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terça-feira, 23 de junho de 2015

Mangá: Solanin, de Inio Asano - Sobre não estar fácil pra ninguém, e outras coisas mais.

  Um dos meus paineis favoritos do mangá, pra começar bem o post. ♡


O que dizer de Solanin, de Inio Asano? Bem... li o mangá nesta semana que passou, por recomendação do Leonardo Bonkoski (@LeoBonkoski) do Portal Tanaka, e hoje, assisti o live action e li o oneshot Haru yo Koi, que é uma sequência curta ao mangá. Assim, tive contato de uma vez com a série inteira. Porque foi legal assim.

Assim como o oneshot "Rápido como um coelho" da coletânea Subarashii Sekai, o qual resenhei aqui no blog, este é um mangá do autor Inio Asano, de Oyasumi Punpun - que eu provavelmente lerei com o pessoal do Portal Tanaka pra resenhar em outra data; spoilers do próximo capítulo! Enfim, Solanin é mais um mangá maravilhoso desse autor que está virando um dos meus favoritos do gênero seinen. O mangá conta a história de dois jovens, Meiko Inoue e Naruo Taneda, uma banda, e uma música: Solanin. Nome que vem da contração entre as palavras Sora (空, kanji que pode significar "céu", mas também "vazio" com a pronúncia "kara" ou "uro") e Nin (人, sufixo que significa "humano"), as lyrics da música dizem muito mais sobre o mangá, talvez, do que essa descrição engessada:
Desentendimentos estão além do céu.
Será que a vida é apenas cheia de "adeus"?
Apesar de um vislumbre que tive do nosso futuro
É hora de dar adeus.

No pequeno quarto onde eu vivia, um estranho reside agora
As palavras horríveis que você disse, todos aqueles dias perdidos,
Se eu tivesse feito outra coisa, eu poderia retornar àquele tempo.
Mas eu não posso virar o garoto que eu era.

Suponha que nossa felicidade tépida permanecesse,
Na escuridão dos nossos corações, uma semente má iria brotar.
E é hora de dizer adeus.

Uma lata de café morna naquele dia frio de inverno,
o longo cachecol da cor do arco-íris, como uma trilha de memórias
me persegue pelos becos e eu não consigo escapar.

Suponha que nossa felicidade tépida permanecesse,
Na escuridão dos nossos corações, uma semente má iria brotar.
E é hora de dizer adeus.

Eu acho
Eu acho
Eu acho

Adeus... tudo bem,
Fique bem seja lá onde você estiver.
Eu também vou sobreviver,
Está tudo bem, então adeus.




Solanin começa muito parecido com Rápido Como Um Coelho, ao meu ver de pessoa leiga que leu apenas esses dois títulos do Asano. A semelhança básica é óbvia: histórias de crescimento e maturação de jovens adultos. E vão um pouco além disso, porque ambos retratam uma certa perspectiva de vida e de crescimento do autor, mas, Solanin, sendo mais longo, é também  mais complexo. Me chamou a atenção, porém, o fato de ambos contarem uma história principalmente do ponto de vista de uma mulher. Como mulher jovem adulta, é difícil, para mim, encontrar personagens com quem posso me identificar e aprender em mangás, especialmente seinen - isso eu costumo encontrar no máximo em joseis, que são poucos! - então isso me atraiu no mangá. Aliás, um P.S.: tem uma resenha do mangá no Garotas Geeks!

Esse ponto foi uma das primeiras coisas que me agradou em Solanin. Então, Taneda e Inoue; um casal de jovens japoneses comuns, vivendo em uma cidade comum. Se conhecem meio por acaso, por conta da banda; Inoue trabalha em um emprego que não gosta - assim como a protagonista de Rápido Como Um Coelho, a propósito - e Taneda é o guitarrista e vocalista, que trabalha como ilustrador pra ter dinheiro. Soam como um casal jovem com perspectiva de futuro, certo? Até que um dia, Inoue decide revolucionar as vidas paradas deles, sugerindo que vai sair do emprego e seguir seus sonhos, porque tem que haver mais coisas para fazer na vida. Stacie Orrico toca no fundo. (Desculpa.)

