quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Filme: Paprika - Alguns comentários sobre o feminino em Paprika.



Paprika é um filme de 2006, dirigido por Satoshi Kon (Millennium Actress, Tokyo Godfathers) e baseado no livro homônimo de Yasutaka Tsutsui - autor, por sinal, também da obra original de Toki wo Kakeru Shoujo (comentado aqui pelo Diego, um filme que eu adoro!). Como nota de curiosidade, o livro foi lançado em inglês, pela editora Alma Books, assim como o filme - que não somente foi lançado em DVD e BluRay em inglês, como também foi lançado em português pela Sony (apenas o DVD, no entanto).

Paprika é uma obra deveras aclamada, entre outros motivos por ter sido o último longa de Kon em vida, que morreu prematuramente, aos 46 anos - uma notícia que, à época, abalou profissionais e entusiastas da animação japonesa mundo afora. Kon foi considerado um dos grandes diretores da sua época, tendo trabalhado com Mamoru Oshii (Ghost in the Shell, Tenshi no Tamago [resenha]) e Katsuhiro Otomo (Akira), entre outros importantes diretores, bem, ele é um desses grandes nomes. Além de filmes, ele também chegou a dirigir uma série de TV, Paranoia Agent, além de escrever mangás. Eu tenho pouco contato com a obra dele, e por essa razão prefiro, ao invés de dissertar sobre, recomendar alguns links de pessoas que já falaram sobre Kon e Paprika muito antes de eu sequer conhecê-los melhor:

Resenha do Elfen Lied Brasil, muito interessante, contendo links para as resenhas do Gyabbo! e do Netoin.



Paprika era um desses filmes que estava na minha lista de "filmes pra assistir" há tempo demais. Demais, mesmo. Uns 6 anos, pra ser mais exata. Por que raios eu não assisti, em 6 anos, um filme de uma hora e meia? Um motivo é que eu procrastino loucamente minha "Plan to Watch", claro, mas outro motivo é que eu sabia que seria um filme muito denso, e não aconteceu de eu me lembrar dele em um momento propício. Essa semana, acabei vendo-o na casa de amigos, e curti - naquelas. O filme é lindo - Madhouse no seu auge com uma direção soberba, não dá pra deixar de dizer que é um deleite pros olhos e pros ouvidos. Conceitualmente e em termos de enredo, no entanto, eu achei pessoalmente que deixou a desejar.

O motivo, em suma: Paprika deliberadamente procura confundir o espectador, e deixar sua marca de um jeito bem incisivo. Pra isso, faz uso de artifícios visuais exagerados, conceitos tão complicados quanto interessantes, e não preza tanto pela profundidade da sua história. Na verdade, quem vai esperando profundidade - eu, no caso - pode se decepcionar, sim. Por trás dos conceitos de psicologia popular, discursos sobre a tecnologia na contemporaneidade e coisa e tal, o que há é um enredo bastante simples e que deixa várias pontas soltas propositalmente. Não, isso não é ruim. Não, isso não é uma crítica. É um filme que deixa muito pra imaginação, em muitos sentidos; Todas aquelas imagens fantásticas, somadas com as questões existenciais e desejos íntimos, certamente farão com que o espectador preencha essas pontas soltas como lhe convir. Isso é legal, importante, especial, e raro. E, na minha opinião, faz de Paprika um filme digno.


Mas o post não é sobre isso, por incrível que pareça, porque de resenha de Paprika a internet já está cheia, e qualquer um que quiser ver certamente pode fazê-lo em pouco tempo. O post é pra falar um pouquinho de um aspecto particular do filme - o aspecto do feminino em Paprika. E digo "um pouquinho" muito pouquinho, mesmo, até porque esse foi o primeiro filme que eu vi desse diretor. A esse respeito, já tive conhecimento pelo menos dois trabalhos em línguas ocidentais falando sobre a questão do feminino nas obras que ele dirigiu. Tem a tese "Violence, sexualité et double : les représentations féminines dans Perfect Blue et Paprika de Kon Satoshi", de Gabrielle Scott, publicada em 2010, e o escrito "'Excuse Me, Who Are You?': Performance, the Gaze, and the Female in the Works of Kon Satoshi", escrito por Susan Napier para o livro Cinema Anime, de 2006. Essas pessoas obviamente podem falar com mais conhecimento de caso do que eu, mas esse post é só pra desabafar um pouco e tecer impressões sobre um aspecto que me incomodou pessoalmente no filme de Paprika, e que não vejo ser muito discutido a partir de uma visão menos romantizada.

