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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Mangá: Shibou to Iu na no Fuku wo Kite - Distúrbios alimentares, choque de realidade e muitos arrepios.



Olá, gente!

Depois de muito tempo sem posts, venho aqui hoje para voltar à ativa com um post sobre um mangá que li recentemente, mas que já estava na minha "Plan to Read" do MyAnimeList há muito tempo,  mais precisamente, há um ano e alguns meses, quando eu escrevi esse post sobre cultura japonesa, ficção e sobrepeso. Sucede que a minha Plan to Read é um negócio virtualmente inútil - ou eu leio um mangá assim que descubro sobre ele e nunca lembro sequer de adicionar no meu MAL, ou eu nunca leio - então eu acabei esquecendo, e lá ficou até me dar a vontade anual de "ler um mangá qualquer", e então eu o encontrei.

E, sinceramente, por que não li antes?

Mas vamos falar do que se trata esse mangá primeiro. Trata-se de um mangá josei publicado de 1996 a 1997, de autoria de Moyoco Anno (Sugar Sugar RuneHataraki Man) - sim, aquela que é esposa do criador de Evangelion, a de Kantoku Fuyuki Todoki, blabla. Eu já tinha ouvido falar muito dela, e admito que tinha ouvido falar muito mal dela também - que Sugar Sugar Rune é "porcaria loli", que Hataraki Man é politicamente incorreto também e tudo mais - então por isso nunca tinha lido nenhuma obra dela, apesar de ter assistido Kantoku Fuyuki Todoki e sentido que talvez ela não fosse mesmo a mais politicamente correta das autoras de mangá. O que não é necessariamente algo ruim. Dá pra fazer "politicamente incorreto" certo se você não for babaca (*cof*).

Eu não tenho como falar de nenhuma outra obra dela, mas esse aqui é um ótimo exemplo de mangá politicamente incorreto que eu considero sensacional, porque é uma visão nua e crua de um problema cotidiano muito sério pra muitos jovens, especialmente do sexo feminino: sobrepeso e distúrbios alimentares. Shibou to Iu na no Fuku wo Kite - em tradução livre, "Vestindo as roupas chamadas de 'gordura'" - conta a história de Noko, uma moça jovem, provavelmente de vinte e poucos anos, que trabalha em uma empresa, uma "salarywoman" típica. Ou seria típica, se uma questão não a perturbasse desde a sua infância: o fato de ela ser gordinha. Por conta disso ela tem dificuldades de relacionamento com várias pessoas, e vários problemas de autoestima. "E daí?"

E daí que ele é simplesmente destruidor na sua argumentação. Ele é destruidor porque nós, como pessoas socialmente inseridas, acompanhamos a vida da pobre moça e não podemos negar a realidade que há nela. Se você não leu meu post sobre cultura japonesa, ficção e sobrepeso, eu recomendo a leitura pra se sensibilizar, mas sinta-se livre pra ler esse aqui sem ter lido o outro também! Aliás, eu tentei não dar muitos spoilers nesse texto, mas tem um ou outro, sem entrar em detalhes. Vale muito a pena ler o mangá, mesmo depois de ler essa resenha. Se você não se incomodar com spoilers, recomendo abrir as páginas que estão linkadas, além daquelas que estão espalhadas pelo post!

Enfim, a Noko é essa garota jovem e gordinha. Por que ela é gordinha não importa muito, apesar de até ser mencionado em um momento no mangá que seus pais se divorciaram, e então ela começou a descontar sua dor emocional na comida. Esse tipo de história é muito real. Mas mesmo que você não conheça nenhuma história assim, soa plausível, afinal é comum que, por exemplo, tentemos nos motivar com uma comida gostosa ou chocolate, café pra se manter acordado, e assim por diante. O motivo, mais que psicológico, é químico. E logo no primeiro capítulo a Noko diz, com todas as palavras, que adora comida. Ela aparentemente cozinha bem - e seu namorado chega a reclamar que "com você, tudo é 'comida'?" - e gosta muito de comer, também, porque comida a faz feliz. É, quem sabe, sua única fonte de alegria.

