segunda-feira, 27 de outubro de 2014

[Corrente de Reviews 2014] Anime: Yamishibai - Contos de horror

"Será que foi minha imaginação?" 

Olá! O post de hoje é pra falar de um anime que me foi recomendado pelo blog Gyabbo!, através da Corrente de Reviews de 2014 do blog Anikenkai.

Pra quem não sabe do que se trata isso, uma explicação breve. Já há alguns anos, o blog Anikenkai vem promovendo, entre pessoas da blogsfera de animação japonesa e afins, um evento chamado "Corrente de Reviews". Funciona da seguinte forma: Os blogs interessados se inscrevem, e rola uma espécie de amigo secreto na qual cada um recomenda um anime (que seja uma série, filme, OVA, etc.) ou mangá pra outro blog resenhar, sendo que todos os links das resenhas ficam numa página para que possamos acompanhar. É uma proposta super legal, e como sempre tem recomendações e resenhas de qualidade, esse ano eu aproveitei para me inscrever e participar.

Qual não foi minha surpresa ao descobrir que quem tirou o Not Loli no sorteio foi o Gyabbo!, um dos blogs da blogosfera de anime em português que eu visito há mais tempo e que eu gosto bastante. Claro que fiquei muito empolgada com a recomendação - de um anime que, aliás, eu já devia ter visto e vinha enrolando pra variar!, e espero fazer justiça à recomendação com essa resenha! ヽ(•̀ω•́ )ゝ✧




Yamishibai - nome que significaria, em português, "teatro das trevas" - é um anime extremamente direto, eu diria. Com 13 episódios curtos - com duração de 4 minutos e meio cada um, - e uma segunda temporada com o mesmo número de episódios e formato, o seu nome já diz basicamente tudo que precisamos saber sobre ele em toda a sua simplicidade e, ao mesmo tempo, maestria.

Abro um parênteses pra dizer que opto por utilizar o nome sem espaço ("Yamishibai", ao invés de "Yami Shibai") pra tentar dar conta do seu sentido original. "Yamishibai" é um trocadilho com as palavras "yami" (闇 - escuridão ou trevas) e "kamishibai". Kamishibai (literalmente "teatro de papel") é uma técnica japonesa de contar histórias, muito popular no começo do século passado, na época das guerras e da Grande Depressão. Um pedacinho de história japonesa pra vocês: Naquela época, contadores de histórias viajavam com placas de madeira e espécies de tomos, os quais continham imagens que em sequência formavam uma narrativa. Crianças e curiosos se reuniam em torno do narrador para ouvir a história, enquanto este lucrava com a venda de doces para as crianças que quisessem se sentar mais perto.

Esse pedacinho da cultura japonesa, que diz-se ter sido uma das origens dos animes e mangás, tem sido revivido pelas gerações mais novas, e Yamishibai é um dos reflexos desse movimento. A premissa do anime é exatamente essa: Na sua abertura, um contador (ou "kamishibaiya") um tanto assustador chama crianças para se aproximarem, e cada episódio curto nos apresenta uma história completa - com começo, meio e fim - com temáticas de horror e suspense, muitas vezes misturando folclore e tradições japonesas com situações muito atuais e familiares.

Vale mencionar também que o kamishibai, assim como os contos de fadas medievais no Ocidente, apesar de serem histórias contadas para crianças, não eram infantilizadas. Seu intuito mais profundo era precisamente transmitir lições de vida através de dramas e batalhas, e isso o anime também tomou emprestado, já que de lições de vida Yamishibai é um prato cheio. Por trás das histórias de terror - que oscilam entre o "vagamente assustador" e o "não veja isso de madrugada" - Yamishibai traz lições de vida importantes para qualquer adulto ou criança, e faz uso de terror psicológico justamente para convencer o espectador a comprar seu peixe, digamos assim.