[Um aviso: a partir daqui, o post contém spoilers do filme e provavelmente não vai fazer muito sentido pra quem não assistiu. Mas pra quem não assistiu, eu recomendo, pois é sim um filme interessante! (nem que seja pra dizer o que achou do post, se concorda comigo ou se acha viagem (^_^;) )]

Esse aspecto é, bem, a personagem-título. Não ela em si, mas o que ela representa. A Paprika é a definição mais literal possível do termo "Manic Pixie Dream Girl". Em outras palavras: a garota perfeita, saída das imaginações das pessoas - em particular, dos homens heterossexuais que a desejariam - pronta pra realizar sonhos e fazer o mundo deles um pouco melhor. Esse é um tipo de personagem, é um estereótipo de ficção, um trope no TV tropes, enfim, é uma ideia que existe e está por aí. A Paprika, como é repetido várias vezes no filme, é exatamente isso: é "a garota dos sonhos". Ela é, literalmente, uma garota que "não existe" e que só aparece nos sonhos, e nos sonhos ela "cura" as pessoas, e basicamente salva o mundo. Ou, no mínimo, ela excita os homens - todos os homens importantes do filme, pra ser mais exata - salva os mocinhos e coisa e tal. Resumindo, ela é linda feat. incrível - e tudo isso sem ser uma Action Girl, afinal ela tem até seu Girly Run de assinatura.

Os mais sagazes podem detectar uma ponta de ironia ou amargura nesse parágrafo, mas não é o fato de ela ser uma "mary sue" que me incomoda, como pode parecer. Pra entender esse incômodo, é preciso analisar primeiramente o filme de uma perspectiva mais inserida na narrativa - pra depois partir para uma perspectiva mais meta - em particular as personagens Atsuko e Paprika.
Afinal, quem é Paprika?
 
No filme, ela "é" a Atsuko. Atsuko é a mulher japonesa padrão - eficiente, com seu cabelo liso e preto preso em um coque, contrastando com o cabelo avermelhado, curtinho e "moleca" da Paprika; Atsuko é uma psicoterapeuta, uma cientista que ganhou o prêmio Nobel pelo seu projeto, e em qualquer outro filme seria uma personagem obviamente incrível digna do título "girl power". Aqui, no entanto, Atsuko não é nada disso. Não é dada essa relevância toda pra personagem dela, porque a bola da vez está com outra mulher: Paprika, que não é só a "segunda personagem principal" como provavelmente seria a Atsuko em outros contextos - digamos assim, se o enredo focasse na questão tecnológica, os protagonistas seriam o duo "pequeno gênio Tokita" e "em segundo lugar" sua colaboradora Atsuko, né? Bem, Paprika não é esse "segundo lugar", porque ela é a protagonista.

E a Paprika não é só a protagonista - ela é tudo. Ela é o começo e o fim, o nome do filme, a capa do DVD, ela é querida, ela é tudo, pelos motivos já citados anteriormente.

E pensando de uma forma mais meta e crítica, o que ela é realmente?

Pra quem conhece um pouquinho de psicanálise - o que pode ser importante, aliás, pra entender todo o papo de sonhos, édipo, id-ego-superego e afins do filme - o sonho, assim como o ato falho e o sintoma, contém expressões daquilo que foi recalcado pela consciência, e que eventualmente "escapa" do inconsciente e vai parar no sonho. Trocando em miúdos: a Paprika é o que a Atsuko recalcou. E é assim que a Atsuko entende isso, afinal ela é uma psicoterapeuta, e é isso que ela quer dizer na cena em que tenta calar a Paprika dizendo "você é só uma parte de mim". Como o filme também brinca demais com o argumento do sonho de Zhuangzi, é claro que a Paprika questiona: "mas sou eu que sou uma parte sua, ou você que é uma parte minha?". Assim, a garota-dos-sonhos Paprika continua, até nesse momento em que a mesa poderia ter sido virada, no posto "superior" em relação à Atsuko.

