terça-feira, 5 de abril de 2016

Anime: Musaigen no Phantom World - Alterações neurológicas que permitiram o aperfeiçoamento da dança da cordinha.


Venho aqui hoje para trazer uma resenha de um anime que foi uma das séries que eu mais curti nessa temporada, como já era de se esperar. O seu nome é Musaigen no Phantom World, ou, em tradução livre, "Mundo dos Fantasmas da Miríade de Cores". Sendo a série animada pelo estúdio Kyoto Animation da temporada que passou, é claro que eu, como fã incondicional do estúdio (caso alguém ainda não tenha notado pelo header de Tamako Market [resenha] deste blog...) tinha que assistir, e não me arrependi. Foi divertido, foi interessante...

Apesar de achar que a série tinha muito potencial, mas preferiu ficar na superfície; ser um Kyoukai no Kanata [resenha] ao invés de um Haruhi Suzumiya, para falar de outras obras da combinação Kadokawa Shoten-KyoAni. Então, vamos falar dessa série?

A premissa da série, muito intrigante, é a seguinte: em um futuro próximo ao nosso, um acidente químico gerou mudanças no sistema nervoso das pessoas, que fizeram com que elas passassem a ver criaturas chamadas "phantoms", fantasmas. Pela definição, estas são "criaturas místicas que ficam no limbo entre fantasia e realidade", cuja origem é a princípio desconhecida, e que podem ou não ser danosos para as pessoas. De fato, muitos phantoms são inofensivos, mas há alguns que ameaçam a humanidade.

O fato é que, depois que esses eventos acontecem, algumas crianças nascidas depois desse surto passam a ter poderes especiais que as permitem não apenas ver, como também lutar contra e selar estes fantasmas. Essas crianças, nessa nova sociedade, passam a estudar em escolas especiais (e não fica muito claro se são várias escolas ou se tem só essa, se bem me lembro?) como o colégio Hosea que é o colégio em que nosso protagonista, Haruhiko Ichijou, estuda. Ichijou é um jovem que está no primeiro ano do colegial, e participa do "clube de caça aos phantoms" no seu colégio. Super... básico, né, um clube em que pessoas caçam criaturas místicas. Nesse sentido, isso é bem clichê de anime, mas prossigamos antes de criticar. A parte interessante de tudo isso é que fica explícito que não é que os phantoms nunca existiram, mas que a sensibilidade humana nunca foi capaz de detectá-los. E é graças a uma alteração química que todo mundo passa a ver os phantoms, e se preocupar com eles e coisa e tal, e então mudanças sociais acontecem. Existe algo de muito contemporâneo nessa linguagem que fala de funcionamento neural como a base da percepção, e eu devo dizer também que gosto dessa premissa de "alteração química catastrófica" porque pessoalmente me remete a eventos como bombardeamento atômico - algo que é sempre bom lembrar para que não se repita. Se foi intencional, não faço ideia, mas a mensagem foi dada.

Enfim, toda essa premissa é apresentada nos primeiros três minutos da série, ou algo assim, que só por aí você já vê que promete: gente, são três minutos de exposição de toda essa história, feita pelo próprio Ichijou, em uma animação linda, cheia de cores que te faz ter certeza de que o "miríade de cores" do título não é por acaso. É "original"? Vou falar que já vi coisas parecidas em outras séries, como por exemplo Noragamique resenhei aqui. No entanto, nenhuma com tamanha complexidade, nenhuma que tentasse misturar ficção científica com eventos e acontecimentos cotidianos de um tempo e um universo muito próximos da gente. Nesse sentido,

E aí quando a coisa começa, ela é igualmente linda. Animação linda, check. Personagens fofos, check - eu sou especialmente apaixonada pela LalaLulu Ruru! E...

...Dança da cordinha? Peraí.

É, parece que, afinal, Musaigen no Phantom World não é tão incrível, original e metafórico quanto a sua premissa promete. Mas tudo bem, é um dos primeiros episódios! Quem lembra como Haruhi Suzumiya começou? Fanservice louco e muita zoeira, mas nada disso tirou o mérito da sua história. Por mais que a premissa seja estranha - "garota que na verdade é uma deusa mas não sabe cria um clube de pesquisa de aliens, espers e viajantes do tempo, sem saber que tem vários à sua volta" - a ficção científica da série é muito boa, e a série consegue ter uma história que caminha para a frente e faz refletir, tudo enquanto tem fanservice e coisas nonsense acontecendo, sim.