Esse, creio, foi o elemento que mais me cativou no anime. Horror, para mim, é um gênero muito "ame ou odeie", e sustos não são o bastante pra me ganhar; Os sustos, por bem ou por mal, não são o ponto forte de Yamishibai (pelo menos da primeira temporada com certeza, mas vamos falar disso mais a frente).
O ponto forte de Yamishibai é certamente o terror psicológico, provocado por situações realisticamente bizarras, medos e temáticas universais - desde escolhas erradas e a desobediência, passando pelas maldições, a inocência perigosa das crianças, o excesso de confiança, até as coisas que mais ninguém parece ver, são temores e questões que passam pela cabeça de todo mundo em algum momento da vida que tematizam as histórias de Yamishibai. Algumas histórias começam como um dia qualquer, já outras começam com criaturas folclóricas e acontecimentos misteriosos, mas todas compartilham do toque de realismo necessário pra torná-las facilmente relacionáveis. O efeito é complementado pelos personagens demasiadamente humanos, que sentem medo, dúvida, receios, e sofrem ao tomarem atitudes que muitos de nós tomaríamos. Tudo caracteriza um tipo de terror que deve fazer o espectador pensar "e se isso acontecesse comigo?", e se não o fizer refletir por horas a fio, no mínimo passa uma sensação de alívio por estar vivo e bem.

Promover reflexões sobre a vida com histórias de terror é, portanto, a premissa básica de Yamishibai. As histórias em si são lineares, por vezes previsíveis, além de curtinhas e desconexas, o que faz com que o anime passe toda uma sensação de "noite no acampamento, acendemos uma lanterna e nos reunimos para contar histórias de terror", sabe? Nesse sentido, Yamishibai é bastante artístico, e consegue em seu curto espaço de tempo transmitir toda uma ambientação bem específica e deixar sua "assinatura", que é coisa que muitas séries mais longas pecam em fazer.

Ele faz isso principalmente através da sua estética, que é um grande forte. Desde o primeiro momento, me impactou em Yamishibai o carão de doujin work que o anime tem. Seja pelo formato dos episódios, a arte pouco convencional, a animação em estilo de "recortes" ou os encerramentos de Vocaloid, tudo passa a impressão de ser um anime muito barato, daqueles que servem de exemplo do potencial pra inventividade que o doujin work possui, e prova que não é preciso ser uma superprodução para ser bom. A arte tem cores e texturas interessantes, a música é "grudenta", e a animação que sai mais barata combina ao mesmo tempo com a temática do kamishibai, enfim, tudo é bem conduzido e planejado para colaborar com a temática do anime.
Eu preciso fazer um comentário pessoal, aliás, que é o de que tudo me lembrou muito jogos de terror de RPG Maker. Eu não costumo assistir anime de horror, mas essa coisa do doujin, as obras curtas e o terror japonês me lembraram muito alguns jogos independentes como Yume Nikki e Ib, entre outros que eventualmente resenho aqui, e provavelmente me fizeram ter um pouco menos de estranhamento com Yamishibai mesmo não tendo tanto conhecimento de animes do gênero.

Estranhamento, acredito, deve ser uma impressão comum do anime, principalmente para públicos ocidentais, ainda menos familiarizados com o horror japonês. Yamishibai é bem "alternativo", digamos, bastante diferente de séries convencionais e até de outras com premissas similares, como Shiki ou Ayakashi. Se isso pode afastar algumas pessoas a princípio (e talvez tenha, inclusive, afastado a mim, que enrolei para assistí-lo!), felizmente o resultado final tende a ser uma grata surpresa.

Para mim, Yamishibai foi um anime gostoso de assistir, e uma das melhores experiências para um anime tão curtinho e simples, penso eu. Quem já visita o blog sabe que eu gosto de animes curtos; É um gosto adquirido porque gosto de ver o que os produtores são capazes de desenvolver, e Yamishibai ganhou todos os meus pontos nesse quesito. Cheguei a ter arrepios nos melhores episódios - como o final, "O Atormentador" ("Uzuki") - e algumas histórias me tocaram fortemente, como os episódios 5, "O Próximo Andar" ("Ikai") e 6, "O Apoio" ("Amidana"), dos homens que trabalhavam demais.

