quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Moda: Agejo (アゲ嬢)


 Olá! Tudo bem? Como estão?~

Uma das minhas obsessões de 2016 (que foi um ano de milhares de obsessões japonesas aleatórias na minha vida) foi: Host Clubs. Eu poderia fazer um post só sobre eles facilmente com o tanto de coisas que aprendi nesses tempos, mas pra não desviar muito dos assuntos desse blog, resolvi fazer um post sobre uma das coisas mais importantes que aprendi: estilo agejo. Você sabe do que se trata agejo?

Agejo (アゲ嬢) é um dos muitos estilos de moda japonesa. Agejo é um amálgama para "ageha" (揚羽), borboleta cauda-de-andorinha - uma borboleta muito bonita e sultuosa - e o "jo" de "ojousama" (お嬢様), termo comumente visto nos animes e afins, que significa "dama". O estilo é um tanto derivado do estilo kogal (sobre o qual eu ainda preciso escrever aqui um dia, mas como é um estilo com uma história muito longa, preferi falar sobre esse que é meu "subestilo" favorito!) e muita gente conhece esse estilo por causa da revista Koakuma Ageha ou por causa das modelos famosas - como MomoeriSatomi YakuwaAi OrimoRinSakurina e Muto Shizuka, dentre tantas outras. Na realidade, porém, o estilo surgiu com as kyabajo, vulgo trabalhadoras de hostess clubs, aqueles bares japoneses em que pessoas vão para beber com acompanhantes e que eventualmente envolvem também prostituição. Não, a realidade dos hosts e hostess clubs não tem nada a ver com a realidade daquele anime com host club no nome, e recomendo que vocês assistam esse documentário ótimo se quiserem saber mais sobre essa realidade triste que é parte do trabalho do sexo no Japão, e que é quase que totalmente fomentado pelo consumismo desenfreado e pela obsessão pela estética de "glamour" dos próprios trabalhadores da área.


Essas trabalhadoras precisavam parecer belas para os seus clientes. Chuto que como muitas delas tinham alguma relação com a cultura kogal - que para quem não sabe, muitas kogals praticavam prostituição ou enjou kosai para sustentarem seus hábitos de consumo de roupas do estilo; pode ler mais sobre nesse outro post! - o estilo acabava sendo derivado dessa cultura, que prega uma certa fofura nas roupas mas ao mesmo tempo rebeldia e ousadia (como as saias colegiais encurtadas) e muita atitude. Talvez por isso esse estilo se assemelhe tanto ao hime gal e outros. Esse parágrafo é majoritariamente achismo meu, mas faz sentido. O fato real que sei é que esse estilo surgiu então com os looks de trabalho dessas mulheres, que por serem tão bonitos e sultuosos acabaram atraindo a atenção até de gente que não é do meio, e surgiram então revistas que o popularizaram como um estilo de moda.

A revista Koakuma Ageha (小悪魔ageha) foi a pioneira, que surgiu em 2005 para escandalizar a família tradicional japonesa divulgar esses looks que elas criavam para o trabalho, ao mesmo tempo em que trazia outras variedades, como seções de conselhos amorosos - inclusive sexuais - e de moda, trabalho - como o trabalho como kyabajo - e outros assuntos que ressoavam com as leitoras. Essa é uma característica forte do agejo, aliás; enquanto muitas revistas ditam os ideais de moda, no caso do estilo agejo, as revistas apenas divulgam os looks que as próprias meninas criam, e elas são muito adeptas a fazerem a própria maquiagem, criarem as próprias combinações de roupas e coisas do tipo. Por isso, o estilo é muito livre para inovações, contanto que siga alguns preceitos básicos como a feminilidade e uma certa extravagância fofa - totalmente o contrário de estilos como o lolita, nesse sentido, que dependem muito de marcas. Atualmente, o estilo se tornou tão popular que surgiram outras revistas agejo, como a MA*RS, e as revistas sobre o estilo tem focado um tanto menos em parecer sensual e mais em parecer "kawaii", realmente desvinculando-o das suas origens nos hostess clubs. Essas revistas também costumam ter lojas próprias nas quais as meninas podem comprar roupas nesse estilo; assim, algumas lojas populares são a da Ageha e a MA*RS.

Fato é que atualmente nem todo mundo que se veste como agejo trabalha em hostess club, assim como, desde sempre, nem todo mundo que trabalha em hostess club é agejo - eu mencionei a existência de host clubs dansou no post sobre dansou, não é? - mas é seguro dizer que ainda é um estilo muito popular entre kyabajos, além de mizu shoubai em geral, dançarinas de cabaré e atrizes de AV, cabeleireiras, modelos, maquiadoras, manicures, dançarinas, vendedoras; em geral, subempregos, já que o estilo simplesmente não as permite se enquadrarem no padrão japonês. É comum entre elas buscar popularidade e ter blogs virtuais, e como os assuntos delas geralmente são muito voltados para o universo feminino, o estilo chega a ser agressivo em alguns sentidos - elas são belas, mas se mantém no controle. Uma curiosidade é que elas geralmente estão em uma tênue linha entre profissionais e amadoras, uma vez que muitas trabalham com moda; o gênero se desenvolve conforme elas incorporam estilos e modas contemporâneas.

