domingo, 14 de fevereiro de 2016

Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu 5 - Os inúmeros disfarces da raposa e do texugo.


Olá, pessoal! Como vão?

Segue aqui mais um post (com uma semana de atraso, peço desculpas e explico no post os motivos... orz) com comentários sobre o anime que é certamente um favorito da temporada, e quiçá venha a ser do ano. A cada episódio dessa série, eu só fico mais envolvida e com mais questões na cabeça. As questões envolvem muitos aspectos da história e da vida dos personagens que ainda não são conhecidos, principalmente no que diz respeito ao "suicídio duplo", como acreditamos, de Sukeroku e Miyokichi.

Esse episódio tratou da vida adulta de Sukeroku e Kikuhiko mais uma vez, e das relações afetivas deles, mas para além disso, mostrou ambos realizando uma atividade artística diferente da que fazem usualmente - ao invés de rakugo, eles apresentaram uma peça de teatro, e (talvez para infelicidade de Kikuhiko) o resultado foi melhor do que o esperado.

O episódio começa com um Sukeroku bêbado caminhando até o seu dormitório com duas mulheres nos braços, enquanto Kikuhiko ensaia para uma apresentação... ou tenta ensaiar. Quando Sukeroku bate escandalosamente na porta pedindo para entrar para "terem uma festinha particular", ele não perdoa: Kikuhiko abre a porta apenas para batê-la na cara dos três, dizendo que vai fazer uma placa cobrando "500 ienes das mulheres e o triplo dos homens". Em outras palavras, que não ia deixar Sukeroku entrar, e as prostitutas menos ainda. E bate a porta. O pior da situação é que as mulheres, muito furiosas, dizem que esse não foi o acordo, e reclamam por não serem pagas; aparentemente Sukeroku não podia sequer pagar por elas, e contava com o pagamento de Kikuhiko...

Com essa situação constrangedora, mas que nos remete à infindável discussão sobre a sexualidade (ou falta de) de Kikuhiko, começa o quinto episódio. As mulheres vão embora eventualmente, e mais tarde, quando os dois já estão sozinhos no quarto, Sukeroku se queixa, muito emburrado, para Kikuhiko sobre ele não ter permitido-o entrar com as mulheres. E Kikuhiko justifica que não gosta de "mulheres assim", e pede para que ele nunca mais as leve lá. Essa situação provavelmente é recorrente entre os dois, mas penso que seja interessante notar também o fato de Kikuhiko afirmar tão veementemente que "não gosta de mulheres assim". Ele diz sobre o hábito de Sukeroku: "você chama de referência artística, mas indo assim, isso vai te matar". Eu vou voltar a essa questão depois, mas por enquanto, tentem ficar com essa pulga atrás da orelha.

Enfim, eles discutem por isso; Sukeroku chama Kikuhiko de pão-duro, e Kikuhiko diz que ele é um caso perdido; afinal, se um é pão-duro, o outro gasta tudo o que tem e o que não tem com mulheres. Nesse momento, porém, Sukeroku se defende e conta que conseguiu fazer um contato com um dono de um grande teatro para organizar um grande espetáculo do qual convida Kikuhiko para participar também. Ele diz que muitas pessoas já compraram entradas, e que consegue atrair bastante público sozinho, do que Kikuhiko a princípio duvida. Ele diz que está ficando popular, e volta a alfinetar o amigo, dizendo que "não dá pra ser famoso no rakugo sem visitar os distritos dos bordéis", e insistindo para que eles visitem juntos um dia, já que Kikuhiko havia prometido-o. Bem, a resposta de Kikuhiko, tão desinteressado quanto sempre esteve, só avisa para Sukeroku que ele que não vá chorar no seu ombro quando tiver problemas por esse seu comportamento.

