sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Anime: Fune wo Amu - Águas mais profundas do que se podia esperar.


O post dessa vez é para falar sobre uma série de anime finalizada há coisa de uma semana. Apesar de eu não ter dado muita coisa por ela antes de sair, mesmo sabendo que o character design é da Haruko Kumota (autora de Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu [resenha] - deixo aqui minha dedicatória à divindade dos mangás BL que permitiu que essa rainha se tornasse também rainha dos josei entre a galera normal nesse ano...) e passando no Noitamina e tendo dubladores maravilhosos como Maaya Sakamoto, Takahiro Sakurai (dois dos meus favoritos ngl) e Hiroshi Kamiya... eu realmente achava que seria Toshokan Sensou 2.0. Spoilers: não só não foi como se tornou uma das minhas favoritas desse ano, e por que não dos anos 2010. Sem mais delongas, vamos a essa série que me ganhou completamente.

Fune wo Amu é uma série de anime em 11 episódios animada pelo estúdio Zexcs (Suki-tte ii na yo. [resenha], Diabolik Lovers [resenha]) e exibida no bloco Noitamina na temporada passada (Outono de 2016). Baseada em um livro que já ganhou inclusive adaptação em filme live action, a história fala... sobre uma galera de uma editora que cria um dicionário. Parece estúpido, não? Já não sou ligada em séries de slice of life de ambiente de trabalho, como Working!! ou Shirobako ou o que você quiser (afinal, de ambiente de trabalho já basta a vida, né) mas como se não bastasse, a história é sobre fazer um dicionário, de todos os livros grandes e banais que existem (no sentido de serem comuns, não sem importância). Foi por isso que eu ignorei totalmente essa série em um primeiro momento. E depois de vê-la, fiquei tão interessada em dicionários e palavras que acho que consideraria ver uma série com essa sinopse com muito mais carinho. Em resumo, Fune wo Amu é dessas séries que te faz gostar de algo totalmente inusitado e até aparentemente banal, como a produção de um dicionário. É esse tipo de série com profundidade para tal.

Vamos começar a falar sobre as palavras que nos mergulham nessa série falando sobre o seu título? Eu procuro sempre nos dicionários e tradutores os significados das palavras em japonês para saber o que são e ter uma melhor ideia do que se trata a série (e, claro, para aprender também). Fune wo Amu (escreve-se 舟を編む) consiste em fune, que é barco (simples assim), a partícula wo e amu, que é... tecer ou trançar uma cesta ou algo do tipo. Então seria algo como... tecer um barco. No entanto, isso é só um trocadilho. Segundo o Daijirin, amu também pode significar editar um livro ou alguma outra coisa de textos, algo capaz de juntar palavras, e também pode significar organizar qualquer conjunto de coisas. A-ha! E essa é a dimensão interessante do título que eu queria compartilhar com vocês, porque a tradução usual dele - A Grande Passagem - não tem essa ambiguidade interessante, o que já aponta para duas coisas: o quanto a série é muito mais profunda e cheia de significados do que poderia parecer pela sua sinopse, e muito mais engenhosa do que poderia parecer pelo título traduzido. ...E também que muita coisa ficou perdida na tradução, mas depois conversamos.












O protagonista de Fune wo Amu é Majime Mitsuya, um rapaz que deve ter seus 20 e tantos anos. Ele é um mascate que vende livros de porta em porta - definitivamente não por vocação, mas porque é o que ele conseguiu arranjar com sua especialização em linguística. Ele tenta vender os livros de um jeito tão patético que chega a ser engraçado verdadeiro Tatá Werneck dos animes. Até que um belo dia, depois de novamente vender vários nadas, Majime (um nome que significa "honesto", por sinal, e definitivamente algo que o define e que não define um bom mascate...) é encontrado por uma pessoa que diz ter o trabalho perfeito para ele: escrever um dicionário. Mesmo com sua formação e seu interesse evidente em palavras, até Majime faz uma cara de "hã?" ao ouvir isso. Eu, escrever um dicionário? Mas o que é preciso para escrever um dicionário, afinal? Eu não sabia disso antes de Fune wo Amu e aposto que você também não.

