quinta-feira, 2 de março de 2017

Sessão Nostalgia: Sendo otaku no começo dos anos 2000

O ápice da edição de gráficos no Photoshop 6.0.

Olá! Vim trazer nesta incrível madrugada alguns comentários extremamente pessoais. (spoilers: é... uma madrugada de insônia e procrastinação no laptop enquanto observo na TV a retomada do Carnaval pelos hipsters de São Paulo.)

A ideia de escrever sobre o que era ser otaku no passado surgiu de algumas leituras; de textos da Escritora Otaku do Animecote, mas também desse texto em homenagem ao aniversário de 20 anos de Utena, e outras leituras eventuais Internet afora. E então eu tenho pensado muito sobre as coisas que mudam, e crescer na Internet tem o diferencial de que as coisas que mudam não tem nem um espaço concreto, físico; o que resta delas são memórias e eventuais páginas na Wayback Machine. Portanto, eu achei pertinente compartilhar memórias queridas com os curiosos e historiadores de Internet. ^_^ Eu comecei a acompanhar páginas de anime na Internet em 2001 - talvez não pareça para os mais velhos, mas já fazem 16 anos. Uma década e meia ou pouco mais. Muita coisa mudou e eu não vou falar só sobre os fansubs não (ô teminha batido)...

Em 2001, era tudo mato. Não existia Facebook, Google engatinhava (a gente usava o buscador do Yahoo!), modem da Speedy era pra gente que podia (a galera geralmente usava dial-up no discador da iG ou UOL depois das 22h ou 24h pra reduzir custos, e velocidade de 20 kbps era top) e nem mencione YouTube, que só surge em 2005. Assim, é claro que era muito diferente ser fã de anime; não existia anime em stream, nem Torrent, por sinal. Ser fã de anime geralmente consistia em, pasmem... pagar caríssimo por fitas VHS gravadas por estranhos. Assim era 2001.

Situada a época, os sites de anime que eu frequentava em 2001 eram majoritariamente sites de Sailor Moon. Na época passava Sailor Moon na TV - aberta até 1997, a cabo pós ano 2000 - então existiam muitos sites sobre. Sites? É. Afinal, não existia um Facebook (nem Orkut) pra você fazer comunidades dedicadas aos animes que você gostava. Nem MyAnimeList, Twitter, Omegle... então era comum que pessoas expressassem apreço por determinadas séries de anime (ou filmes, bandas, etc.) criando websites dedicados a estas, em sites de hospedagem gratuita que nem HPG, kit.net ou Vilabol. Imaginem um Blogger, mas sem layouts pré-montados; em geral era preciso criar o website em HTML ou no mínimo em Frontpage. Muita gente criava fansites somente com o intuito de compartilhar coisas que encontravam em outros sites ou que criavam (fanarts, fanfics, etc); até hoje sites da época como SOS Sailor Moon e (meu queridinho) Eternal Sailors continuam na ativa. Enfim, os que não criavam sites podiam conhecer fãs de outras formas; postando em Guestbooks de sites e trocando números de ICQ, através de mailing lists e de fóruns, por exemplo.

Já imaginei gente olhando pra mim e se perguntando o que são essas coisas.

Guestbook era uma página que a maioria dos sites tinham; literalmente livro de visitas ou uma página que funcionava como uma seção de comentários para um website inteiro, e naturalmente era uma bagunça enorme. Mailing lists ou listas de e-mails eram, bem, listas de e-mails de pessoas que trocavam mensagens entre si; a pessoa se inscrevia na mailing list de um determinado assunto, e todos os participantes podiam compartilhar informações e arquivos daquele assunto com todos. (E todos tinham a caixa de e-mails lotada sempre.) Também existiam fóruns que talvez vocês saibam o que são; na época a maioria dos sites grandes de anime tinha um fórum no ForumNow. Ah, número de ICQ era que nem e-mail de MSN, só que tão aleatório e difícil de decorar quanto seu CPF. E MSN era que nem Whatsapp, enfim. Não existia grupo de ICQ, aliás, mas existia grupo de iRC. Na Internet em inglês o negócio era domínio próprio e LiveJournal, mas pouco diferia.