Eu acho interessante dar a minha opinião desde já - que em determinados momentos, como esse, em que Sukeroku tenta convencer Kikuhiko de que ele devia ir com ele aos bordéis, ou mesmo quando o mestre leva Kikuhiko para conhecer Miyokichi, há da parte das figuras - sobretudo masculinas - que rodeiam Kikuhiko um interesse em aproximá-lo de mulheres, também. Porque a realidade é que eles estão no Japão do período Showa, inseridos em uma cultura machista, sendo artistas de rakugo - pois pelo que Sukeroku dá a entender, é comum que os artistas se envolvam com prostitutas e afins - e é bizarro que um rapaz aparentemente até charmoso, como Kikuhiko, seja solteiro e não procure mulheres para se envolver. Sukeroku sobretudo parece viver questionando-o sobre sua vida amorosa; ele pergunta, logo depois, como estão as coisas com a Miyokichi, se ele prefere "qualidade ao invés de quantidade" - e não deixa de pedir pra "prová-la" algum dia, pelo que Kikuhiko o repreende. (Nesse momento, mando um beijo pro rapaz mais feminista do Rakugo do período Shouwa Genroku.)

Bem, depois retorno a esse ponto. O fato é que eles continuam discutindo, em uma troca de insultos hilária, até que Kikuhiko interrompe Sukeroku gritando seu nome e pedindo para que ele interprete uma mulher, Osome, do rakugo do pacto de suicídio entre amantes. Qualquer semelhança com o título do anime pode ou não ser mera coincidência. Essa é a primeira vez que temos esse rakugo mencionado na série, enão dá para entender ainda muito da história, mas basicamente, Osome pede para que um homem, Kenzo, vá até ela - presumidamente para o suicídio duplo, mas Kinzo fica orgulhoso e feliz pois Osome há de ter se apaixonado por ele. Kinzo então junta dinheiro para comprar um passaporte e ir encontrá-la, e ela lhe diz: tem esse pequeno favor que quero pedir a você... E ele diz, claro, faria qualquer coisa por você! É isso que sabemos por enquanto sobre o rakugo do título da história, que promete nos trazer ainda alguma tristeza, além do fato de que tanto Kikuhiko quanto Sukeroku conhecem esse rakugo e possivelmente já o tem decorado.

Nesse momento, Kikuhiko, que estava ouvindo atentamente a Sukeroku, puxa a sua bochecha com força e dá-lhe uma bronca, dizendo que por andar demais com mulheres erradas, "soa idiota" ao interpretar mulheres no seu rakugo; Sukeroku, no entanto, acha "fofo" a interpretação infantilizada da mulher, e não vê problema. No entanto, Kikuhiko não acha belo. Uma coisa interessante de notar aqui, levando em consideração o período histórico e tudo mais, é que nessa época provavelmente já havia iniciado, no Japão, o processo de transição do padrão de beleza feminino de uma mulher "bela", o padrão tradicional japonês de elegância, para a mulher "fofa", o padrão "kawaii" que temos hoje e já comentei sobre isso tudo aqui no blog. O fato é que essas mudanças ocorreram por conta de mudanças na própria economia e na cultura do Japão pós-guerra, e Sukeroku e Kikuhiko estão vivendo esse processo; Kikuhiko, mais sério e tradicional, não se conforma com Sukeroku e seus "maus hábitos". Ele acredita que o rakugo de Sukeroku poderia alcançar grandes alturas se ele tivesse as influências corretas, mas Sukeroku defende que "você não dura nesse mundo se não for um pouco estúpido". Ao mesmo tempo, como já havia dito sobre a prostituição, o episódio suscitou em mim reflexões sobre como talvez a profissão tenha, de alguma forma, ajudado a moldar este novo ideal de beleza.

Enfim, Kikuhiko finalmente se queixa para Sukeroku que ele tem tudo, apesar de brincar o tempo todo, e diz: "Deus não é justo". Acho que esse foi o primeiro momento em que vemos Kikuhiko, depois de adulto feito, se queixando com toda sinceridade para Sukeroku sobre o fato de ser, desde sempre, inferior no rakugo. E Sukeroku ao ver o estado do amigo pergunta então: "qual é o problema? Você parece mais bravo que o normal hoje", e diz que Kikuhiko pode descontar nele. E Kikuhiko desconta mesmo... jogando carvões em Sukeroku. A cena é engraçadinha, mas isso deve realmente ter doído. O Sukeroku, no entanto, realmente permite que Kikuhiko faça isso e só se queixa.