É isso que eu esperava de Musaigen no Phantom World: que a história caminhasse para a frente com o conceito original que ela apresenta nos seus três primeiros minutos. Não é isso que acontece, no entanto, infelizmente para mim e para muitos. O que acontece é que a história é deixada um pouco de lado em prol de uma ação à la Noragami, mesmo, e outras séries de ação com premissa semelhantes. O que acontece, também, é que a premissa perde sua importância em meio ao fanservice agressivo (sério, tinha necessidade de bunda de macaco?) e o dramalhão dos últimos episódios. Não vou negar que alguns episódios tiveram dramas interessantes - me lembro do 10, do drama da infância do Ichijou que introduz a conclusão apressada da série, em particular - mas o fato é que toda aquela premissa incrível que estava na divulgação da série e nos seus primeiros minutos ficou só como pano de fundo.






Isso é ruim? Não necessariamente. Existe algo de interessante em uma história com um pano de fundo incrível, mas que opta por não desenvolver esses temas e sim outros, deixando ali só a isca para os fanfiqueiros de plantão. Consigo pensar em várias assim que eu adoro, aliás, como Glasslip [resenha] ou Hatenkou Yuugi [resenha no Peku x Peku]. Meu problema pessoal é:  por que raios você faria uma coisa que tem tudo para ser "algo reflexivo e que faz pensar" e culminaria em fanservice louco e dança da cordinha? Sinceramente, o episódio do fanservice dos gatinhos, por exemplo, teve seu lado bonitinho, mas foi completamente irrelevante e pareceu um filler numa adaptação de novel em 12 episódios que certamente não precisaria de fillers. Mas quando eles pintam a bunda de uma personagem de vermelho para parecer uma macaca no cio, eu só... parei de tentar entender o que está acontecendo.

A moral é que a história se degenerou. Isso é culpa das novels ou da adaptação, que deu ênfase demais a esses momentos bobos? Eu não sei. Algo me diz que bunda de macaco é algo que soa mais engraçado escrito do que animado, mas se as novels também são assim, eu me pergunto por que uma introdução incrível para culminar em eventos de bunda de macaco.

Porque eu não estou conformada. De verdade.

Fora isso, o que dizer da série? A animação é o esperado da Kyoto Animation, só que mega colorida, ou seja: é linda. As músicas, sob a direção de Yoka Tsuruoka, cumprem muito bem o seu papel para a série que é. Que é uma série de harém, basicamente. São músicas agitadas e divertidas, que combinam muito bem com a premissa da série de alegria colorida e fanservice. Isso significa que tudo está certo, porém deixa a desejar no aspecto de originalidade e inventividade que a premissa parecia se comprometer a tentar.




Mas foi divertido. Eu não posso negar que gostei de alguns episódios, e algumas personagens fofas, como a Ruru e a Kurumi. Eu maratonei os episódios, e não foi nenhum esforço para mim. A bem da verdade, foi até divertido, porque a animação é linda e a aparente naturalidade e humanidade dos personagens, como de praxe nas séries do estúdio - provavelmente porque eles tem dinheiro para animar várias expressões faciais e tal... - é muito divertida. E depois de ver vários episódios, eu senti que não me acrescentou em nada. Nem por bem, nem por mal. Então tudo bem, passa como um sci-fi (com um nada de sci-fi) divertidinho. Não sei se dá para falar em "ritmo", porque a série é bem episódica e tem alguns fillers, mas fato é que o final foi bastante apressado; os três últimos episódios giram em torno da infância e da família do Ichijou, que até então não tinham sequer sido mencionados na história, e então colocaram um drama com pretensão de encerramento.

Minha conclusão final sobre Musaigen no Phantom World é um pouco essa: é irrelevante. Os personagens são divertidos, a animação é linda, o fanservice é estúpido demais para estar na mesma história que a premissa criativa, e esse último fato meio que cria em mim um bloqueio que me impede de avaliar positivamente a experiência. Foi divertidinho, foi bonitinho, teve alguns momentos sentimentais ótimos... mas foi muito menos do que muitos de nós esperávamos? Foi, também. A ficção científica ficou para as fanfics, porque a boa aqui foi a dança da cordinha.

Em nota, essa é minha opinião de quem esperava demais, possivelmente; outros blogueiros, como o parceiro Carlílio do Netoin!, que acompanhou e escreveu posts semanais sobre essa série, discordariam da minha opinião. Fica aí a recomendação de leitura para quem já leu meu post, e quer uma outra opinião sobre essa série!~

4 comentários:

  1. Olá =)

    Gostei da estrutura dessa análise. No início eu achei que você fosse dizer que adorou, e aí eu fiquei mais curioso para continuar lendo! Posso dizer que concordo com sua conclusão final. Alguns destaques abaixo, porque isso não seria um comentário meu se não fosse gigante, né? =D

    >> Existe algo de muito contemporâneo nessa linguagem que fala de funcionamento neural como a base da percepção