Enfim, esse post aqui é para falar um pouco sobre esse estilo. Quais são as características ou o que eu preciso para ser agejo? Eu tentei me vestir de um jeito inspirado nele, que vocês podem conferir no video lá no final do post. O estilo agejo em si pode ser resumido em duas palavras: sensualidade e beleza. Tido por alguns como o tipo extremo de gyaru contemporâneo, com algumas das características físicas mais marcantes deste estilo, e a rebeldia e feminilidade que marcavam as origens do estilo gyaru. Atitude é uma palavra que as define - segundo Haruka Noda, uma das editoras da Koakuma Ageha, as meninas agejo não estão interessadas no que os homens vão falar das suas maquiagens e não se adaptam. Outras pessoas descrevem-no como uma forma de se desumanizar pela sexualização. Enfim, independentemente das teorias, o fato é que elas atraem olhares e por isso se tornaram populares. Locais onde o estilo é proeminente são obviamente Tóquio e Shibuya, em "red light districts" - bairros onde tem host clubs, clubes de cabaré e afins - especialmente. Algumas poucas são estudantes universitárias e não trabalham nessas áreas, mas isso é mais raro.

A roupa nesse estilo é sempre muito sensual e simultaneamente fofa; esse é o aparentemente contraditório objetivo desse estilo. De fato, as meninas chegam a tirar fotos em meio a ursinhos e cenários infantis para as revistas. Se o objetivo de um estilo como o lolita é não sexualizar o "kawaii" nem infantilizá-lo, aqui não existe essa preocupação. Naturalmente, elas costumam ser magérrimas, já que são frequentemente modelos, trabalhadoras do sexo e do mundo da moda, mas é possível ser agejo sem ser magérrima.

Não é necessariamente um estilo caro, mas como é um estilo gyaru e essas garotas costumam ganhar bem, elas costumam investir muito em suas roupas, comprando marcas caras, por exemplo. Bolsas elegantes e pelos falsos são muito populares. Rendas, fitas e laços também o são, de forma geral. Como é um estilo mais maduro, a roupa tende a expôr mais o corpo; sutiãs com bojo para aumentar os seios de forma que eles pareçam volumosos no decote são muito comuns. Saias e vestidos curtos são muito populares assim como no gyaru; vestidos com A-line também são muito comuns. Em termos de acessórios, elas costumam usar muito óculos de sol extravagantes, além de meia arrastão, espartilho e outros aspectos de lingerie, e jóias. As cores mais populares são preto, rosa e cinza, mas o dourado e outras cores sóbrias também tem espaço.

Em relação à maquiagem, acaba se assemelhando à das gyaru, mas é mais carregada e menos esfumada. A pele que elas costumam buscar é bem clara, diferentemente de alguns tipos de gyaru, uma vez que tende a parecer mais "bonequinha". Para atingir o tom correto, elas usam base de cor mais clara que a pele. Também é comum o uso de circle lenses para ficar com olhos maiores, mas apenas de cores naturais - castanho é popular entre elas, e algumas rejeitam outras cores. Os cílios postiços grandes são o item #1 que a maquiagem precisa ter; o delineador e a pintura preta embaixo do canto externo do olho para aumentar o olho também são populares. O blush, assim como em gyaru, também é popular. Mais opcionais na maquiagem são o uso de batom ou lip tint e lip gloss, de sombras ou contornos de olhos em cores cintilantes ou vermelha, e assim por diante.

O penteado também é muito característico. Cabelo sujimori é o nome dado àqueles cabelos estilizadíssimos, com muito volume e muitas camadas, que nós vemos nas revistas de moda japonesas agejo, em muitos cantores de visual kei e, advinha, nos hosts. É aquele cabelo com muito volume e camadas. Eu chamava de "cabelo do j-rock" até esse ano, mas descobri esse ano que ele se chama "sujimori" (スジ盛り)! Se você não for do meio, é praticamente impossível fazer esse penteado do jeito certo de primeira; na verdade, mesmo para quem é do meio é praticamente impossível fazer o penteado sozinho, uma vez que requer que você tinja seu cabelo de uma cor como castanho ou loiro, corte em camadas, e penteie mecha por mecha desde o topo de sua cabeça para dar mais volume. Por isso, muitas agejo tem cabeleireiros especialmente para isso. Na internet tem alguns tutoriais de como fazer esses penteados, como esse. Se você for fazer em uma peruca, é bem possível fazer sozinho seguindo esses videos, mas não é tão fácil quanto pode parecer! Em nota, elas também costumam usar extensões e apliques, ocasionalmente coloridos.