Resumidamente, era difícil trocar uma ideia com outros fãs; os sites ficavam muito separados e difíceis de encontrar. Existiam os buscadores e os diretórios e alianças, mas ainda assim não era o que é hoje. As pessoas acabavam conhecendo as grandes tendências e sites por boca-a-boca, e é dessa perspectiva que eu escrevo o que era ser fã de anime. Eu frequentava muito o Angel Moon Page e o Sailor Moon Zone, mas também conheci muito através do pessoal da Power Sonic e de um site de Turma da Mônica (é.) cuja webmaster também tinha sites de animes, então era por aí que eu sabia do que se passava. E também através das resenhas do Zefiris que já informava a galera brasileira a respeito de anime até então obscuro.

Sim, a gente frequentava muitos fóruns; as pessoas faziam amizades por ali, tá? A Internet era muito mais psicologicamente inofensiva, digamos, quando os chefes e parentes não queriam te controlar através dela. Então era bem possível fazer grandes amigos na Internet, em fóruns ou jogos online (eu conheci a Nat no fórum de Sailor Moon, aliás! E é horrível sentir saudades de gente que sumiu. Alguém inventa um "buscador de gente que usava a Internet em 2001"?). Ser fã de anime normalmente significava ver séries na TV - já que na época anime na TV era realidade - e a partir daí se interessar e querer ver outras... e não poder. Eu não sei se alguém efetivamente baixava anime no Napster (era possível? No Kazaa era, apesar de ineficaz... Torrents engatinhavam... etc.) mas em geral a distribuição era feita via CD ou até VHS, e por isso salas de exibição de anime em eventos faziam sentido.

Se não tinha anime nesses sites, o que tinham os sites de anime afinal? Bem, em geral, informações sobre as séries o que ainda era difícil de achar - afinal, era preciso entender japonês pra traduzir uma notícia que seria espalhada por sites do mundo inteiro; aliás, não existia tradutor do Google. Em geral, tradutor era um programa que você baixava e que mal traduzia inglês direito. Mas ó: existiam emuladores de Genesis, Super Nintendo/Famicom e PSX, pra citar alguns. Assim, sites normalmente tinham também downloads de programas, emuladores e jogos, mas também downloads de screensavers, arquivos .ico e .cur pra customizar os ícones e cursores do seu computador (alguém ainda faz isso atualmente?), de bichinhos que andavam na tela (er, existiam), downloads das famigeradas coisas chamadas kiss dolls, de música (até em formato midi na maioria das vezes), etc. Os websites também contavam com galerias de imagens oficiais e gifs animados (que eram o máximo na época e todos os sites tinham vários gif pra dar aquele up no index de 2-tabelas-com-conteúdo-no-centro), e seções de fanfic e fanart não eram raras. Enfim, midis em autoplay e códigos em Javascript também faziam sucesso; os códigos envolviam quizzes de conhecimento sobre determinadas séries, formulários de "compatibilidade amorosa" (uns geradores de número genéricos), nomes em japonês, pétalas caindo, links arco-íris e etc.

O cenário de fanworks era movimentado naquela época, até porque as pessoas raramente conseguiam fazer binge watching de um monte de séries, era possível ver poucas e se dedicar àquelas e tal. Arte colorida digitalmente (o chamado CG) era novidade e haviam sites inteiros dedicados a distribuir sem permissão desenhos de artistas asiáticos que já praticavam digital coloring. As kiss dolls, que eu mencionei e eram minha paixão, eram feitas com personagens das mais diversas séries de anime. A Internet em inglês já tinha o FanFiction.net, mas no Brasil ainda não existia um Nyah da vida e, do que sei, as pessoas compartilhavam fanfics em websites dedicados a séries específicas. Falando nisso, a Internet em inglês começava naquela época com os fanlistings e similares - e eu confesso que até hoje tenho uma piraçãozinha por "ter um domínio cheio de fanlistings e shrines" (porque eu não me ligava que fanlistings seriam coisa do passado quando eu tivesse a idade do pessoal que podia comprar domínios). Na época fazer cosplay era bem difícil, porque peruca de kanekalon a R$20 não existia e cosmaker menos ainda. Em 2002 - precisamente quando surge o Windows XP com Windows Movie Maker - explodiram os AMVs, que dominaram os eventos de anime. (Saudades.)