Depois disso, vemos Kikuhiko andando na chuva, sob um guarda-chuva, presumidamente indo até a casa das geishas pegar algumas coisas emprestadas, que até então não sabemos o que é... Miyokichi vai correndo atrás dele na chuva, feliz em encontrá-lo, e dizendo que o procurou no teatro mas não o encontrou. Miyokichi diz que vai se apresentar em Fukugawa a noite, e então pede para Kikuhiko levá-la até em casa, mas ele recusa; quando ele diz que vai se apresentar no teatro, no entanto, ela diz que "ele não vai escapar de contar mais", e o leva até um quarto na casa das geishas.

Na cena seguinte, vemos ambos se beijando, e toda essa cena é muito interessante pra análise do Kikuhiko, de sua sexualidade-ou-falta-de, mas também de outros fatores. Miyokichi comenta que "ele está ficando muito melhor". Será que ele nunca tinha beijado antes? Fica essa questão no ar. Se sim, é bem possível que ele só tenha beijado sua única namorada... e talvez seja ainda mais possível que não. Ele faz cara de tristeza depois do beijo, e diz que sua perna dói por causa da chuva. Ele pede então que ela o massageie, e ela questiona então sobre a bengala que ele sempre leva pra lá e pra cá. Ele diz que, como é um machucado antigo, ele não sente tantas dores na perna, mas carrega a muleta como "amuleto de boa sorte"... isso também é interessante. A muleta é algo que, mesmo vendo várias vezes o episódio, eu nunca prestei muita atenção, acreditando que ele precisava do apoio eventual. Ele mesmo, no entanto, reconhece que não. Ele nunca trocou a muleta, mas amuleto de boa sorte pelo que exatamente? Será que ele realmente quer lembrar aqueles tempos? É algo que eu gostaria de prestar atenção quando for assistir novamente o anime. Se vocês tiverem alguma ideia, por favor deixem aí nos comentários! ♡

Bem, ela aceita e faz a tal massagem. A música que toca de fundo nesse momento é uma melodia romântica e melosa, muito linda. Ela o massageia calmamente, e então ele deita no seu ombro. Ele começa a desabafar sobre como não gosta da ideia de fazer uma peça, dizendo que ele não tem charme - uma mentira óbvia, considerando que ele sabe o quanto é popular com as mulheres do restaurante... - e ela ouve tudo e refuta suas opiniões, acolhendo-o como uma mãe. Quanto a esse momento, eu gostaria de notar que acho interessante como ele e o Sukeroku, que cresceram sem mãe, "adotam" figuras maternas na vida adulta; o Kikuhiko passa a contar com a proteção de Miyokichi, e Sukeroku conta com Kikuhiko, que como já comentado no episódio 4, faz muitas vezes um papel de mãe.

Continuando a conversa, ela diz que ele passa uma imagem linda quando fala, mas ele diz então que coisas como beleza não importam no rakugo, se referindo ao discurso anterior de Sukeroku que claramente o afetou muito. Ele insiste que não tem charme, e ela insiste que poderia olhá-lo para sempre... e ele diz que ela está só o gabando, e que uma mulher não entenderia, obviamente recusando todas as investidas de Miyokichi. Ela pergunta finalmente o que ele interpretará amanhã, e ele diz então que fará papel de mulher. Miyokichi diz que mal pode esperar, e que gostaria de fazer sua maquiagem, pois sabe fazer maquiagem de geisha, uma vez que é uma performance barata e eles não conseguiram um maquiador.

