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domingo, 27 de novembro de 2016

Female Gaze, josei e outros assuntos


Eu já escrevi um post aqui recentemente comentando sobre Female Gaze - a resenha de Prince of Stride - mas é um assunto que eu considero pertinente (afinal, esse é o blog que comentou todos os episódios de Free!, né) e que queria comentar aqui mais a fundo: o que é Female Gaze, e por que ele importa tanto? Ou, se não importa, por que ele deveria importar mais para a gente e para as indústrias? Eu prometi, e aqui está o post-dissertação-algo sobre Female Gaze!

Não é nenhuma novidade para ninguém que mulheres consomem coisas. Entre essas coisas, incluímos aí filmes, anime e coisas do tipo. Mulheres consomem essas coisas porque gostam delas, então investem tempo, dinheiro e etc. nessas coisas. E então os produtores dessas coisas ganham dinheiro, o que faz com que seja interessante que eles coloquem coisas que agradam essas mulheres nessas coisas.

Uau. Tamanha complexidade, huh?

Bem, não tem nada de "feminista" nisso aí, é só um fato básico desde que o mundo é liberalista e capitalista e mulheres trabalham fora, o que em alguns lugares já faz três séculos, enfim. Sucede que o mundo é esse lugar bosta onde às vezes não importa o que ou o quanto uma pessoa faz, ou se ela é capacitada ou não, mas sim se ela "pode" ou não por motivos arbitrários e ilógicos. Vocês sabem, é aquela coisa: ninguém pede para nascer rico ou branco ou... A conclusão é que até hoje temos mais homens em cargos de produção do que mulheres, e todo mundo sabe (ou deveria saber) que falta de diversidade frequentemente leva também à falta de qualidade, coisas mais bostas perdurando aí no mundo e coisa e tal. Assim como acontece em Hollywood, a indústria de anime ainda sofre de uma irracionalidade chamada "disparidade de gênero" que faz com que homens e mulheres com um mesmo histórico tenham chances diferentes de conseguir um determinado cargo (assim como a de animação em geral) e é alavancada por uma coisa chamada "machismo japonês" que faz com que diretores de renome lancem no ar informações como "lol, mulheres são realistas e homens são idealistas e é por isso que temos mais homens que mulheres trabalhando aqui". Um dos vários erros que existem por baixo desse discurso é o tema do post de hoje. "De novo Miyazaki?" Desculpa, mas dessa vez não é para falar exatamente sobre essa frase mas sim sobre aquilo que faz esse tipo de asneira ser tão violentamente atacada na Internet.

Sucede que juntar os parça e fazer um negócio tosco é mais gostoso, belezinha, confortável do que passar pelo esforço de empatizar com o próximo, entender que pessoas podem ter visões diferentes sobre uma mesma coisa e agregar essas diferentes visões em uma obra de arte, seja um filme, anime ou o que for. A segunda opção pode até ficar melhor, mais inclusiva e atrair um público maior, mas ah, dá tanto trabalho, chama aí os parça e vamos fazer um filme, ou anime. Capitalismo tem dessas. O resultado é que os parça só chamam os parça, e é assim que todo ambiente de trabalho acaba meio infectado, mas no trabalho criativo isso é especialmente prejudicial ao produto final.

Explanados esses dois pontos, vamos retomar o que é esse tal de Female Gaze. Female Gaze, para quem não sabe, é o contraponto do mais comum Male Gaze, que por sua vez é um conceito com mais de 40 anos de existência baseado no "gaze", ou perspectiva, ponto de vista. Esses termos implicam que existem pessoas com diferentes pontos de vista de acordo com suas vivências - afinal, não se pode esperar a mesma visão de mundo de pessoas de quem se espera coisas diferentes, e em geral o mundo infelizmente ainda espera coisas diferentes de homens e mulheres - e implicam também a heterossexualidade de quem se fala, mas acho que podemos concordar que esta é a parte heteronormativa desnecessária do termo. Quando eu falar de fanservice usando esses termos, por favor tentem interpretar nas suas mentes como "pessoa-que-curte-mulheres gaze" e "pessoa-que-curte-homens gaze", admitindo que isso é algo errado que só se baseia em uma espécie de média estatística vigente. Obrigada! :)