E por falar nos sonhos, Taneda tem um grande: ele quer se tornar profissional com a sua banda. Ele não sabe bem como fazer isso; na verdade, nenhum dos dois, nem o pessoal da banda, sabe muito bem o que está fazendo, nem com a banda, nem com as suas vidas, o que é meio a grande questão dessa fase da vida, a crise do quarto de idade e tudo mais, certo? E é aí que eles fazem as coisas mais esdrúxulas e normais possíveis, como fazer uma banda que ninguém quer escutar, esquecer a letra de uma música no meio de um show, brigar com o parceiro sem motivo justo, mil coisas patéticas e, no fim das contas, perceber que talvez, só talvez, toda essa liberdade não fosse felicidade. Talvez eles estivessem mais próximos da felicidade. Mas, afinal, o que é a felicidade?


Essa é só uma das tantas questões que Solanin nos apresenta, através dos seus personagens, que são jovens adultos na típica crise desta idade. Solanin é uma história de maturação - e quem lê esse blog regularmente deve saber da minha paixão incansável por Honey & Clover, Barakamon, e outras histórias bonitinhas de maturação e aprendizagem, então é claro que eu gostei demais. Os personagens são extremamente angustiados com questões existenciais, constantemente se questionam sobre o sentido do que estão fazendo, e não são, nem de longe, pessoas "bem resolvidas", digamos assim.

O curioso disto é que o autor possui todo um estilo artístico pra representar esse sofrimento mental dos personagens, e a história toda nunca não é dada de forma mastigada. Na verdade, tudo é transmitido de uma forma bem lenta e poética - condizente com o estilo da arte do Asano, aliás, que é muito fofo e um pouco desleixado - e em muitos pontos os pensamentos e crises existenciais dos personagens aparecem no meio dos eventos, e nos levam para lugares totalmente diferentes. Explico: Os pensamentos ansiogênicos dos personagens aparecem no mangá em painéis de fundo negro, com letras brancas. Em vários momentos, a moção da história é interrompida, e entre um painel e outro de acontecimentos e realidade, temos um desses com os pensamentos dos personagens; esse recurso é usado com bastante frequência no mangá. Eu já comentei a arte interessante do Inio Asano na resenha de Subarashii Sekai. O character design é outro ponto forte, porque é extremamente bonitinho, mas, através da arte fofa dos personagens, Asano mostra pensamentos e sentimentos muito pesados: a vida não é perfeita, não é fácil, e todos nós temos que nos haver com ela, sim. Temos que fazer escolhas, sacrifícios, e ter persistência.

Crise, crise, crise; "Liberdade sem compromisso é bastante como tédio" é a conclusão a que Inoue chega, e uma das frases que mais me tem feito pensar. De fato, Solanin é muito inspirador pra quem está nessa idade de crescer e descobrir o que quer da vida, e talvez mais ainda por não ter um final exatamente feliz. Spoilers pesados adiante, aviso pra quem não leu! (Dica: vai ler.) O suposto suicídio de Taneda, que é o ponto-chave da história, realmente faz a gente pensar; Taneda é o personagem que durante todo o tempo despende todas as suas forças nadando contra a maré, até chegar a um ponto em que ele não resiste. "Você é feliz?". A resposta é um ímpeto, e a ambiguidade do acontecimento: suicídio ou acidente?