Falando em jogos... os MMOs começavam a se popularizar naquela época - exemplificando, Ragnarok Online surgiu em 2002 - bem como DDR e outros. As pessoas jogavam também J-RPGs e jogos de anime nesses emuladores que eu mencionei (eu lembro de jogar muito Sailor Moon Another Story e street fighter de Sailor Moon nos de Super Famicom e Genesis, respectivamente! ^_^ ) e... no M.U.G.E.NRPG Maker também já existia e era bem popular, além de GameMaker e outros programas de desenvolvimento de jogos. No entanto, o cenário indie era bem menos movimentado e divertido a bem da verdade. Pessoas gostavam de fazer fangames, também.

Alguns sites que surgiam ou já existiam na época: AnimeNewsNetwork e Gendou, e o Anime-Planet existia já em 2001 mas não era exatamente popular ainda, igual ao DeviantArt. Pessoas frequentavam, pasmem, o Neopets. Em termos de websites brasileiros de anime ainda ativos eu conheço, daquela época, não só o SOS Sailor Moon e o Eternal Sailors, mas também a Shoujo House (antigo Shoujo Cafe) e o Anime Pró, ambos de 2002. E quais outros? Não sei, consultem o Topsites. Curiosos de plantão podem conferir a Wayback Machine de sites desde OtakuBR, e vou deixar outro que eu gostava (observação: Ruri era minha waifu antes de eu ver Nadesico).

Enfim. Resumindo o texto enorme acima - era outro mundo. As pessoas tinham pouca informação, e o que tinha geralmente vinha de revistas de anime, compradas na banca de jornais mesmo. Gostar de anime não raramente envolvia caçar informações em sites em inglês, em lugares esdrúxulos, em páginas escaneadas (porque câmera digital com uma resolução boa o bastante pra tornar as coisas fotografadas legíveis mal existia) e resenhas (como as famosas do Zefiris, e eu pessoalmente conhecia muito anime só através delas) e being suffering. Não ter Locomotion no pacote de TV significava invejar aqueles que tinham Locomotion. Não existia 4chan e muito menos CrunchyRoll (era melhor em alguns aspectos, afinal). Evento de anime não era um negócio que se tinha um em cada esquina, mas existia Animecon (que era basicamente o Anime Friends da época, exceto que ainda ia muita gente então os amigos virtuais do Brasil inteiro se encontravam lá). Não morar em São Paulo significava passar por muitas dificuldades pra obter produtos, já que apenas lojas do bairro da Liberdade vendiam produtos de anime, praticamente.

Em alguns anos surgiu o formato .rmvb, compacto e fácil de baixar via DDL, e também aumentou o número de pessoas que podiam baixar anime porque possuíam conexão "rápida". Assim se popularizou o download de anime de fansubbers - antes de surgir o YouTube que mudaria tudo de vez a partir de 2005. Foi a partir daí que eu comecei a realmente acompanhar anime, mas aí já não tem graça falar sobre.

O interessante é que mesmo depois de todas essas coisas, é possível afirmar que ser fã de anime é muito diferente hoje do que era há alguns anos, mas nem por isso as pessoas se tornaram mais relaxadas e felizes. O contrário, o que surgiu no lugar daquela fraternidade do "estamos ferrados juntos" em que as pessoas sentiam prazer em meramente trocas informações foi uma espécie de competição de "eu vi X anime então sou melhor". A Internet também se tornou muito comercializada, digamos, e ainda existem uns serviços tão questionáveis quanto venda de fansubs. Em resumo, mudou, mas se melhorou... é relativo. Eu eventualmente me sinto saudosa, já disse, em relação aos fanlistings e domínios etc. Mas não dá pra dizer que eu não aprecio ver anime em stream, também. Pra mim, as mudanças foram significativas e ótimas, mas não sem alguns reveses e admito que minha intenção de fazer do meu blog um cantinho seguro em que as pessoas podem opinar vem um pouco de um certo saudosismo daqueles tempos. Era um tempo em que todas as informações divertiam e as pessoas eram livres pra chutar sem competir se Fulano sabia mais que Sicrano, tretar no Guestbook sem arrumar inimizade, etc.