Nesse momento, chega a chefe das geishas no quarto, avisando que Miyokichi está atrasada para a apresentação que elas farão, e queixando-se por ela ainda não ser trocado. Miyokichi, muito habilidosa, explica então a situação, e a chefe logo o identifica como o aprendiz do mestre de rakugo, dizendo para não contar ao mestre nem à sua esposa que ele está lá. Fica claro então que Miyokichi e Kikuhiko estão tendo esses encontros às escondidas, por livre e espontânea vontade deles, e não mais pela demanda do chefe. Miyokichi parece ter realmente se apaixonado por Kikuhiko, mas quando a chefe questiona por que ela estaria mantendo um relacionamento secreto, e se isso não poderia lhe trazer problemas, Miyokichi a chama para um canto e diz: "ele não é 'assim'...". Com essas palavras. Ela não diz mais que isso, mas nesse momento, não fica claro o porquê, vemos Kikuhiko falando sozinho: "eu não devia ter dito a ela". Presumi que ele estivesse falando sobre Miyokichi fazer sua maquiagem, mas e se ele estivesse se referindo à falta de relação entre eles?... A verdade é que eu não vi muita gente comentando esse momento, mas é como se Kikuhiko tivesse dito algo que nem a chefe nem nenhuma outra pessoa que não fosse tão íntima quanto Miyokichi devia saber. E isso me deixou confusa, confesso. Não vou afirmar nada aqui, mas fica a reflexão.

Bem, depois disso, vemos Sukeroku preparando o espetáculo. Sukeroku pergunta como está indo para o dono do teatro, que está distribuindo flyers, e ele responde que está indo bem e que deve ter muito público. Sukeroku está muito empolgado, e vemos então mais algumas das pessoas que irão se apresentar: Bunta, um jovem garoto que está chorando porque todo mundo ri do seu cabelo levantado, e Matsuda, que está ajudando-os. Acredito que esses personagens não vão voltar, e acho que esses foram os personagens mais aleatórios que o anime apresentou, de verdade, porque não fica claro se eles vão ter alguma relevância pra história ou voltar depois. Enfim, ficamos sabendo então por Sukeroku que eles não tinham muito dinheiro, mas tiveram ajuda do gerente do teatro e dos amigos para fazerem este grande espetáculo.

E finalmente o espetáculo está prestes a começar. Sukeroku está empolgado com o grande volume de espectadores que vê pela fresta, e então ele sai andando pelos bastidores e encontra guardas na porta do camarim. Ele vai espiar, e ouve a voz de Miyokichi falando algo como "tem que ser perfeito"... enquanto está maquiando Kikuhiko como uma mulher. Sukeroku entra na sala e começa a rir observando a cena. Ele chega em Kikuhiko e diz, empolgado, que o público vai amar, e que convidou suas fãs do Ginza para ver. Sukeroku apenas ri, enquanto Kikuhiko se mostra constrangido. Sobre essa cena, é interessante notar que desde o princípio Sukeroku disse que o público iria adorar ver Kikuhiko assim - vestido de mulher, interpretando uma personagem sedutora... ele quem disse que Kikuhiko provavelmente se daria bem no rakugo erótico. E advinha no que deu? Isso mesmo: Kikuhiko se dando bem no rakugo erótico.

E então a peça é iniciada. Nos bastidores, Kikuhiko aguarda visivelmente tenso, abrindo e fechando o leque, e Sukeroku nota o óbvio. Kikuhiko justifica que é porque nunca atuou, ou porque a roupa é pesada, ou porque é difícil de respirar... na real, ele parece muito mais estar constrangido com essa situação toda, mas a ansiedade é muito real, a ponto de ele pensar em fugir. No entanto, Sukeroku tenta acalmá-lo e encorajá-lo, colocando as mãos no seu ombro e dizendo que ele é o protagonista e que está perfeito assim. Ele, então, dá a seguinte sugestão pro amigo: que assim que subir no palco passe os olhos por toda a platéia, pois "assim, eles vão ficar na palma da sua mão".

Nessa cena toda, eu pensei em duas coisas. Uma, que é óbvio que Kikuhiko tem muita vergonha da sua situação. Ele provavelmente não está gostando de se vestir de mulher, ainda que seja um artista, é uma situação inusitada - de atuar em uma peça de teatro, travestido - e ele não quer fazer um papel de uma mulher sedutora. No entanto, Sukeroku não só se mostra completamente incompreensivo como reafirma que Kikuhiko fica bem assim, e diz a ele: "mostre essa sua cara de raposa! O público vai ficar vidrado a cada movimento seu." Ah, sim. Dessa troca toda, o que eu achei mais bonitinho foi que o Sukeroku continuou se referindo ao Kikuhiko como uma raposa, kitsune, enquanto o Kikuhiko se refere ao amigo como tanuki ao longo do episódio. Vamos falar de folclore japonês? Raposas, no Japão, são vistas como animais místicos, inteligentes, mas também traiçoeiros e capazes de se transformarem em homens ou mulheres bonitos - algumas séries de anime como Gugure! Kokkuri-san [comentários] ilustram bem isso.