Pausa pra esclarecer que isso é aceitável, afinal o filme todo gira em torno da questão do "o que é realidade e o que é sonho?" muito mais do que de qualquer questão de gênero, pensando dessa forma faz sentido que a personagem do onírico seja a elogiada pelo filme, e também não é essa cena em particular que me incomoda. Mas ela confirma o fato de que a Paprika é a mulher principal, e isso nunca, em momento algum, é subvertido. Como esse elogio ao onírico não é necessário de maneira alguma pra provar o ponto do argumento do sonho, fico então com a impressão de que talvez ele seja um elogio a outra coisa - à própria personalidade da Paprika, é a minha aposta.

Pra explicar por que isso me incomoda, voltemos pra questão do recalque. Aqui entendido não em termos do funk, por favor. Segundo a teoria psicanalítica, então, a qual é referenciada diversas vezes no filme, a Paprika é (ou ao menos "surgiu como", ou ao menos "simboliza", etc.) o que a Atsuko recalcou, digamos, reprimiu. Recalca-se aquilo que não encontra expressão na vida real, que a consciência rejeita ou que, por alguma razão, não pode vir a ser. Pensando em termos mais reais, são óbvios os motivos pelos quais a Atsuko recalcaria a Paprika - porque não dá pra ser aquela mulher toda intelectual, com um perfil digno de respeito até mesmo numa sociedade machista como a japonesa, sendo uma garotinha serelepe. Ela, claro, seria obrigada a reprimir algo assim pra se construir como Atsuko, pra ter uma chance. E, a despeito disso, no momento em que reafirma a Paprika como uma "superior", o filme minimiza simbolicamente todo esse trabalho psíquico da Atsuko - ou, bem, dessas mulheres que lutam - afinal, a despeito de todos os esforços, Paprika, com sua mera personalidade meiga e exuberante, é mais.

Se isso parecer viagem feminazi minha, não preciso ir longe pra provar meu ponto, está nos comentários do filme. Eu já li diversos comentários falando, por vezes de maneira maldosa, quase como alfinetando, do fato de que a Atsuko "reprimiu demais", que ela devia "ser mais como a Paprika" e comentários similares. Falando apenas isso, não parece ser mais maldoso do que um amigo recomendando a outro que "relaxe, aja naturalmente" ou algo assim, mas o filme leva o espectador a pensar dessa forma, justamente porque ele destaca uma personagem em detrimento da outra.

E num momento de we have to go deeper, como diria aquele meme de um famoso blockbuster inspirado por Paprika, pra dar só uma espiada no buraco que está mais embaixo, depois disso tudo ainda há o fato de que, independentemente disso, a Paprika não é real. Ela é, a princípio, uma personagem de sonhos. É essa a mulher que ganhou essa importância toda. Ela não é real porque ela não encontraria expressão na vida real. Sendo clara, na vida real você não sai voando numa nuvem simplesmente porque você quer. Você precisa fazer algumas coisas pra sobreviver (numa sociedade capitalista, ser bem-sucedida no seu trabalho, por exemplo - dica, dica!) então a Paprika é uma personagem que não teria como existir por questões muito concretas.
Abro um parênteses pra notar que tem gente que acha legal que a Paprika seja uma personagem tão forte exatamente pela sua "feminilidade exacerbada", afinal isso seria de certa forma um elogio ao feminino. Mas o que é esse "feminino" que não existe? A corridinha dela não seria eficiente em nenhuma situação real, pra gênero nenhum, mas isso é o que é considerado feminino. Mensagem de rodapé, "o feminino é fraco na realidade". Isso é paradoxal e evidencia uma questão de gênero que está na base de todo o feminismo - "a mulher é o sexo frágil". E, se não é, espera-se que ela seja.

Claro, é esse o ponto da caracterização da Paprika, ser a "mulher dos sonhos". E é essa a personagem que cativou todo mundo - homens do filme, mulheres do filme (tem mais alguma?), espectadores, título do filme, etc - é essa a mulher que o filme elogia, é essa a mulher que a Atsuko deveria "ser mais": uma mulher que não existe, e mais, que não teria como existir. A partir daí, a liberdade é toda pra traçar paralelos com a opressão feminina na vida real. Ser a "mulher ideal" é impossível, ser a "mulher eficiente" não é o bastante. Ou seja: não se pode vencer.