Novamente, não me considero nenhuma autoridade até porque eu mal era mesmo do fandom de anime na época (na verdade, o que eu sei é porque amigos virtuais falavam, porque eu só comecei a ver anime mesmo em 2006). Mas queria compartilhar minhas impressões da época com os curiosos. ^_^ Espero que tenham gostado do meu relato. Foi totalmente aleatório, aparentemente, mas é um post que a Sessão Nostalgia merecia. Se você também era fã de anime na época, sinta-se livre pra compartilhar aí nos comentários o que era, o que mudou e do que sente falta! Até a próxima!

2 comentários:

  1. Escritora feliz que nostalgia tem seus momentos.

    Como era ser uma otaku nos anos 2000? No meu caso, era comprar revistas na banca de jornal - Herói, Ultra Jovem, Anime Do, a Pokémon Club, fora revistas aleatórias - via animes na TV aberta; Internet era mais o e-mail, entrar no Anime Pró, no antigo Animehaus, no site da Henshin e pegar wallpapers de animes; animes pra assistir, aí foi só um tempo depois, com um amigo e os primeiros animes que gravei, lá em 2006 foram "Chrno Crusade" (tem resenha deste no Animecote); "DNAngel" e "Matantei Loki Ragnarok" num computador todo branco e em RMBV. Gravar animes na época era pra poucos, sejamos realistas.

    Disto tudo, sinto falta de animes na TV, mesmo que aja a Internet pra fazer este papel, ainda é bom ver algum anime ganhar espaço na televisão. Pena que ainda aja certo dilema em passar: puxa! tem animes bacanas que podem ser exibidos sem problemas, basta apenas procurar que dá. Claro que o melhor horário é à noite, tipo, botar "Detective Conan" num canal como a TV Cultura ( se trouxeram "Doctor Who") ou até trazerem "Doraemon"; tem séries adaptadas ou baseadas em livros famosos, como "RomeoXJuliet"; até "Bakuman" tem condições de ser exibido em TV. Não custa sonhar, né! E claro, com uma dublagem que faça jus ao contexto apresentado. Ninguém gostaria de algo dublado de qualquer jeito e investirem pra que seja reconhecidos, pois nem sempre brinquedos ou produtos sejam a solução pra fazer sucesso.

    Sinto também um pouco de falta de materiais com personagens de animes, produtos oficiais e não falsificados - estes tem aos montes - pois se até games tem tido cadernos e outros materiais escolares, porque não animes? E algo bacana, não apenas ter a capa e só, com adesivos e folhas decoradas que lembrem algo característico, como desenhos. Se há cadernos usando o estilo mangá, porque não de animes?

    Estes são os que sinto falta. Talvez, porque não havia muito disto na nossa época, que seria legal o pessoal mais novo saber como eram as coisas.
    Uma excelente postagem e até a próxima!!!

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    1. Olá, escritora! Feliz em te ver nesse humilde recinto novamente ;)

      Eu entendo; realmente, anime na TV aberta é um negócio que a gente curtia muito e realmente dá uma nostalgia ao lembrar. Eu não frequentava esses sites famosos à exceção do Anime Pro durante um tempo, mas era mesmo os sites que as pessoas frequentavam em geral. Minhas amigas adoravam esses animes aí também, estavam bem populares naquela época né?

      Não diria que não dê, mas não há interesse mesmo e o motivo é simples - foi-se o tempo dos desenhos na TV, e anime então... o que acontece é que tiraram as propagandas infantis o que foi um grande problema, e com essas coisas vieram o advento dos fansubs e uma certa elitização do pessoal que gosta de anime (por exemplo, ver as propagandas das editoras de mangá atualmente) e os jovens passaram a ter outros interesses... não que não tivessem jovens que veriam e gostariam anime se passasse na TV, mas não assim o que era IMO

      Eu também gostaria de ver muitas séries porque creio que os enredos das séries de anime sejam muito melhores que até de muita série americana etc, são enredos inteligentes e que lhe fazem refletir. Mas eu não sei se é bem o que os produtores querem, hahah. E realmente, há produtos falsificados nos eventos de anime, mas há importados também naturalmente. Eu gosto de comprar os produtos importados... não sou de dar muita atenção pra produções nacionais quando se trata de anime porque é difícil pegarem o "feeling", mas claro que seriam muito bem vindas e se bem cuidadas adoraria comprar também.

      Enfim, super obrigada por sua visita e seu comentário pertinente! ^_^ Espero que um dia a indústria venha a ler esses comentários e repense as escolhas dos óltimus anos, hahah. Até a próxima! ~

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