Majime acaba se encontrando com o resto da equipe, que consiste em mais um rapaz da sua faixa etária, um senhor e uma senhora de meia idade, e um professor aparentemente idoso. É esse pessoal que pretende levar dez anos ou mais fazendo um dicionário, palavra por palavra; coletando mais de duzentas mil palavras conhecidas ou não em dicionários, de "mão" a "bromoprida", e formando um dicionário que deverá servir como um barco. É um daqueles trabalhos quase invisíveis mas de uma nobreza tremenda, como o de agente funerário ou lixeiro, apenas com mais, digamos, qualificação acadêmica. E o que são dez anos, afinal? Para criar algo dessa proporção, é o necessário. Mas para a vida de todo mundo é muita coisa. "Onde você vai estar em dez anos?" é uma das perguntas capciosas jogadas na série, e temos respostas desde o nível "não sei nem o que vou comer na janta" típico do negociante carismático Nishioka, até "provavelmente aqui...?" do genuíno-de-doer Majime.

Perguntas capciosas, certo? E você pode estar se perguntando, caso não tenha assistido a série: barco? Aí vem o ponto-chave da premissa aparentemente banal, o objetivo real dessa missão. O mais interessante é que não é um dicionário qualquer que eles querem fazer, mas sim um dicionário que reconheça que as palavras são mutáveis, que inclua termos do nosso cotidiano atual. Afinal, muitos termos de áreas como a microbiologia e a tecnologia da informação certamente não existiam há cem ou mesmo cinquenta anos atrás, ou mesmo gírias e regionalismos... há uma série de palavras que as pessoas hoje em dia usam sempre, mas nem existiam há cinquenta anos. Em uma língua tão rígida e cheia de formalidades como a japonesa, esse assunto é ainda mais complicado que para nós. O objetivo dos idealizadores desse projeto, então, seria fazer um dicionário que fosse como um barco para que as pessoas dos dias de hoje pudessem navegar, com as duas mil palavras mais importantes e corriqueiras deste admirável mundo novo. Daí barco, daí o trocadilho e a parte que torna toda a fundação da história interessante para qualquer pessoa que não tem nenhum interesse particular em dicionários ou editoração: palavras.




Talvez uma das coisas que melhor distinguem os seres humanos dos demais animais seja a capacidade complexa e única de se expressar com palavras. Pessoas de diferentes países se comunicam usando palavras diferentes. Não, até pessoas de diferentes regiões em um mesmo país ou povoado. A gente consegue dar nome para virtualmente tudo com palavras. Uma simples palavra pode mudar um destino por bem ou por mal. Sua avó ou o velhinho no ônibus provavelmente usam palavras que você nunca ouviu na sua vida. (A minha usa duvideodó e bulhufas direto.) E que palavras a gente usa para se comunicar hoje? Certamente não as mesmas que eles usavam. Fune wo Amu é sobre isso: o sonho de criar um dicionário, isso é, um glossário de palavras atuais. Eu não consigo deixar de ver a nobreza disso do ponto de vista da psicóloga de formação porque, como qualquer estudioso pode afirmar, a gente se fundamenta demais em palavras para levar nossa vida em um patamar mais ou menos estável. Nas demências e doenças mentais, o uso das palavras se torna confuso e talvez seja por isso que essas pessoas adoecem. Palavras, palavras palaaaaaavras.

A missão deles se torna ainda mais nobre por essa perspectiva, e a ideia de criar um barco para a existência das pessoas no mar turbulento que é a vida de todos é bem legal, não? É assim que esses cinco editores se unem de uma forma inesperada com a missão de passarem dez anos juntos catalogando palavras para criar esse barco. Spoilers leves: O resultado é que o dicionário acaba levando ainda mais que dez anos para ser completado, como vemos depois do timeskip. A graça da série é acompanhar esses personagens nos seus cotidianos de trabalho tão não-familiares, nobres e bastante solitários, com uma ou outra cena de romance perdida aí no meio, porque o trabalho é duro mas a vida continua, com personagens indo, novos personagens eventualmente surgindo e coisa e tal.

Relacionamentos não são tão desenvolvidos explicitamente, e talvez o principal problema da série seja seu ritmo. Eu sei que essa série foi baseada em um livro, e dizem que o ritmo do filme foi melhor, mas ainda que o timeskip tenha sido razoavelmente bem posicionado, ele não foi bem desenvolvido. E o final como um todo também poderia ter sido melhor desenvolvido. Talvez isso tenha a ver com a parte orçamentária, que permitiu colocar menos eventos pequenos mas importantes para o desenvolvimento dos personagens que a maioria das séries teria nesse espaço de tempo. Mas, analogamente às palavras, a graça deles reside nas sutilezas. Cada personagem tem uma forma tão particular de se expressar e de ser que acabam parecendo mais realistas que os de muito anime de drama por aí. Por isso, não se surpreenda se você ouvir por aí que Fune wo Amu não tem nada a ver com palavras ou dicionários. Tem a ver com pessoas (como eu chamo seus personagens realistas) e sentimentos, e como toda obra de ficção tem também muito a ver com palavras, sejam as palavras que cada um leva dos mundos que visitam para colocar no dicionário ou ainda palavras de declarações de amor e de partida.