Com tudo isso, no fim das contas, a impressão que o filme me passou, lá no fundo - mas bem no fundo mesmo, e que aqui parece exposta de maneira até agressiva por ser tão clara e direta, mas eu não tenho a intenção de destroçar o filme com isso e tampouco de dizer que isso foi intencional, ok? - foi a de um elogio à mulher irreal; À mulher que é doce, tão doce que não sobreviveria em nenhum contexto real.

Sim, isso pode ser interpretose exagerada. Mas, ao ver o filme com conhecimento daquilo que ele referencia, e me permitir explorar um pouco mais as temáticas abordadas, me deixou esse gosto amargo. Na verdade, a sensação foi muito mais visceral (como disse, vi o filme com outras pessoas e meu desconforto na hora foi visível!) mas isso é algo sutil, e que deve passar despercebido pra maioria dos espectadores que veem o filme sem estarem previamente sensibilizados por estas questões. É algo que passa direto, e uma mensagem que eu, pelos motivos expostos, não considero positiva. Assim, por mais que eu tenha achado o filme interessante, admito que me deixou esse gosto amargo.
 
Por favor, sintam-se livres pra darem os seus 2 cents, concordarem, discordarem. Eu adoraria saber o que outros pensam a esse respeito, porque realmente não vi muita gente "pensando" muito sobre na Internet - até porque esse aspecto do filme, aparentemente, era muito importante no livro, mas foi meio que deixado de lado no filme. Li um pouco sobre o livro, li este comentário sobre as questões de gênero presentes nele no blog Violin in a Void, e eu fiquei com a sensação de que ele expressa essas contradições da questão de gênero até muito bem, e que foi apenas uma opção do filme deixar isso meio de lado. No entanto, fazendo isso, algumas coisas ficaram pela metade - e essa é a crítica principal que eu tenho em relação, bem, ao filme inteiro: coisas que depois de descascar tudo ainda parecem estar pela metade, e provavelmente estão - e eu acho que esse poderia ser um ponto importante que se perdeu.

Bem, espero que tenham gostado desse post. Deixo vocês com a música tema do filme, que eu já conhecia - e que foi popular tempos atrás por ser a primeira música de Vocaloid empregada profissionalmente em animação, se não me engano? - e é uma música muito interessante e eu tenho ouvido demais. Obrigada a quem leu, e até mais! (E o post com o resto das impressões da temporada está saindo pra logo... prometo.... orz)



2 comentários:

  1. esse é um ponto de vista interessante. eu assisti ao filme, mas confesso que não me liguei nessas questões. o interessante é que a gente nem suspeita que a dr. seja a paprika. porque elas são muito diferentes mesmo. a paprika foi criada com o intuito de ser uma garoto dos sonhos, ela é meiga, como você mesma disse. e acho que é só isso. ela não pisa no mundo real. se é uma parte da mulher que a criou é outra questão - é válida até. as interpretações são várias para esse caso. {Emilie Escreve}

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    1. Olá, Emilie! Muito obrigada, fico feliz que tenha gostado! (^▽^)
      De fato, acho que só percebi porque me afligiu num nível pessoal. Mas julguei digno de ser comentado, até porque, pelo que pude perceber, é também uma questão da adaptação do livro para o filme.
      Quanto ao fato de a doutora "ser" a Paprika, ou ao menos ter algum tipo de relação com ela, acho que esse é um bom exemplo de como o filme gosta de brincar com pistas visuais - e que, por vezes, o espectador não é capaz de acompanhar. Eu comecei a imaginar que a Atsuko poderia "ser" a Paprika quando ela "a vê" no espelho no sonho (imagem que, aliás, tem nessa página), mas isso é algo que você normalmente não registra se não tiver uma ideia prévia do que pode ser o "outro eu do sonho", afinal aquilo poderia muito bem ser só um vidro, uma metáfora sem um significado maior ou qualquer outra coisa. Juntando as peças e o material do cânon, faz sentido a interpretação, e a graça é justamente ter várias, mas senti falta de algumas respostas mais claras.
      Enfim, acho que me estendi! (^^;) Muito obrigada pelo comentário e pela visita, e volte sempre! ♡

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