Como Noko sempre foi gordinha, ela cresceu sofrendo todo tipo de bullying e vestindo, metaforicamente, como diz o título do mangá, "as roupas chamadas gordura". O próprio título por si só já não é uma argumentação matadora? Afinal, roupas são usadas para parecermos uma coisa ou outra - para nos encaixarmos em uma tribo ou ambiente, por exemplo - mas aquilo que se destacava à primeira vista nela sempre foi, mais que suas roupas "normais", a sua gordura. Além disso, há a questão de como em qualquer lugar do mundo a indústria da moda prioriza pessoas magras, e os gordos que vão procurar lojas de fábrica - aliás, esse painel do mangá ilustra bem aquela frase popular besta de que "qualquer roupa fica bem em quem é magro" - então é muito mais fácil encontrar roupas legais e significativas se você é magro. Então, bem, já vemos no nome que a coisa é boa.

Enfim, "por sorte", nas suas palavras, ela acabou arrumando um namorado no Ensino Médio, com quem mantem um relacionamento há oito anos. Seu nome é Saitou, e ele é literalmente um babaca completo que tem a seu favor o fato de ser razoavelmente bonito e magro. Por conta disso, ela, que sempre foi depreciada pela sua aparência, se sente em constante dívida com ele, e faz de tudo para ter uma personalidade boa o bastante para que ele não queira se separar dela nunca. "De tudo" envolve tolerar vários tipos de abuso, mimá-lo e não ter muito em troca além do prazer de ouvir comentários como "como você arrumou um cara assim?" das colegas de trabalho mais populares que ela, e sentir que não é uma completa perdedora na vida por causa disso.

Porque se não fosse por ele, ela se sentiria uma completa perdedora. Porque ela é gorda. Como comentei no outro post, a sociedade japonesa é ainda mais absurda com a cultura da magreza do que a brasileira, então todos aqueles adjetivos pejorativos - preguiçosa, desinteressada, e assim por diante - que são preconceituosamente atribuídos às pessoas gordas foram tudo que a Noko, que é uma garota boazinha sem grandes talentos, ouvira na vida. E por isso, assim como muitas mulheres reais com baixa auto-estima, Noko se agarra ao namorado como se ele fosse a única coisa de bom que ela tem na vida enquanto ele a estraçalha psicologicamente. E ela literalmente diz: "se ele parar de gostar de mim, eu vou morrer".

A questão é que a Noko é, de fato, boazinha. Ela é uma pessoa que tem muita empatia, que não é socialmente inapta nem nada, ela só está naquela parcela de pessoas com IMC elevado que deixam de ter várias oportunidades na vida por isso: de ser considerada atraente (porque ela é bonitinha!), de vestir roupas da moda, de ir para a balada... E ela, que também não é burra nem nada, tem plena consciência disso. O problema é que ela cresceu sendo "a gordinha", e não consegue enxergar nenhuma perspectiva para a sua vida além de ser empurrada para baixo por várias pessoas: seu namorado, suas colegas de trabalho, as pessoas que olham para ela e, algumas vezes, até ela mesma, que acaba introjetando esses sentimentos negativos que a sociedade tem para com essas pessoas acima do peso.

Dentro desse cenário, tem também a Mayumi, que é uma puta moça que trabalha com ela. Na verdade, ela é literalmente prostituta. Além de trabalhar na mesma empresa que a Noko, ela aparentemente também transa por dinheiro à noite. Deixando as profissões dela de lado, o fato importante é que ela é uma bitch de marca maior: ela é daquelas Mean Girls que fazem de tudo para atazanar a vida de uma moça normalzinha. Olhando de um ponto de vista distanciado, ela é uma bitch invejosa, ponto. A questão é que o mangá em alguns momentos transiciona para uma narrativa em primeira pessoa, então nós temos também uma outra visão da pessoa que é a Mayumi: uma verdadeira vencedora na vida, querida pelos seus colegas de trabalho e *gasp* magra e bonita. E então a Mayumi começa a infernizar a vida da Noko. Eu não vou dar muitos spoilers aqui, apesar de o mangá ser curto, mas basta dizer que ela faz todas aquelas coisas que as bitches da ficção e da vida real fazem com as "garotas boazinhas".