E o que dizer do fato de que o Sukeroku considera o Kikuhiko uma raposa? Bem, em resposta, o Kikuhiko chama Sukeroku de tanuki, ou texugo - na lenda japonesa, o texugo é um animal que realmente descreve muito bem Sukeroku: fanfarrão, caloteiro, mulherengo. Ambos são mestres em se transformarem, e também traiçoeiros, e possuem ainda outras características em comum. Porém, o Tanuki é hedonista e viril, devedor e bom alcoólatra. As histórias de Kitsune costumam ser mais sérias e o Kitsune costuma se dar bem, enquanto o Tanuki costuma ser brincalhão demais e se dar mal por isso. Você pode ler aqui um artigo do Chuva de Nanquim sobre os Tanukis, e aqui outro sobre os Kitsunes.
Além de isso descrevê-los muito bem, é interessante como a) Sukeroku basicamente admite que Kikuhiko dá uma bela mulher nesse episódio, e b) Kikuhiko vem de bate-pronto com "tanuki", uma descrição muito precisa, como se eles já se chamassem assim naturalmente, ou ao menos enquanto ensaiavam para a peça. Penso isso pois o que Kikuhiko cochicha ao entrarem no palco? "Não precisa falar da raposa", para que o apelido não pegasse...

Transcorre então a peça. Quando Kikuhiko olha de rabo de olho e vê a plateia toda olhando, ele fica surpreso porque ele está mesmo sendo olhado, e olhado com admiração, como nunca acontece enquanto apresenta seu rakugo. E ele fica surpreso. Na peça, eles são um falso casal que vai fazer compras de casamento, na verdade, roubar uma loja. Eles vão até a loja, a mulher então rouba alguns tecidos, mas o dono da loja a descobre - e descobre que na realidade ela não é uma mulher. O personagem de Sukeroku diz que as acusações de que eles estariam roubando são absurdas, e os engana com um pano falso, mas em um dado momento um personagem faz a revelação de que o personagem de Kikuhiko não era mulher, e eles estavam sim roubando.

Enquanto Kikuhiko atua, até Sukeroku olha de rabo de olho para a sua atuação. E então Kikuhiko diz: "não aguento mais". Sukeroku pede que aguente, mas ele diz: "Já sabem que sou homem, não tem por que eu me segurar". Nesse momento, Kikuhiko tira a faixa e abre o kimono de uma maneira espetacular e incrível e sentando-se em uma posição sensual. O dono da loja o acusa, então, de ser uma fraude completa, ao que ele responde: "se quiser saber... eu digo."

E assim se encerra a peça.

Nessa hora, toda a platéia aplaude muito entusiasmada, e os dois saem do palco; Sukeroku acena para todos, e Kikuhiko, sempre contido, apenas sai muito quieto. Ele finalmente consegue relaxar nos bastidores, muito ofegante e assustado, e Sukeroku o abraça e o parabeniza dizendo que foi ótimo. Ele chega a lacrimejar, e nota que não é sempre que o publico fica tão feliz. Por outro lado, Kikuhiko fica emburrado o tempo todo enquanto recebe esses elogios, mas enfim sorri com a felicidade do amigo pelo sucesso da peça.

Eles agradecem, então, ao gerente do teatro, e ele nota que Kikuhiko é ótimo nesse "tipo de coisa atrevida", o que o faz ficar cabisbaixo (se corado ou não, nunca saberemos por causa da maquiagem. ^_^;). Confesso que essa parte me pegou muito, pessoalmente, porque a primeira vez que o Kikuhiko recebeu elogios sinceros - do gerente do teatro, ninguém menos - por uma apresentação artística sua foi quando ele fez lá uma apresentação que ele nem queria, num negócio que ele nem queria fazer. Ele pede então pra que esperem, e volta com uma câmera dizendo que vai tirar uma foto. Kikuhiko não quer, e se recusa pois não quer preservar esse momento; no entanto, Sukeroku insiste que tire o lenço e tirem a foto, e então o gerente tira... bem... fotos deles brigando.