Pessoas diferentes, óticas diferentes, certo? Então, como deve dar para imaginar, "female gaze" se refere à forma que as mulheres supostamente enxergariam o mundo. Que obviamente não é a forma universal que todas as mulheres enxergam o mundo; é só uma forma de denominar que essa visão que tende a ser diferente - já que mulheres possuem vivências, expectativas e etc. diferentes - da visão dos parça. E que bom que é diferente! Desviar o foco dos filmes, das revistas pornô e das propagandas de cerveja do corpo feminino e colocar o foco no corpo masculino (sem terror, isso já rolava na Grécia, você vai sobreviver), mostrar romances (ou pegação, o que preferir) e vidas (dificuldades como glass ceiling, tal) da perspectiva de personagens femininas, tudo isso é muito válido e bem legal.

O problema surge quando essa diferença não é retratada nas artes, na cultura das sociedades em geral. Quando essa diferença é deslegitimada a tal ponto que mulheres se sentem forçadas a aceitarem caladas, para dar um exemplo básico, quando um anime com uma história incrivelmente bem elaborada tem uma perspectiva que objetifica as personagens femininas como se fosse a coisa mais natural do mundo (e é bem corriqueiro, né). Vamos lá, comigo: não é natural que mulheres se objetifiquem porque mulheres são seres vivos que reconhecem que são seres vivos e não objetos, a menos que isso lhes seja totalmente proibido. Grata!

Eu linkei aqui o post no TV Tropes, mas eu sinceramente o considero meio ruim para explicar o conceito de female gaze por ser extremamente heteronormativo e focado no lado sexual do termo. Acho que uma ilustração melhor é: K-On!Eu já fiz um post no PxP falando sobre como considero K-On! feminista, e não é que você vá encontrar a Ritsu fazendo pose de We Can Do It (até queria, mas) mas sim que K-On! tem a) uma equipe de produção composta por muitas mulheres e encabeçada pela maravilhosa Naoko Yamada, e b) passa no teste de Bechdel e outros testes de ficção. Então, sim, K-On! consegue ser empoderador (no sentido de "trazer emoções boas e felizes" para as mulheres), e veja só que (não) coincidência: K-On! tem uma equipe de produção formada por muitas mulheres! ^_^ *gasp* ...então tem isso. É claro que não é uma regra que "se tiver mulheres na produção, a produção será mais feminista, mais diversificada etc.", mas infelizmente essa correlação ainda é muito forte porque, bem, existe essa coisa chamada "falta de empatia" que domina as relações humanas e faz com que a sociedade dos parça ainda seja muito forte.

Enfim, acho que já deu para ter uma noção do que significa o conceito de "female gaze" - cuja execução pode ser variada em culturas diferentes - que é basicamente esse conceito que diz à população feminina "seu desejo importa", e que portanto chega a ser subversivo, porque *gasp!* que audácia dar autonomia à população feminina. Vou dar aqui outros exemplos do que eu considero female gaze em anime.

Free! [comentários] é o exemplo citado como mais típico e, bem, exemplar de anime que não dispensa um female gaze. Garotos em idade colegial que tem músculos enormes e corpos dignos de esculturas de deuses gregos? Ok, eles são nadadores, é esperado que eles tenham músculos. Não que eles tenham corpos de lifestyle maromba - Sousuke, estou olhando pra você. E sim, isso não é nada mais que o contrário que as menininhas de 14 anos com corpões em muito anime shounen popular - Nami, Lucy, Yoko e coisa e tal. Não que absolutamente não existam meninas e meninos de 14 anos com corpos adultos, mas o que diferencia nesses animes e que evidencia o propósito de fanservice desses corpos é a forma que eles são mostrados. Nos animes supracitados, eles são obviamente desenhados de forma a parecerem belos, atraentes e coisa e tal.