Além disso, em um determinado momento em que briga com seu namorado, ela - que é extremamente dependente - sente que "precisa ouvir a voz de um homem", e acaba arrumando um one night stand com um velho com tara por gordas. A coisa do fetiche que eu falei no post anterior como um exemplo de má representação? Sim, esse mangá também trata disso. Enfim, ela obviamente não fica feliz com o fato de que o único cara que quer ficar com ela é um idoso fetichista, e essa é a gota d'água no copo já cheio da Noko. É a gota d'água, porque não dá mais para negar todas as oportunidades que ela deixa de ter simplesmente por ser gordinha. E é aí que ela toma uma decisão: a de perder peso. E é que a história realmente começa. Não, ainda não tinha começado. Ela começa procurando uma clínica estética, com uma esteticista que também tem lá seus problemas mentais - sim, ela é a personificação daquele tipo de pensamento errôneo de que "gordura = preguiça" que eu já comentei no post anterior sobre ficção japonesa e sobrepeso - e acaba encontrando outra forma de perder peso muito mais rápida: a bulimia nervosa.

Eu nunca tinha lido um mangá que abordasse de uma forma tão clara e sincera a questão dos distúrbios alimentares. Em uma nota mais pessoal, além de ter obviamente estudado muito sobre transtornos alimentares na faculdade de psicologia, eu também tive anorexia nervosa por um período curto de tempo - alguns meses, só o bastante para eu ir parar no hospital - então digo isso com conhecimento de causa de ambas as formas. Ter um distúrbio alimentar pode parecer coisa de gente sem noção, eu sei, eu também já pensei isso. Especialmente se você for um homem cisgênero, porque a sociabilização de um homem, infelizmente, é até hoje diferente da de uma mulher. Em outras palavras: se você é um homem, é comum que você seja incentivado, mais do que a ser bonito, a ser inteligente ou ser bem sucedido. Se você é uma mulher, e tiver que deixar algo de lado, é comum que tudo bem se esse algo for "ser relevante". Enfim, voltando. Se quiser entender e empatizar um pouco mais com pessoas com distúrbios alimentares - por exemplo, se tiver uma pessoa querida com um distúrbio alimentar! - esse mangá é simultaneamente uma lente de aumento e um soco no estômago. Recomendadíssimo.

A exploração do psicológico da Noko em relação ao seu transtorno passa pela fase em que ela fala que é "só uma dieta", por fatshaming, pelo binge eating, pelos traumas da infância e pela questão de comer por estresse, mas não se limita a isso. O fato é que ela chega a ficar muito magra, e ela também passa por toda a euforia do emagrecimento. Sim, transtornos alimentares envolvem uma euforia quando o emagrecimento enfim acontece, e ela chega a ser gordofóbica. Ela, que internalizara desde sempre que era uma perdedora por conta do seu peso, quando vê garotas gordas falando em namoro, age exatamente da mesma forma que a Mayumi: sendo uma grande babaca, por achar que é injusto da parte delas serem felizes sendo gordas. E aí até mesmo a personalidade boa dela, que era uma das poucas coisas que ela, que nunca construiu nada, tinha a seu favor, começa a se esvair. E aí ela volta a engordar, porque é como se ela não pudesse ser como ela sempre foi e ser magra ao mesmo tempo.