Outro ponto ao qual elas dão uma atenção especial, assim como as gyarus, são as unhas compridas que são frequentemente postiças e extravagantes, daquelas que se compra em pacotinhos e que tem muito brilho e decorações. São unhas 3D, coloridas, extravagantes, com colantes e coisas do gênero. Elas também tendem a usar decoden nas unhas, assim como em outras coisas, como as gyaru - desde capas de celular até bolsas, tudo pode brilhar. Falando em decorações e em outros acessórios, também como as gyaru elas costumam tirar muitas fotos em máquinas de purikura, aquelas máquinas que acrescentam stickers e outros tipos de decoração às fotos.



Para falar do estilo mais em termos de cultura, como mencionei, agejo em geral tem uma forte relação com as subculturas gyaru, mas se desenvolveu em algo próprio e que chocou muito a sociedade por ter glamurizado o trabalho dessas mulheres, de certa forma. As agejo tem toda uma comunidade na qual eu não posso falar muito sobre por não ser expert, mas sei que existe música "delas" - elas costumam gostar muito de artistas como a Ayumi Hamasaki mas quem não?, mas também existem grupos de agejo como o grupo de metal Aldious, formado em 2008. Sei que existem aplicativos de celular em estilo agejo, como o Kirahime que já recomendei aqui no blog. Enfim, existe toda uma cultura que envolve o estilo de vida dessas meninas.

Mesmo existindo uma cultura tão plena, a realidade é que essas garotas ainda são muito estigmatizadas. Na minha interpretação solitária e besta, agejo tem uma coisa de versão japonesa do funk ostentação, com as trabalhadoras do sexo que ganham bem e investem em roupas de marca e tudo mais. Existe uma cultura enorme que ganha cada vez mais espaço na mídia, mas não é todo mundo da sociedade que aceita, porque a cultura arrasa os preceitos da ordem social japonesa e é composta justamente por pessoas marginalizadas na ordem social. Por outro lado, muitas mulheres que não trabalham com mizu shoubai acabam se aproximando da cultura através do agejo, por ser um estilo muito belo e sensual em relação à moda japonesa. Eu mesma confesso que comecei a ler coisas sobre host clubs justamente porque vi uns vídeos de Kabukicho e achei as hostesses muito bem-vestidas. ^_^; Só então descobri que elas tinham todo esse estilo próprio.





Li em um blog que ,apesar da fama que essas meninas conseguem dentro de seus círculos, elas não costumam receber tão bem quanto modelos de outros estilos e que portanto elas devem fazer isso mais pelo status social entre as fãs do estilo do que pelo dinheiro; de fato, gera um ciclo vicioso entre trabalhar com mizu shoubai e ganhar bem, gastar muito em roupas luxuosas e posar para ganhar fama e prestígio. Por isso, não são todas as agejos famosas que gostariam de ficar nesse estilo para sempre; muitas pensam em um dia se casarem e terem uma família tradicional, mas não parece fácil sair desse meio justamente pelo estigma que sofrem. O documentário de host clubs que linkei abaixo fala muito disso, aliás: mulheres que trabalham há tanto tempo como hostesses que não vêem mais outra possibilidade de existir, mesmo estando já em uma idade (30 anos ou mais) em que prefeririam ter uma família e viver uma vida tranquila e equilibrada. E isso é bem triste. Bem, esse tipo de problema existe muito não só no Japão como também aqui e em basicamente qualquer sociedade, e talvez fazer a reflexão dos motivos ajude-nos a evitá-los em qualquer lugar.

Dito tudo isso... vou terminar esse post deixando aqui o video em que eu me visto inspirada no estilo. *^_^* Disclaimer: o que postei aqui se refere mais ao agejo nas suas origens, mas nos anos 2010 a coisa tem mudado bastante. Espero que vocês gostem do video, e que o post tenha inspirado vocês a buscar novos estilos e saber um pouco mais também sobre o lado marginalizado da cultura japonesa. Lembrando que o agejo tem muito a ver com o gyaru, que também surgiu como uma forma de rebeldia mas hoje é basicamente pouco mais do que "o que é moda no Japão", conforme esse post do Galaxy109, e acredito que o agejo esteja indo pelo mesmo caminho. Falando em referências, outros blogs sobre gyaru e agejo em português que vocês podem conferir são o Gyaru Routine e o Gyarupoyo, além do fórum Gyaru Brasil! Até mais!~


Video meu! Eu tô gorda mas ok -3-

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