicos são bons para desenvolver a personalidade dos personagens, afinal, mal há tempo para apresentá-los, imagine detalhá-los, e claro, isso prejudica alguns personagens, como por exemplo Mashiba Satoshi, ele o tempo todo parece um estranho avulso no cenário, pois a interação com ele é bem limitada. E agora voltando ao mangá pela última vez, boa parte dos problemas do filme é justamente por adaptar uma grande quantidade de material em tão pouco tempo, muitos cortes ocorreram, alguns deles até um tanto importantes, obviamente foram sacrificados pela consistência do roteiro, porém deixou o filme não tão cativo para quem desconhece a obra original quanto para alguém que já conhece os personagens e a obra original. Além de que, alguns personagens não parecem evoluir tanto assim pelo pouco tempo de tela.
Porém, mesmo com tantos problemas, o casal de protagonistas se desenvolve até bem, afinal tiveram o maior tempo de tela, e a relação deles realmente deu o sentimento de evolução como pessoas.

SPOILER (selecione o texto para visualizar)

Alguns personagens merecem destaque no quesito desenvolvimento:
Ueno é o mais próximo de uma antagonista, e no filme, ela não parece ter desenvolvido, e sim aceitado a situação, afinal, foi bem instantânea a mudança dela, poucas palavras fizeram o que 5 anos não fizeram.

Kawai Miki é a mentirosa/fofoqueira compulsiva que engana todo mundo com sua pose de santa, no final ela deveria perder essa máscara e ser uma pessoa melhor, porém, fica difícil de acreditar que ela deixou de fazer pose.

E tem uma parte que eu acho interessante que foi cortada: 
Quando Shouya salva Shouko de seu suicídio e fica a beira da vida, Maria, a sobrinha do Shouya, tem dúvidas sobre a morte, e a Yuzuru, irmã da Shouko, ajuda ela com isso, e também o diálogo entre as mães enquanto bebem, é um momento interessante pois aproxima as famílias em um momento de fragilidade, o que é bem natural e, na minha opinião, importante para o desenvolvimento, não parece tão inesperado como soou no filme.

Artisticamente o filme é muito bonito, produzido pela Kyoto Animation, ele esbanja cenários lindíssimos. O character design respeita o traço original mas deixa-o mais sutil. Ele usa muitas cores em tom bem claro, então isso depende da pessoa que estiver assistindo, eu pessoalmente sou um pouco sensível a luz clara e achei o fator de brilho da imagem do filme alta demais, pode até ter sido a configuração do meu micro, porém, em cenas noturnas o brilho quase desaparece e as cenas ficam mais escuras, usando muito de tons azuis escuros, então sim, é uma opção do filme o tanto de brilho. O filme também abusa de um filtro de imagem pra dar uma sensação de luz dinâmica com desfoque, como se fosse uma lente, que desfoca a imagem em alguns pontos e cantos da tela pra dar um tom de iluminação natural, mas nem sempre esse filtro funciona tão bem, em alguns momentos ele faz o filme parecer uma remasterização de anime antigo (comparem com o blu-ray de Initial D First Stage, é similar). Ele também usa uma direção de câmera interessante, em vários quadros a câmera parece estar se mexendo, como se alguém estivesse a segurando, e também quadros onde a câmera desliza em círculo, como se estivesse andando de um ponto a outro (esquerda-direita/direita-esquerda) porém mantendo o personagem foco no meio do quadro.

A trilha sonora é bastante comum no estilo dele, muita soundtrack de piano com sintetizadores, porém, um toque diferenciado e inesperado, na introdução do flashback da infância, começa com as crianças sendo crianças com uma música de fundo, essa música é My Generation do The Who, eu não sou nenhum fã maluco, porém, é um tanto raro animes usarem músicas famosas na sua trilha sonora (diferente de todos filmes americanos atuais), o único outro caso que eu me recordo de ter algo parecido é a abertura de Higashi no Eden, da banda Oasis. O encerramento é cantado por uma menina chamada Aiko, e bem, eu achei a música bem fraca, é um pop lento com letra melosa, não é nada ruim, mas não é nada marcante (eu também não posso esperar uma abertura de Record of Lodoss War em tudo que assisto).
Agora, como alguma forma de veredito final sobre o filme, eu creio que ele se encaixa bem melhor com o pessoal que já conhece a obra original, porém, nada impede que uma pessoa sem conhecimento da obra possa assistir, é um filme para qualquer um, mas que é "melhor" para quem já gosta e sabe o que vai ver, além de que, se relacionar com os personagens após ter lido o mangá é mais fácil, afinal, dificilmente cairá na onda de sentir pena da menina coitada se você não teve tanto tempo para conhecê-la assim, é apenas um fator de imersão mesmo, ele conta bem sua história, é agradável de se assistir.







