sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Mangá: Ultramanic, de Wataru Yoshizumi.


Depois de uns meses sem resenhas de mangá, vim tirar essas teias de aranha da seção com uma das minhas compras recentes - apesar de não ser de forma alguma um mangá recente! - que eu queria muito e me agradou demais, e aproveitar para falar a respeito de uma autora que não recebe um terço da atenção que é devida a ela nos círculos de mangá, sobretudo brasileiros (porque vocês sabem, Se Não É Shounen Não Presta).

Senhoras e senhores, é dia de comentar Ultramanic, de Wataru Yoshizumi!



Vamos começar então falando sobre Wataru Yoshizumi. Acredito que poucos brasileiros que compram mangá reconhecem o nome assim de sopetão, mas ela é uma das autoras shoujo mais publicadas em número de títulos no Brasil, somente empatando com (a relativamente popularíssima) Matsuri Hino. As obras de Yoshizumi publicadas no Brasil são Ultramanic (5 vol.), Marmalade Boy (7 vol.), Spicy Pink (2 vol.) e PxP (1 vol.). No Japão, ela é muito conhecida também por ter publicado Handsome na Kanojo, entre várias outras obras populares. (Observação: Eu vi o OVA de Handsome na Kanojo. A grande piada foi tão grande que eu salvei 300 screenshots e agora são minhas imagens de reação mentais.)

Wataru Yoshizumi estreou em 1984 na revista Ribon, e apesar de ter passado boa parte da sua carreira na revista - da mesma forma que Arina Tanemura (The Gentleman's Alliance), Erika Kurahashi (Charisma Doll) ou mesmo Mayu Sakai (Rockin'Heaven) - ela tem um ciclo de amigos bem... variado. Com que eu quero dizer que ela era o Togashi da Ribon. Não em termos de atrasos (evitar uma indireta direcionada à Ai Yazawa aqui), mas em termos de pessoa maravilhosa que curte o máximo que a vida podia oferecer ao invés de ceder às loucas demandas de produitividade da indústria de mangás. Sei disso porque ela faz questão de falar das viagens com gente do naipe de Naoko Takeuchi, dos presentes que recebeu no casamento de gente do naipe de Hideaki Anno e dos conselhos que recebeu de gente do naipe de Ai Yazawa em todos os espacinhos vazios dos tankobons. Eventualmente ela comenta ainda que não gostou do anime e preferia o mangá (tm), que arranjou briga com alguém ou que o trabalho X de alguém foi péssimo ("mas ele compensou fazendo bem Y").

Sinceramente, minha ídola.

Enfim, caham. Ultramanic, né. No melhor estilo Ribon 80's ou 90's, as obras de Wataru Yoshizumi tem um visual meigo de dar cárie, e o enredo nunca deixa a desejar nesse sentido. Apesar de não ser uma escritora tão prolífica em mahou shoujo, Ultramanic (originalmente Ultra Maniac, e o porquê da mudança... considerando que a Panini tinha uma revisão horrível na época, talvez um acidente) é um mahou shoujo - daqueles que se fazia nos anos 90, quando ainda haviam meninas fãs de mahou shoujo... - publicado em 2002. Conta bem resumidamente a história de meninas cujas vidas se entrelaçam; Ayu Tateishi e Nina Sakura. A protagonista Ayu é uma garota daquelas perfeitinhas; com lindos cabelos compridos e uma postura estóica, boa em esportes e que tem várias fãs. Já a Nina Sakurail é uma garota mágica.

É dessa forma simples e direta que ela se apresenta, e é claro que a Ayu não entende coisíssima nenhuma.

Nina vai explicando que se mudou para o mundo de Ayu porque é uma garota mágica sem talento que não conseguiu passar no vestibular da escola mágica. Sendo assim, ela decidiu ir para um mundo em que ela fosse capaz de passar no vestibular e estudar. Ela não é a única; na verdade, pessoas do Reino Mágico sempre vão e voltam de lá, e existem várias garotas e garotos mágicos e mestiços no mundo de Ayu, mas é segredo e Nina corre riscos se ela espalhar o segredo. Assim, Ayu acaba se responsabilizando por guardar o segredo de Nina. Como em todo bom shoujo a Ayu gosta de um rapaz, o Kaji, que por sua vez é amicíssimo de Tsutsui, e os familiares da Nina vão encontrá-la e em resumo temos um monte de personagens em uma escola. A parte da magia é efetivamente escondida de todos e o que se desenrola são romances e amizades entre estudantes em um mundo em que secretamente existe magia.


Mas por que eu vim fazer uma resenha escrita de uma história tão simples? Porque o desenvolvimento de Ultramanic, a exemplo de outras séries de Yoshizumi, é fabuloso. A autora coloca situações super esdrúxulas (tanto em termos de mundo mágico quanto em termos de polígonos amorosos e mal entendidos gigantes) e faz personagens que a) são adoráveis, e b) conseguem lidar com as situações com uma naturalidade e uma empolgação absurdas, no melhor estilo "no fim das contas jovens serão jovens". Eu não sou super fã de romance escolar não, mas é tão inusitado ter personagens tão adoráveis e cheios de energia que eu acabo me envolvendo; a magia parece muito acreditável e as situações esdrúxulas subitamente não parecem tão esdrúxulas. Ao meu ver, história de fantasia legal é assim.

As personagens são bastante simples e estereotipadas, na verdade, o que acaba tornando-as até identificáveis - no sentido de que talvez eu não tenha nada de Ayu em mim, mas gostaria de ser ela ou ser sua amiga. E são os pequenos detalhes e momentos que fazem a diferença; as próprias personagens mencionam que sentiram saudades da Nina com o seu computadorzinho portátil, por exemplo (Observação: eu tenho uma prima que vai pra Dubai e a caixinha da Sakura me cativou tanto que eu quero perguntar se ela poderia me comprar uma dessas) e tem alguns paineis de reviravoltas totalmente marcantes que se destacam.


Enfim, é um mangá que me proporcionou uma leitura extremamente relaxante e que eu devorei. Foi escrito em 2002, uma época portanto em que a Yoshizumi já tinha bastante experiência, e a voz da experiência realmente grita na apresentação da série e nessa simplicidade cativante que é sua assinatura. Eu só queria recomendar muito Ultramanic a você que é fã de uma garota mágica, mas não dispensa uma diabetes, gosta de shoujo com jovens mas não de enrolação ad eternum, gosta de personagens que sabem o que querem e que são espontâneos, divertidos e felizes. É uma leitura super levinha e que não me acrescentou super, não vou mentir. Mas foi divertidíssimo.

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