O fato é que a Noko é sempre muito boazinha e fechada, aquele tipo de pessoa que engole todo tipo de sapo e fica quieta. Ela é extremamente honesta, e como ela sente, digamos, o peso do seu peso, ela faz de tudo para que as pessoas não a odeiem. Porque parece que a simples existência dela como uma pessoa gorda é o suficiente para ser odiada pela sociedade, sofrer bullying e tudo mais. Ela é honesta - e é por isso que o namorado dela é um lixo, e ele sabe o lixo que é, e que "só uma garota boazinha como a Noko" aguentaria ficar com ele, ao mesmo tempo em que ele pisa nela para se sentir bem. Ela empatiza com todo mundo - e é por isso que ela faz sempre o que querem que ela faça. Quando querem que ela emageça, ela emagrece. Depois, começam a estranhar. As pessoas começam a ficar realmente incomodadas com o fato de que "a gorda" não tinha mais por que ser "a gorda", afinal ela... não era mais gorda. Sem esse motivo para fazer bullying, as pessoas à sua volta começam a se apegar à imagem do seu passado para não terem que enxergar seus próprios defeitos - sobretudo pessoas como a Mayumi, obviamente. E então o bullying só aumenta.

Isso é real? Isso é a interpretação dela dos eventos que ocorrem à sua volta. Pensando como uma pessoa com distúrbio alimentar, com certeza. Pensando mais realisticamente, só em parte. O fato é que a pessoa que não tem distúrbio alimentar - ou, que não entende essa forma de lidar com o peso com as emoções tão afloradas, como uma coisa tão importante para a sua identidade - não entende uma perda de peso tão súbita. Algumas pessoas realmente não queriam que ela deixasse de ser "a gorda", mas outras simplesmente não entendiam. A realidade mais profunda é que a maioria simplesmente não se importava, só estranhava.

É claro que, conforme seu transtorno se intensifica, também tem um momento em que os colegas começam a ficar genuinamente assustados com a sua aparência. E então ela volta a engordar por causa dos outros. E depois ela emagrece de novo... por causa dos outros. Episódios, de fato, são muito normais em distúrbios alimentares. Não raro têm a ver com os outros. Ironicamente, uma das poucas pessoas sãs quanto a isso é a esteticista, que manda a real para a Noko: é o seu corpo. Se os outros não gostam, o problema é deles. Aliás, a Noko tem bulimia nervosa, e não é incomum que pessoas com bulimia comam até demais, até para acompanhar os outros, "socialmente", e depois vomitem. Como comida era uma das poucas fontes de alegria dela, ela acaba indo pelo caminho da bulimia, e também nesse sentido tudo é muito realista.

Em vários momentos enquanto lia esse mangá eu me peguei literalmente falando "*suspira* gente, Moyoco Anno". Aliás, como ela também não é das mais magras das mulheres - ou pelo menos não se vê assim, a julgar por como se representa em Kantoku Fuyuki Todoki - fiquei me perguntando se esse mangá também se baseia em sentimentos dela, porque é realmente muito fidedigno ao pensamento de uma pessoa com distúrbio alimentar. Independentemente dos motivos, o psicológico da protagonista é muito realista e envolvente, então parabéns por isso.

Outro fato que eu gostei muito a respeito da autora é a capacidade que ela tem de retratar tudo com uma certa leveza. De injustiças pesadas, grandes dramas, insanidade, a tara do velho... tudo que seria meio digno de causar ânsia de vômito em pessoas com estômagos mais fracos, tipo eu, é tão maravilhosamente bem feito que causa outras impressões - por exemplo, quanto ao episódio com o velho, apesar de ser um momento dramático, chega a ser muito comédia. Da mesma forma, a Mayumi faz coisas terríveis, e então ela - que supostamente é muito bela - é retratada com um traço porco, então tem uma assinatura forte ali de que a autora não é conivente. E isso tudo é muito confortante.