 Eu deixei este final para uma apresentação desconfortável, de alguma forma eu acho que devo explicações sobre a minha presença no recinto.
Eu sou um novo autor de postagens aqui no Not Loli, atualmente inseguro. Meus passatempos incluem jogar, assistir e ler. O que eu jogo, assisto e leio são dúvidas que tenho todos os dias.


2 comentários:

  1. Yooo Gustavo, belezura!? Confesso que comecei a ler o post pensando que fosse a Chell, mas aí eu senti uma leve falta das ironias dela e deduzi que poderia ser outra pessoinha escrevendo xD

    Enfim, eu devo ter sido o 1% de pessoas que não leram o mangá, só viram o filme e mesmo assim curtiu o filme, porém eu já fui com aquela ideia de que não veria 100% do mangá adaptado, e que provavelmente isso iria interferir no desenvolvimento dos personagens. Aliás, eu até imaginei que o desenvolvimento dos protagonistas fosse ser bem maaaiiiss superficial, mas curti o que eu vi, principalmente do rapaz (que eu acabei esquecendo miseravelmente o nome dele ;-;)

    No começo eu fiquei um pouco incomodada em como estavam tratando da surdez da Shouko, parecia que estavam usando isso como uma desculpa para colocar ela como vítima. Mas ao mesmo tempo eu curti a maneira como eles retrataram o bullying, deixando de forma clara que não é apenas a vítima que sofre, mas também os próprios agressores e todo mundo envolvido. E depois, como você mesmo disse, a surdez dela deixa de ser apenas um "problema", para ser uma característica dela. A Shouko depois de certo ponto passou a se responsabilizar também pelos atos e erros dela, como quando ela tenta suicídio, e percebe que o impacto que isso pode trazer não só para ela, mas para quem está perto dela.

    Já os personagens secundários ficaram meio rasos mesmo, mas como é um mangá exprimido em 2 horas a gente perdoa, porque mesmo assim eu achei o filme encantador <3 Acho que o principal problema dos personagens secundários, nem era a Ueno, por mais "pouco simpatizante" que ela fosse, pelo menos ela deixava claro o que pensava, não pagava uma de falsa como a outra garota de óculos e trança (que eu me esqueci miseravelmente do nome), acho que dos secundários ela é um dos personagens que merecia uma atenção especial, pois ao meu ver a personalidade e comportamentos dela eram os mais complicados.... Mas, como a pessoinha aqui só viu o filme e não leu o mangá, então a gente deixa análises mais profundas com a galera que leu o mangá e manja de verdade das coisas xD

    Acho que a minha única crítica com o filme seria o final! Eu achei ele lindo, maravilhoso, aquela cena foi de suar pelos olhos, mas a louca dos shoujos aqui queria mesmo é ver aquelas purpurinas lindas de "eu te amo" e ver aquelas duas criaturinhas felizes num relacionamento <3...... Okss, eu sei que o mangá e até filme não pendem para esse lado, mas se iludir é de graça, então porque não!? :v

    Enfim, adorei o post
    Kiss

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    1. OiOi ;^)
      É, eu evito ironia porque a maioria das vezes eu mesmo não as entendo xD
      Nah, essa porcentagem é até grande, o filme é muito bom sim, apenas menos impactante pra quem não leu o mangá mesmo, e sim, a evolução do Shouya foi a melhor desenvolvida, afinal, no fim de todo ele ainda é o centro da história, se ele não evoluísse o plot do filme iria por água abaixo.
      Siiim, a surdez dela é quase o catalizador de tudo que eles dizem acontecer ali, se fosse uma menina estranha qualquer ali sofreria o mesmo, mas não teria o mesmo impacto quanto teria se não tivesse a deficiência, é comum a gente sentir mais pena de quem achamos menos capazes, é uma eterna história de A Menina que Vendia Fósforos. E sim, ela meio que cai em si no que fazer, afinal, no meio tempo deles já mais velhos ela se culpava e isso meio que me desanima, ninguém é tão ingênuo assim.
      Bom, ela deixava meio que através da intriga, ela fazia de um jeito que ela não fosse parecer a "vilã" de tudo, e mais para o final ela fica mais sincera com o protagonista mas não melhor. Eu acho que a Kawai precisava de um mini-arco pra justificar a mudança dela, o Shouya quase morre porque a Shouko queria se matar, okay, mas isso não vai fazer ela mudar, tudo indicava até ali que ela não tava dando bola pra ninguém fora as próprias aparências.
      Welp, com o lance do tsuki meio que fica óbvio o futuro, e eu aconselharia tu a ler o mangá, não vou dizer que todos os teus desejos de shipper serão atendidos mas tem uma atenção maior nesse sentido ;^)

      Obrigado, espero que goste do que ainda virá também sz

      Nippan -

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