Nessa nota feliz e divertida, termina o quinto episódio de Shouwa Rakugo.

Eu vou mandar a real aqui: acho que esse episódio já basicamente cimentou que o Kikuhiko não tem interesse sexual em mulheres e sabe disso de alguma forma. Não fica claro se ele fala isso - e com que palavras - para a Miyokichi, mas fica claro que ela também acha algo assim... também parece que ele corresponde-a num nível emocional, como uma amiga íntima, mas ele não aceita ir além. Conversando esses dias com a Pachi, do Blyme Yaoi, ela tratou da sexualidade do Kikuhiko como um "elefante branco no meio da sala", e acho que a descrição dela definiu muito bem o que eu sinto, mas não em relação ao espectador do anime, e sim em relação aos próprios personagens.

Por que? Há da parte das figuras - sobretudo masculinas - que rodeiam Kikuhiko um interesse em aproximá-lo de mulheres, mesmo sabendo que ele não demostra nenhum interesse. Claro, como disse, é uma cultura machista e provavelmente há um desconforto e um compromisso em mostrar "o que é bom" entre os homens, mas o Sukeroku... eu não acho que ele é tão inocente quanto parece, também. Ele sempre fica insistindo coisas pro Kikuhiko, que insiste que seu foco é outro, é o trabalho com o rakugo e ele não tem nenhum interesse em nada erótico. E qual não é a ironia no fato de que Sukeroku, o texugo fanfarrão, disse que ele se daria bem no meio artístico erótico, e o povo realmente gostou. Mais importante, ele mesmo gostou. E ele sugere para Kikuhiko, sempre muito brincalhão, que agora "não tem volta"...

E aí temos, bem, o lado do Kikuhiko. Que insiste para Sukeroku que não é bom andar demais com prostitutas, que isso empobrece seu rakugo, que prostitutas não são belas. Que agora reconhece na Miyokichi uma bela garota pois ela é de fato elegante, mas que a princípio rejeitou-a totalmente. Que não abre a porta para prostitutas, e basicamente nunca teve nenhum contato sexual com mulheres. Que nunca teve chances como uma geisha, e provavelmente vive nessa situação de "elefante branco" desde o princípio da sua vida. O desconforto dele é claro como neve, mas nem por isso Sukeroku deixa de recomendar que Kikuhiko atue com rakugo erótico, ou deixa de colocá-lo na situação de interpretar uma mulher com toda a confiança de que ele daria conta, e o parabeniza por isso. Por isso tudo defendo que Sukeroku provavelmente também não é tão inocente, digamos, a ponto de não saber do desconforto de seu amigo. Para mim, ou ele finge não saber até que Kikuhiko se manifeste, ou ele o zomba arbitrariamente... Mas o post sobre o episódio deve sair logo, e nele eu falo mais sobre isso!



Por enquanto, é isso! Como eu me atrasei pra postar e fazer a análise, e já saiu o episódio 6, acabei deixando de comentar muita coisa aqui, mas queria agradecer demais desde já por todas as visitas e os comentários, e pedir para que deixem aí o que acharam do episódio e também do post! ^_^ Espero que não tenha ficado cansativo demais - pois eu nunca consigo me conter o bastante quando o assunto é Rakugo Shinjuu... - e que vocês tenham gostado de mais esse post desse anime maravilhoso.
Muito obrigada desde já, e até mais!~ ♡

5 comentários:

  1. Passei mal nos últimos dias e não assisti o sexto episódio ainda. Vou evitar comentar sobre coisas que possam mudar de um episódio para outro:

    - O Yakumo certamente não manteve *a mesma bengala*. Mesmo se o material suportasse, ele cresceu, é uma impossibilidade física. Mas acredito que ele mantenha *alguma* bengala como lembrança do momento importante para a vida dele que foi o acidente que o fez usá-la e entrar para o rakugo. Eu mesmo passei a vestir na calça um chaveiro depois de ser despejado, anos atrás. É o tipo de coisa idiota que pessoas fazem.