Como parece a Noko que nada de bom veio de sua magreza, pois só causou discórdia e confusão no ambiente de trabalho, ela volta a engordar. E advinha? As pessoas continuam reclamando. A mensagem é simples: Não se pode ganhar. Se está gorda, é agredida; se está magra, também, e ela chega a se perguntar se não presta pra nada se não for gorda também. E pior: não se pode ganhar, mas ela diz "não posso perder", então dá para imaginar como é difícil essa batalha contra ela mesma, que não tem vitória. Aliás, tão realista que esse tipo de história não tem um final feliz. Afinal, o que seria o final feliz, se nem perder peso e nem ganhar peso são a saída? A mudança de padrões sociais e midiáticos que estimulam a gordofobia? Pfft, caro leitor iludido.

Nota-se que a mulher, em particular, está sempre sob julgamento; não é a toa que a competitividade na sociabilidade feminina é uma questão, e uma que também está em pauta aqui, já que a Noko faz com as outras exatamente aquilo que fizeram com ela. Além dessa moral, e do tema brilhantemente abordado dos transtornos alimentares, o mangá também se aproxima de outros temas, como machismo - obviamente, dado o quão babaca o namorado dela é e a mania de parte da população masculina de "o mundo depende do meu membro inferior" - manias de "perturbações no sistema" - chuuni? Ou só loucura em geral? - homossexualidade, violência doméstica, felicidade, entre outras. Então, como josei, é um prato cheio.

Por outro lado, quase que para compensar a história e a abordagem maravilhosas, arte do mangá é extremamente pobre. Nos quinze capítulos de cerca de vinte páginas cada não tem espaço para arte "desnecessária", todo traço desenhado é para representar algo importante. Nesse sentido, os painéis tendem a ser muito vazios, mas também muito significativos e cheios de emoção. Eu pessoalmente gosto de mangá assim, mas sei que não é para todo mundo. Falando em não ser para todo mundo: tem nudez, sexo, mais sexo e pêlos pubianos. Fica aí o aviso.

Em suma, não, Shibou to Iu na no Fuku wo Kite  não é pra todo mundo, definitivamente. Mas isso não significa que não é pra ninguém, muito menos que não é pra maioria das pessoas... na verdade, devia ser para todos, mas infelizmente parece que uma minoria consegue simultaneamente digerir e não achar hipster demais. As chances de você gostar, no entanto, são altas se você gostar de josei relativamente curto, ousado, com psicológicos densos, temas fortes abordados de uma forma única. Se você tiver um interesse particular em sociabilidade feminina e transtornos alimentares, é muito bom, porque é uma representação extremamente realista.

Fato é que transtornos alimentares são um assunto muito contemporâneo, muito significativo, e que, se lhe parece distante, que deixe de parecer - estimativas recentes apontam uma prevalência de 4% a 8% da população feminina, e esse número tende a crescer, uma vez que transtornos alimentares estão relacionados a transtornos de ansiedade - que tem a maior prevalência entre os transtornos mentais, e continuam a crescer - e ao culto à magreza. E se ainda lhe parecer distante, perceba que aquela sua amiga *cof* ou aquela cosplayer *cof* que emagreceu horrores com dieta pode não ter simplesmente feito uma reeducação alimentar.

"Nossa, Chell, você está sendo exagerada!" Estou? Vamos dar uma olhada então na tag "thin" do Tumblr. Não vamos nem procurar blogs proana/promia, nada. Só vamos dar uma rápida pesquisada na palavra "magreza" em uma comunidade virtual aberta composta majoritariamente por mulheres jovens, e colar aqui alguns dos posts mais populares que não tem absolutamente nada de especial, mas resumem bem alguns pontos do mangá.