    Eu entendi que o anime não foi conclusivo nesse ponto. Por um lado ele insinuava que os phantoms sempre existiram, por outro que passaram a existir depois, criados pelos seres humanos. A questão sobre o que existe e o que percebemos que existe é bem antiga, provavelmente uma das mais antigas do pensamento ocidental? E acredito que pensadores orientais também se preocupem com o que é e o que não é real, só não conheço nada então não sei se eles pensam também na relação entre percepção e existência. Há sim a questão contemporânea da percepção não corresponder de fato ao real (e já li coisas muito divertidas a respeito, como vivermos eternamente no passado por exemplo), e talvez as incertezas do anime sobre a natureza dos phantoms, considerando que os seres humanos só passaram a vê-los depois de uma alteração neurológica, tenha a ver exatamente com isso. Mas também chegaram a citar o Gato de Schrodinger, que absolutamente não tem nada a ver com isso. Então acho que é só uma salada de conceitos mesmo e cada um se agarra ao que acha mais interessante, e faz sentido portanto que você tenha apontado esse aspecto. Bom, no final, esse papo tem a ver com percepção também, não é? =D

    >> Algo me diz que bunda de macaco é algo que soa mais engraçado escrito do que animado

    Agora que você falou, realmente! Comecei a rir só de ler isso, HAHAHAHA! Mas sério, aquele episódio foi ruim em vários níveis, e não só nesse. Pintou a bunda da Mai, pra ela se disfarçar de macaca, que horror, ok. Mas quando chega a ver do Haruhiko não precisa pintar a bunda, tem uma fantasia completa? Ou seja, não só foi fanservice, como o mesmo episódio, minutos depois, confessa abertamente sem vergonha nenhuma (estava contando outra piada afinal) que havia mesmo sido apenas um fanservice horroroso? O episódio não fez sentido, foi horrível, e até o fanservice dele foi de um dos piores tipos possíveis. E quem produziu o anime sabia de tudo isso, e fez mesmo assim. Isso é o que revolta mais.

    >> Que é uma série de harém, basicamente.

    Nota: com uma menininha do primário. Está cada vez mais comum haréns que contemplam também os desejos mais pedófilos da audiência. Pelo menos que eu me lembre não teve fanservice dela.

    >> É isso que eu esperava de Musaigen no Phantom World: que a história caminhasse para a frente com o conceito original que ela apresenta nos seus três primeiros minutos.

    Sinceramente, para uma história curta e que não apresentava conflito nenhum no primeiro episódio (apresentou apenas um mundo diferente) eu não esperava nenhuma grande história. Bom, coloque a KyoAni como um dos fatores para eu não esperar muito também. Você citou Kyoukai no Kanata, mas esse é outro anime que demora a engrenar a história - e eu achei seu final apressado, hehe. Antes disso são sim vários arcos episódicos, nada muito conectado. A diferença é que havia um conflito mais ou menos desde o início e ele foi retomado no fim. Por outro lado, acho o mundo de Myriad Colors muito mais interessante e com muito mais potencial, mas realmente não aproveitaram. Quem conhece as novels diz que é bem melhor, e que realmente desenvolvem isso. Sobre o final especificamente, eu gostei e não achei corrido. O anime todo até então havia sido episódico, nada mais natural que o seu encerramento também fosse episódico. Com uma ameaça maior do que todas até então, mas episódico ainda assim.

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    1. Olá, Fábio! Primeiramente, muito obrigada pela visita e pelo comentário! Sei que estou te devendo alguns posts de Rakugo Shinjuu, peço desculpas mas estou providenciando isso.

      Então, esse é um ponto sobre o qual eu também tinha ficado confusa no começo, mas depois de ler algumas análises pela Internet, o que eu entendi foi que os phantoms de fato sempre existiram; não que eles tinham sido "criados" propriamente pelos seres humanos, mas sim que os seres humanos passaram a denominá-los assim que passaram a percebê-los. Tem uma discussão epistemológica profunda aí sim, e que é universal sim. E sim, o Gato de Schrodinger foi só um treco pseudo-intelectual mesmo. Como depois vemos que toda a premissa é, porque nunca tem a intenção de ser intelectual e sim de ser, como diria o TV Tropes, Psychobabble. :P Mas a moral da história é que a premissa tinha potencial, né?

      Não é? Se eu estivesse lendo uma light novel e do nada começassem a falar sobre bundas de macaco, e filosofar sobre o acasalamento dos macacos e como uma humana poderia atraí-los, eu poderia achar engraçadinha a divagação! Mas sim, animado ficou um negócio bem... escroto. (E posso dizer que eu achei ofensivo quando o macaco rejeita a best girl? PAREI.)

      Sim. Ela é uma gracinha, realmente, e não teve fanservice com ela. Eu acho que tem várias séries que tem a "imouto character", mas não necessariamente tem pedofilia explícita. Clannad, por exemplo, também tem uma imouto - literalmente - character que é a Mei, mas na época ainda teve um encontro da Mei com o Tomoya. Era um encontro de brincadeirinha, mas ele fica excitado. Acho que até as mídias japonesas andam gradativamente menos liberais com essas coisas de pedofilia na ficção.