Um outro exemplo de anime com Female Gaze, claro, é o super pertinente (e queridinho da temporada da galera, aliás) Yuri On Ice!!!. Vale notar que a diretora, Sayo Yamamoto, já era uma das minhas ídolas em termos de diretoras de anime (juntamente com a Soubi Yamamoto e a Naoko Yamada, aliás, pra você ser uma diretora que arrasa é preciso ter o kanji de montanha no nome? Acabei de notar. Pra refletir.) mas só recentemente eu descobri que ela participou de muito mais coisas do que eu imaginava - incluindo a abertura de Psycho-Pass [resenha] e a de Arakawa Under the Bridge, de dois dos meus artistas de anisons favoritos de todos os tempos. Por isso, bem, amo/sou ela. Mas enfim, onde estávamos, YOI. Yuri on Ice!! é uma série que retrata homens esportistas assim como Free!, mas ao invés de ser um treco másculo! Viril! Power!! como todo shounen de esportes, é um anime que foca muito nas sensibilidades dos patinadores - sendo que cada um se atenta mais para uma coisa totalmente diferente quando vai patinar, e a gente acompanha esses pensamentos - e em coisas bonitinhas em geral, tipo cachorrinhos e o encerramento com fotos de Instagram. Moral da história: 可愛いは正義. Não, espera, a moral da história é que Yuri On Ice!! aproveita exatamente essa onda de anime de esportes com bishounen sendo bishounen, como Free! e Haikyuu!! [comentários] (e Kuroko no Basket, e meu saudoso Oofuri [comentários] e...) e toma a liberdade de colocar uma sensibilidade diferente, misturada com gostos tidos como femininos e que tornaria a série mais próxima do josei ou shoujo padrão que do shounen de esportes padrão.

Falando em josei e shoujo padrão, josei é um gênero que essencialmente surgiu por conta desse conceito. O blog parceiro Animecote publicou recentemente um post sobre essa demografia que vale a pena. Antes de falar sobre isso, vale lembrar tudo aquilo que eu já postei aqui: demografias são apenas suportes estereotipados! Dito isso, Lá nos anos 60 e 70 as demografias ainda não tinham passado por tantas mutações, ainda eram levadas ao pé da letra pelo público consumidor - shoujo era pra meninas e shounen pra meninos - e BL, josei e shoujo era tudo farinha do mesmo saco chamado "shoujo". O que essas demografias tem em comum? Uma perspectiva voltada para a realidade das leitoras, no caso meninas (e jovens). Essas meninas jovens foram crescendo ávidas por mais material que representasse a nova realidade delas; assim surgiu o Ladies Comics, inicialmente muito focados na questão sexual (se pensarmos bem, talvez a única mudança concreta, real da infância para a fase adulta em uma sociedade tão patriarcal quanto a sociedade japonesa dos anos 70...) mas que eventualmente viraram o que conhecemos hoje como josei, histórias contadas sob e para a perspectiva de mulheres adultas - não coincidentemente, 99% das vezes por mulheres adultas.

Minha demografia preferida é josei. Por coincidência como mulher adulta que sou, mas já foi seinen e o escambau. E a questão do josei é justamente que tem uma sensibilidade diferente, até uma certa contracultura criada em cima do que é esperado das mulheres, que é talvez a grande questão de toda a mulher adulta. ("O que querem as mulheres?" Justiça, igualdade, condições dignas de existência que tal...) Exemplifico (cuidado, spoilers!): Honey & Clover consiste essencialmente em um triângulo amoroso que termina com a garota decidindo que romance é difícil e indo morar com o tio que gosta dela de jeitos bem ambíguos. Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu [comentários] consiste essencialmente em dois jovens morrendo porque a moça inabalável gostava mesmo era do amigo do protagonista. NANA consiste em uma jovem adulta muito "romântica" (e, de forma geral, iludida) empolgada com a vida na cidade grande, que eventualmente engravida de um artista e vê sua vida sendo arruinada.

O ponto comum? "Tragédia"? Acertou. Mentira. Talvez. Para não dizer que não falei das flores, tem josei mais positivos, digamos (mais spoilers!): Chihayafuru [resenha] é sobre uma garota apaixonada por um esporte (ou por um rapaz ou pelo esporte por causa do rapaz, fica no ar) que dá o seu melhor e vai conseguindo resultados. Nodame Cantabile é sobre uma moça bagunceira que é tudo que uma moça não deveria ser, mas é uma pianista exemplar e se apaixona por um moço de família (tm). Kuragehime consiste em uma garota socialmente excluída que se odeia de um grupo de garotas socialmente excluídas que se odeiam, conhecendo um rapaz socialmente subversivo que não só vira amigão dela como ainda faz ela se meter em meios onde ela nunca esperou se meter e se enrolar com o seu irmão chato.