1. "'Garota morta andando', dizem os garotos no salão. 'Conte-nos seu segredo', as garotas sussurram. De um banheiro ao outro. Eu sou aquela garota. Eu sou o espaço entre minhas coxas pelo qual a luz do dia brilha. Eu sou os ossos que eles querem, presos em uma moldura de porcelana." 2. "'Thinspo' é mais do que magreza. É uma garota magra na praia vestindo seu biquini favorito, rindo e se divertindo, sem se preocupar se ela está gorda demais. É vestir o que você quiser e se sentir bem porque você sabe que é magra e está linda de qualquer jeito, mesmo vestindo roupas em um tamanho maior que o seu. São seus dedos longos e elegantes correndo pela sua barriga reta. É passar por outras garotas e sorrir consigo porque você sabe que elas têm um pouco de inveja do seu corpo magro e pequeno. É ser capaz de tirar uma foto do seu corpo sem nem mesmo precisar posar porque você já é fofa e pequena. São pessoas se voltando para olhar para você quando você passa e ainda pensando horas depois sobre o quão bela você é." 3. "'Chame uma garota de bonita 1000 vezes e ela não vai notar. Chame-a de gorda uma vez e ela nunca vai esquecer. Isso é porque elefantes nunca se esquecem.' Hilário!" 

Sim, isso acontece por aí. Não, isso não acontece sem motivo. Isso acontece porque: machismo, gordofobia, todas essas palavras que a gente lê por aí e pensa "bobeira de sjw", mas que são palavras que descrevem coisas bem reais. Acontecem também porque a gente vive em uma sociedade narcisista que preza pelo "sucesso", mas esse tal sucesso tende a ser tão arbitrário e idiota quanto a medida da circunferência do seu braço em centímetros. E se você leu o mangá, vai notar o quão parecido o pensamento da Noko é, essencialmente, com o dessas meninas. Ainda que obviamente, por questões socioculturais e outras - o mangá é de uma moça japonesa em 1997, essas screenshots são do Tumblr de 2016, etc. - não seja exatamente a mesma coisa, a linha de raciocínio é exatamente a mesma. Então, mesmo sendo um mangá antigo, Shibou to Iu na no Fuku wo Kite permanece (infelizmente) extremamente atual, pertinente, e inteligente.

Quanto a mim, eu superei meu transtorno alimentar, mas confesso que ainda é um pouco de trigger quando acontecem coisas como (episódio real da semana passada) ouvir que a filha da minha vizinha - que sempre foi... tão magra quanto pouco exemplar - está trabalhando como modelo no Japão, quando eu estou tão desempregada que não tenho nem como viajar pra São Paulo pra pleitear uma bolsa MEXT.

Vida que segue.

Ok, a conclusão desse post não vai ser essa nota deprimente. A conclusão vai ser a seguinte: se você não se importa com uma história com uma nudez aqui ou acolá, mas tem curiosidade em entender mais sobre transtornos alimentares, o que leva tantas garotas a pensarem dessa forma distorcida, ou simplesmente em ler um josei curto porém surpreendente, eu recomendo demais esse mangá. Se quiser saber mais antes de ler, recomendo ainda os posts do Shoujo Café e do Ao Quadrado (em português) e do Slightly Biased Manga (em inglês) que tem um pouco mais de spoilers. O mangá foi traduzido em inglês pelo grupo JShoujo Scans, e você pode lê-lo online.

Por fim, outra nota: eu nem conheço a Moyoco Anno direito, mas já a amo e pretendo ler mais mangás dela. Inclusive estou pegando agora uns volumes de Sugar Sugar Rune que eu tinha aqui pra ler. Só me arrependo de não ter dado uma chance antes!



Espero que tenham gostado desse post super longo e empolgado para compensar minha ausência por eras. Estou preparando mais um post pra semana, e prometo que vou tentar não sumir de novo tão cedo, apesar de continuar um pouco atarefada! (´・ω・`) Ah, eu também estou com um editor de vídeo agora, e tenho vários videos para editar então por favor confiram o canal do Not Loli também! (Se eu não estiver postando aqui por preguiça de escrever vou estar postando lá, provavelmente...) Então, até mais!~

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