      Ah, eu realmente esperava que poderia ser um sci-fi descontraído, mas com conceitos interessantes, tipo Haruhi. Nem que não fosse "profundo", coisas a título de curiosidade mesmo. Ok, bunda de macaco foi uma curiosidade, mas não desse tipo. E Kyoukai no Kanata também teve falhas na minha opinião, mas os filmes foram ótimos e pessoalmente é uma série que eu gosto. Gosto pessoal mesmo. O fato de ter um pouco mais de "eixo" que Musaigen ao invés de ser episódico, por exemplo, me agrada.

      Enfim, muito obrigada mesmo pela visita e pelo comentário, Fábio! Agradeço mesmo e fico feliz que tenha gostado do post. Até mais!~

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  2. Saudações


    Nobre Chell, embora eu ache que sua resenha final do anime tenha ficado muito boa, acredito que tu deu um foco muito negativo além da conta, para certos pontos que também julguei desnecessários no anime (mas não no mesmo nível que tu).

    O melhor exemplo disto foi a [bunda de macaco] que, embora tenha sido fanservice puro, teve a sua razão de ser (que, de maneira intrigante, acabou fazendo jus ao momento da obra em si). Até porque, na relação entre tais criaturas (macacos), as nádegas das fêmeas são o ponto de atração máximo delas para os machos da espécie, e o anime "apenas" deu um apelo mais direcionado ao fandom compulsivo nisto. No mais, devo concordar contigo quanto às críticas no quesito fanservice.

    Irrelevante? Discordo. O anime foi mediano ao meu ver, e possivelmente será esquecido com rapidez (igual ocorre à Tamako Market, MUNTO, Kyoukai no Kanata, dentre outras obras animadas pela Kyoto Animation). A oscilação entre bons e maus momentos foi bem severa na obra, isso ainda levando em consideração o fato de muitas pessoas terem droppado no primeiro episódio (graças à Mai e o foco da mesma sobre como chamar pelo seu poder).

    Mas, como citei no início, foi um post digno de atenção. Os pontos positivos são estes mesmos que tu citou.

    No mais, ainda no aguardo de sua visita no post final lá no N! (tu disse que o faria). E eu pensei que haveria citações aqui... Bom, fica para a próxima...


    Até mais!

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    1. Olá, Carlílio!

      Sim, sei disso. É que eu fiquei, pessoalmente, decepcionada com a série por ter ficado muito aquém do que a sua premissa incrível possibilitava. Isso também, claro, levando em conta que é uma produção do KyoAni, estúdio riquíssimo em qualidade técnica. Achei decepcionante.

      A bunda de macaco tinha aquela curiosidade, eu sei. :P Realmente, como disse, devia ser mais engraçado escrito e tinha sua graça no anime pela curiosidade. Mas outras coisas, como a dança da cordinha que eu menciono no título do tópico, realmente foram desnecessárias; aquele tipo de fanservice que a gente vê no mais chulo dos haréns.

      Bem, tratando-se de obras, me sinto livre para usar o termo "irrelevante" para o que é mediano. Afinal, o que é bom acaba sendo lembrado por ser bom, e o que é ruim por ser ruim. Claro que para quem gostou da obra é relevante; eu, por exemplo, adoro Tamako Market, não é header do meu blog por acaso! Kyoukai no Kanata é outra série que adoro, como você deve saber também. Mas acredito que, para o público geral, Tamako Market seja uma série "irrelevante", assim como Musaigen no Phantom World promete ser, ou por que não falar de Amagi Brilliant Park, que também resenhei aqui e fiz comentários mais positivos, mas, bem, não espero que a crítica fale bem, nem espero ver um cosplay ao vivo, por exemplo. O fato é que, à exceção de Free! e Chu2Koi, nenhuma série recente do Kyoto Animation realmente "estourou". As esperanças eram altas para Musaigen, por conta da direção, temas e etc, mas decepcionou a mim e outros fãs do estúdio, acredito. Mas tudo isso são opiniões minhas. De opiniões e debates se faz a blogosfera e a crítica. :)

      Ah! Peço desculpas, eu já escrevi os comentários umas duas vezes, mas ou não terminei, ou esqueci de enviar as duas vezes. Vou lá sim! E pode deixar que vou editar aqui, tenho escrito as resenhas na pressa por conta do meu atraso com a Primavera, então mal tenho linkado qualquer coisa ou pessoa. Pode puxar minha orelha que eu edito, rsrs.

      Até mais, Carlílio! Muito obrigada pela visita e pelo comentário, mais uma vez!

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