    - Me desculpe a chatice, mas "elefante branco no meio da sala"? Que salada de ditos populares D= O elefante na loja de cristais se refere a algo escondido literalmente no pior lugar possível: se o elefante respirar mais pesado, quebra tudo. De alguma forma isso evoluiu para elefante (no meio) na sala (de estar), mudando o foco para o quanto é impossível que ninguém perceba-o lá. Por fim, o elefante branco é o presente indesejado do qual não se pode livrar ou, na política brasileira (não sei se em outros países foi traduzida com esse significado), obra cara demais para pouca ou nenhuma utilidade. Só o elefante na loja de cristais (sala de estar) faz sentido, a cor do pobre paquiderme está totalmente deslocada. E eu li bem o texto e sei que não foi uma construção sua, mas não consigo evitar ser chato em situações assim. Desculpa =x

    - Wow, eu comecei a ler seu artigo sobre moda, mas assim que vi a quantidade de trabalho que você colocou na pesquisa logo soube que com o que eu sei é simplesmente impossível argumentar contra. Parabéns (bastante atrasado) pelo trabalho, de todo modo? Faço só uma pergunta então: a moda *kawaii* não surgiu essencialmente como uma moda adolescente? Nesse caso, faz sentido referenciar ela em plena década de 1970, em um meio dominado por adultos?

    - Quando o Yakumo diz que "não deveria ter contado" ele olha para os instrumentos de maquiagem da Miyokichi, que estão em primeiro plano na cena. Claramente é àquilo que ele se refere, mas agora acho que o significado secundário disso merece boas discussões também - que provavelmente são inúteis antes de assistir o sexto episódio. E bom, eu particularmente não comentei nada porque me ative ao óbvio da cena. Se leu o meu artigo sobre esse episódio, talvez se lembre que nele eu declaro-me incapaz de decidir a sexualidade do Yakomu. Após seu artigo, tenho certeza que ele pelo menos é bissexual. Continue assim o//

    (...e acho que meu comentário ainda ficou uma porcaria, eu me esforcei mas hoje está difícil, desculpa =/...)

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    1. Olá, Fábio! Tudo bem? Eu sinto muito, melhoras pra você! Eu também acabei não lendo seu post ainda pois me atrasei com as coisas aqui, infelizmente, mas agora estou escrevendo o do episódio 6 e já vou comentar lá também! ^_^

      Hum, sim, exatamente por isso eu fiquei me questionando - será que é a mesma e ele só usa mesmo como decoração, ou ele usa uma bengala por outros motivos, como não ter confiança no joelho? Não sei, foi algo que me pegou pela forma que ele explicou "de qualquer jeito" pra Miyokichi e eu gostaria de ter prestado mais atenção. E sim, eu entendo e não que eu esteja criticando-o por ter essa bengala! É que eu achei bizarro que ele quisesse se lembrar de um momento como aquele, talvez porque eu já vi o episódio 6, que tem umas cenas sobre o passado triste dele, então quando eu terminei esse post estava muito vivo na minha memória o fato de que o passado dele não foi tão bom e feliz, e talvez por isso outra pessoa preferiria se lembrar... mas não ele.

      Ah, e muito obrigada! Não conhecia esse dito, do elefante na loja de cristais, achei bem pertinente pra usar. Eu entendi que ela quis usar a tradução da expressão "white elephant in the room", mas ela não conhecia um equivalente em português, e pra ser sincera, eu também não conheço! Se você souber (que eu sei que você escreve bem...) por favor compartilhe conosco! ^_^

      Hahah poxa, muito obrigada, fico lisonjeada! Na verdade, as modas específicas (como o kogal, lolita, e outras tendências) surgiram sim no meio jovem/adolescente. No entanto, essas modas só ganharam espaço porque a cultura japonesa como um todo já estava valorizando mais o "fofo", por conta da influência, como sempre, da TV e das mídias. Durante minha pesquisa eu vi que as "idols", que começaram a surgir lá pelos anos 70, adotavam um visual mais fofo e toda aquela coisa de "parecer mais jovem" já era uma tendência entre elas. As donas de casa começaram a se espelhar, então, nesse ideal de beleza. Enfim, o que eu estava procurando referenciar era uma coisa da cultura japonesa mais ampla, mesmo; afinal essa parte do anime se passa nos anos 50, supomos, e achei interessante como o Sukeroku, que está sempre nos distritos de bordéis e afins, já tem uma certa apreciação pela estética fofa, enquanto Yakumo, que cresceu entre as geishas e tudo mais, prefere o clássico. ^_^ Eu não sou nenhuma expert, então posso estar falando besteira, mas como me lembrou essa pesquisa achei legal apontar!