Tanedas não são tão incomuns assim, eu destacaria, especialmente na sociedade japonesa, onde, se deparando com um futuro de salaryman, jovens frequentemente fogem pra vida noturna, ou para um consumismo exacerbado. No caso de Taneda, ele resolveu perseguir o sonho de tocar em uma banda, e ele teve essa força ao lado da Meiko; mas por quanto tempo esse sonho se sustenta? Uma banda não serve de nada se não tem um público, e como um ex-músico que é empresário coloca, o público não vai até você se você não o tocar de alguma forma. A mensagem é simples e direta: nadar contra a maré não é fácil. Mas a transmissão é elaborada, e envolve os 5 capítulos nos quais acompanhamos o choro da Meiko após a morte de Taneda, e a própria resolução dela do que quer para a sua vida, tingida de culpa e arrependimento. No fim das contas, ela arranjou algo que queria fazer e que fazia sentido para ela, guiada pelas palavras do pai de Taneda; e afinal, isso é felicidade?

É difícil dizer. No fim das contas, não importa: a felicidade não dura. Um dos momentos mais felizes do mangá é, sem dúvida, quando os membros da banda estão brincando com fogos de artifício, à noite, sem se importarem com nada. E isso não dura nada perto dos efeitos da morte do Taneda em toda a sua banda, pensando friamente. O fim é exatamente o contrário daquela liberdade e felicidade ingênuas que eles procuravam; a mensagem daquele acontecimento foi clara: a realidade existe e tem que ser enfrentada.

O que não significa que ela é um bicho de sete cabeças. As cenas finais de Solanin mostram bem isso, com Meiko fazendo uma performance incrível com a banda, depois de muito praticar até aprender a tocar a guitarra, e sendo relativamente feliz. Tem alguém que gosta dela, o Billy, e, apesar de tudo que ela sente, a vida continua. Não, não é um "final feliz" de contos de fadas. Mas é um final feliz. Ou um que mostra que a felicidade pode sempre brotar, a despeito dos erros do passado. A continuação do mangá, Haru yo Koi, mostra bem isso: não, Meiko não é mais a menina feliz e despreocupada que era quando saiu do emprego junto com o jovem namorado. Mas tem ideias mais maduras, curte o prazer de se deitar no chão do apartamento que vai acomodá-la, e quando não se sente bem, sua parceira, a guitarra, a conforta.

Então, a história dos amantes Taneda e Meiko é trágica, mas isso não significa que Solanin seja um mangá trágico. Pelo contrário, a mensagem é muito mais de construção e de esperança do que qualquer outra coisa. E é por isso que eu recomendo fortemente Solanin pra qualquer pessoa que esteja nessa idade, mais ou menos confuso em relação ao futuro, e também pros mais velhos, ou, enfim, qualquer pessoa que já tenha passado por esse tipo de angústia existencial. A mensagem é bonita e vale a pena.


Como eu disse, também assisti a adaptação em live action. A maior parte do filme é muito fiel ao mangá, mas bem novelão. Os monólogos meio filosóficos se perdem, assim como a doçura e simplicidade do traço do mangá, que é uma das suas características fortes. Se é um bom filme porque a história é boa, eu ainda recomendaria o mangá pra quem quer conhecer a obra e não tem aversão a ler mangá. Caso contrário, vai fundo; a atuação dos atores é boa se comparada à maioria dos live-actions japoneses, e a mensagem está lá, ainda que um pouco menos clara. O que realmente importa do live-action é a parte do show, especialmente a cena em que eles cantam a música-tema, Solanin. Naturalmente, a parte da música é o que não cabe no mangá. Um P.S.: a música final, Mustang, da banda Asian Kung Fu Generation, supostamente foi escrita pensando em Solanin e também é muito boa.

Enfim, pra resumir o post, eu avalio Solanin como bom pra caramba. Denso, mas poético, nunca massacrante, nunca negativo demais. Trata de temas muito pesados com uma doçura ímpar, e por isso fica aqui minha forte recomendação pra quem está afim de curtir uma obra verdadeiramente sensível. E deixo aqui, também, a minha expectativa de ter uma experiência igualmente boa com Oyasumi Punpun. ♡ Então, valeu, e até a próxima!

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