Um ponto chato: dá pra sacar que Fune wo Amu é uma série que perde algumas coisas na tradução, né? Não em termos de narrativa, porque tudo que mencionei até agora acontece de forma muito consistente, mas em vários momentos aparecem textos grandes e kanjis que tem a ver subjetivamente com o que está acontecendo - imagine como em Barakamon [resenha] ou Chihayafuru [resenha], mas mais palavras. Eu perdi muita coisa com consciência disso; teve um momento que entender um 昔 mudou minha compreensão de uma cena, e por isso acredito que tenham tido outros. Esqueça os fansubs nessa hora, mas adoraria encontrar uma página de trivias linguísticas e traduzí-la.





Enfim, voltando nessas séries... assim como Chihayafuru, Fune wo Amu tem várias cenas com metáforas imagéticas baseadas em palavras, mas enquanto em Chihayafuru temos os poemas do karuta de plano de fundo, aqui temos uma vasta gama de palavras do dicionário. Se você gostava disso em Chihayafuru, pode conferir essa série com alegria. Em relação a Barakamon, a comparação com a importância dos kanjis é inevitável. E uma terceira série tem sido muito comparada com Fune wo Amu: Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, pelo timing incrível. A profundidade emocional e complexidade dos personagens é similar, apesar de Rakugo Shinjuu desenvolver as personalidades melhor (por ser o foco afinal) e ter bem mais drama e tristezas envolvidas. As coisas são mais realistas em Fune wo Amu, os momentos dramáticos duram menos (não "nada" como em Yuri on GELO GELO GELO) e não tem grandes histórias sensacionais de um momento de guerra. É só gente da gente fazendo um dicionário. E se questionando se é isso mesmo que quer da vida, se tudo bem se dedicar dessa forma, se vai conseguir completar a tempo.

Sem mais spoilers, é isso: tem graça fazer um dicionário? Nem os personagens sabem muito bem, mas em tudo dá para se achar graça, seja em dicionários, na vida pacata das pessoas que dedicam suas vidas a alguma coisa ou em uma pasta de anotações de anos atrás, e talvez essa seja uma das lições dessa série. Da mesma forma, até as coisas mais interessantes podem parecer banais. O fato de um grupo de pessoas terminar um projeto e continuar junto depois de uma década é lindo ou banal?

Desculpa se minha honestidade Majimeana faz a série parecer estúpida, porque ela entrou em mim desse jeito.

Para falar da parte técnica, Fune wo Amu é bastante bom. O character design original da Haruko Kumota, com a sua leveza e fofura típicos, se tornou um tanto mais maduro e menos único mas ainda muito agradável no anime, e as expressões dos personagens continuam sendo a parte mais legal no character design adaptado. O colorido geralmente sóbrio transmite uma sensação de familiaridade (uma coisa de "forno a lenha no chalé de madeira") que combina com a ótica do protagonista, e maratonar a série me fez perceber isso de um jeito intenso. Pessoalmente, adoro a abertura super pop e colorida, e mais ainda o encerramento que sempre vem depois do title card bem significativo. A animação tem seus momentos, como nas metáforas imagéticas que eu falei, mas em geral é só mediana-boa. O estúdio não é conhecido por uma animação impecável, mas preciso dizer que ela serve bem ao seu propósito. No geral, eu não tenho nem grandes críticas, nem grandes elogios à produção em geral. É bem aceitável para a média do momento, sem grandes destaques. Reconhece-se como uma série no meio de muitas, em termos técnicos.

Claramente, não é por isso que minha visão ainda fica turva quando eu penso nesse anime, nem é por isso que eu estou seriamente colocá-lo no meu top 10. É sim por todo esse realismo e essa construção tão dura, tão "de concreto" quanto a personalidade do próprio Majime, sem perder a sua leveza. Fune wo Amu não é pra todo mundo, e eu tenho certeza de que não é todo mundo que gosta de ver uma série de gente normal fazendo um treco uncool, mas é tão única que eu não podia deixar o ano terminar sem recomendar aqui para quem gosta de slice-of-life sem graça, mas muito inspirador. Grata!

Nenhum comentário:

Postar um comentário