      Ah, e sim! Presumimos que foi isso por ele ter olhado para a maquiagem, mas me pegou o fato de ele ter dito no mesmo momento, como se fosse um sinal da própria narrativa. Como disse, ainda não li seu post, mas vou ler agora e acrescentar à discussão! Hahah e muito obrigada! Não sei se é algo bom eu ter te convencido de algo que eu mesma não tenho certeza... rs. Mas eu achei esse episódio extremamente direto nesse assunto, e até revelador. O episódio 6 tem muito mais pano pra manga, e o 7 promete ainda mais. Pra mim esse anime só melhora, e espero que você tenha a mesma sensação ao ver o 6!

      E imagina, seu comentário foi muito bom e muito informativo, de verdade! Sei como é chato escrever quando se está doente, então sem estresse se não der pra comentar por enquanto! Agradeço demais a visita e o comentário, como sempre, e até a próxima!~

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    2. Ah, uma coisa que esqueci: digo isso porque os bordéis acompanham e muito as tendências da beleza e da mídia e tudo mais. Se você for ver, os host clubs e etc. no passado valorizavam a mulher madura, ocidentalizada, e hoje o "Hime gal" é uma estética popular. Enfim, dessa forma, logo associei!

      (E em nota, de verdade eu estou impaciente hoje porque minha cabeça está latejando, então peço desculpas se meu comentário também estiver confuso ou longo demais...! orz)

      Enfim, até mais!

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  2. Saudações


    Essa questão da sexualidade do personagem foi citada no anime de uma maneira, digamos, para te fazer pensar bastante sobre o caso. Os eventos do episódio não foram esparsos e nem fizeram questão disto.

    Tu se sentiu confusa com as características que foram mostradas do elenco principal neste episódio, nobre? Eu confesso, para ti, que me senti um tanto. Não quero ser deveras precipitado ou falar/escrever algo equivocado, mas acredito severamente que Showa Rakugo já está em um patamar de sensibilidade humana maior que as demais obras desta temporada, não apenas pelo mostrado no quinto episódio (em pauta), como também no sexto capítulo (já o assisti, mas o comentarei no post apropriado).

    Fez um belo post, nobre Chell.
    Eu aprecio demais o seu modal, de falar de todo o episódio, essencialmente, e na sequência de cada fato ou ocorrência tu já lança a sua opinião pessoal.
    Porém, confesso que atualmente não faço mais posts de caráter semanais assim, como em outrora (mas isto é assunto para um momento futuro).

    Continue assim, nobre.


    Até mais!

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    1. Olá, Carlílio, saudações!

      Sim, é verdade. Acho que naquela semana os espectadores não foram poupados da discussão, o anime jogou muitas pistas - como por exemplo na fala da Miyokichi de "ele não é assim", que deu muito pano pra manga por aqui.

      Eu concordo plenamente. Inclusive, penso que como Shouwa Rakugo é um anime do gênero josei, nada mais natural do que ter uma sensibilidade maior do que outras obras, sendo esse um dos "clichês" da demografia. Era o que eu esperava desde o começo como fã do gênero, e não me decepcionei. :)

      Mais uma vez, muito obrigada pela visita e pelo comentário! E peço desculpas sinceras por não ter respondido-o antes. m(_ _)m E bem, eu gosto de ler posts semanais nesse formato em outros blogs, mas confesso que também faço dessa forma porque para mim é mais confortável. Talvez nem todo mundo tenha paciência, e nesse caso acho que seu modelo é melhor. :)

      Mais uma vez, muito obrigada, e até mais!~

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