O ponto comum é que são obras com doses homeopáticas de realismo (essas coisas aí não acontecem com toda mulher mas certamente aconteceram com algumas mulheres), com uma densidade emocional exacerbada que vai dar o fio da meada da história, e quem guia essas histórias essencialmente são personagens femininas. Diferentemente de muitos shoujo em que a garota é escolhida pelo rapaz mais popular da escola, ou muitos shounen em que a garota segue o protagonista ao redor do mundo, ou ainda muitos seinen em que a garota só serve pra fanservice shots, a personagem feminina importa na maioria dos josei. Nesse sentido, josei é muito positivo até para acordar as mulheres adultas pra responsabilização (de "nossa vida, nossas regras") no sentido de lembrar que sua voz importa (naquilo que lhe foi delegado) e ao aguçar a sensibilidade para questões que são importantes para as mulheres refletirem sobre. Seja gravidez precoce, o "complexo de lolita", o papel do feminino ao longo da história ou qualquer outra. (Pessoalmente, sacar a mensagem de NANA aos 13 anos certamente foi mais influente pra mim em nunca ter tido vontade de cometer besteiras de jovens do que qualquer aviso de vó, aula de educação sexual ou ensinamento do Fantástico. Grata, Yazawa!!)

E é assim que chega a ser, em certo sentido, contracultural. A questão é um pouco aquela coisa: "Vamo fazê o quê?" Não dá para deixar de fazer nascerem homens e mulheres, nem apagar as expectativas irreais de metade da sociedade do dia pra noite, mas dá pra pelo menos discutirmos juntas de forma a melhorarmos nossas condições de existência. Uma boa mensagem. Afinal, o que é "feminino"? Novamente, uma discussão na qual eu não pretendo entrar porque o blog é sobre "anime" e não "minhas ideologias", mas é resumidamente uma série de ideias construídas ao longo de séculos de não capitalismo sobre como o ser humano do sexo feminino deveria ser, e que a gente devia ter superado no momento em que liberdade, igualdade, fraternidade foi proclamado, porque não há sentido em esperar que um "instinto natural de ser amável e blabla!!" aflore em uma pessoa que como todas as outras estuda, trabalha e se sente igual perante a lei só porque ela tem uma vagina. Reflita se quiser.

Concluindo, mais uma frase pra chocar a sociedade machista ™... assim como homens diferentes se relacionam diferentemente com o conceito de masculinidade, de formas que variam do "odiar o conceito", "sentir que não se encaixa" até "basear toda a sua subjetividade no conceito", também mulheres se identificam de formas diferentes que variam de pessoa para pessoa, e isso é evidente quando expressões não são reprimidas. E daí? E daí que é muito bom ter um espaço seguro na ficção onde esse tipo de dilema (que existe mas é apagado, afinal mulher tem que ser feminina) tem espaço e com o qual as pessoas podem se identificar; representatividade importa. No mais, "ah, mas esses caras perfeitos não são realistas"... Verdade, porque mulher cheia de silicone é uma imagem perfeitamente natural e que não foi inventada pela midopa... Enfim, vamos só colar aqui essa definição:
Fantasia s.f. Imaginação criadora; ficção; coisa que não tem existência real, mas apenas ideal.



Enfim, eu postei isso tudo aqui apenas para ter esse post para linkar quando eu for falar de Female Gaze, mesmo, porque esse post é mais interessante do que a página no TV Tropes ou outras fontes. Não só por estar em português mas também porque eu procurei ser abrangente e não focar só no conteúdo sexual. Female gaze é estereotipado sim. É para ser. Como disse, "female gaze" não implica "toda mulher vai ser sentir agradada por isso" (e desde quando todo homem se sente agradado por "male gaze", afinal? Os anime elitists que odeiam fanservice e moe não me deixam mentir), implica sim em uma aproximação maior da visão esperada que pessoas do sexo (ou gênero) feminino possuem, que ainda não é predominante na ficção - mas vem se mostrando em obras como as supracitadas.

Espero que tenham gostado desse post-dissertação-explicação, e que ele sirva para ilustrar o que é Female Gaze toda vez que eu citar esse termo aqui e debater sobre. Espero também que isso lhes dê mais esperança na ficção. ヽ(•̀ω•́ )ゝ✧ Até mais! ~

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