Tá certo. E qual é o ponto fraco de Yamishibai? Eu diria que é a sua segunda temporada. Porque, para tudo que a primeira temporada foi, a segunda certamente deixou as expectativas lá no alto, e as mudanças de tom decepcionaram a muitos. Sob nova direção - Noboru Iguchi, Shoichiro Masumoto e Takashi Shimizu no lugar de Tomoya Takashima - o feeling que a primeira temporada passou não se manteve. Por mais que tenha, aparentemente, recebido maiores investimentos - coisa que dá pra perceber pela arte e a animação mais refinadas, ou a narração de abertura diferente a cada episódio, por exemplo - a série perdeu um pouco justamente daquilo que ela tinha de melhor: o realismo dos sentimentos e das situações, que as tornava aterrorizantes a despeito de serem simples.

Pra começar, sendo direta, os personagens da segunda temporada são muito burros. Foi essa a impressão que eu tive. Isso pode ter a ver com o fato de eles serem, em geral, mais jovens - tem menos protagonistas adultos, mais estudantes - e portanto terem sido construídos como personagens mais "descuidados", mas em muitos momentos a sensação de "isso poderia ser comigo" se perdia justamente porque eles faziam coisas, bem, muito estúpidas. Quando os personagens perdem sua densidade, é claro que isso afeta a parte do terror psicológico, afinal não dá para se identificar com o medo e as expectativas do personagem se ele não tem medo ou expectativas.

As situações também não ajudam. Além de menos universais, se tornaram mais previsíveis, e mais focadas no momento de susto - o episódio 4, "A Mulher-Parede" ("Kabe Onna"), ficou gravado na minha memória por ter sido particularmente patético - com menos horror, maldições e acontecimentos surreais do que monstros e criaturas estranhas. Boa parte do terror na primeira temporada consiste no fato de que as pessoas cometiam erros morais e eram punidas por isso, e é justamente essa a parte do ensinamento moral que também me cativou em Yamishibai, mas isso não acontece tanto na segunda temporada, onde as coisas acontecem mais por acaso. Penso que essa mudança de tom não seja necessariamente um ponto fraco para todos, mas também que aqueles que foram cativados pela primeira temporada podem se decepcionar aqui.

O saldo final é que eu achei que a segunda temporada deixou muito a desejar, e acabou me parecendo menos madura. Apesar de manter a estética interessante, com alguns aperfeiçoamentos técnicos, apenas uma ou outra cena me deixou aterrorizada ou fez pensar. O episódio 7, por exemplo, "A Máquina de Brinquedos com Cápsulas" ("Gatcha"), traz uma interessante reflexão sobre nostalgia e envelhecimento, mas o terror está muito mais na metáfora - "é aterrorizante perder sua vida por causa de memórias, não?" - do que na história em si. Já histórias como a do episódio 6, "Nao-chan", ou "Ominie-san", do episódio 9, me assustaram pela temática da "família estranha/perigosa", o que não é um sentimento tão universal. Não foi necessariamente ruim mas, em comparação, diria que foi pior do que a primeira.


Apesar disso, Yamishibai foi um anime que me deixou com uma impressão positiva. Além de ter aprendido um pouco mais sobre o folclore japonês, o que é sempre legal, também me fez pensar sobre atitudes e posturas, e me deixou inspirada. Eu recomendaria Yamishibai como um exemplo rápido pra quem quer conhecer um pouco do estilo de horror japonês, pra quem quer se sentir inspirado ou quer um bom exemplo de anime curto. Afinal, nesses termos, o anime é mesmo muito bom.



Bem, por hoje é isso! Desculpa se me prolonguei. Espero que tenham gostado, e que a resenha tenha sido útil tanto quanto a recomendação me foi positiva. (*^_^*) Sintam-se livre pra deixar suas impressões, se concorda ou discorda e coisa e tal nos comentários!

Para dia 29 (quarta-feira agora!), eu recomendei uma resenha do clássico Hotaru no Haka (ou, em português, Túmulo dos Vagalumes) para o blog Quadrinhos Gonzo, então confiram lá, ok? É um filme que, além de compartilhar o plus de "cultura japonesa" com Yamishibai, tem uma pegada emocional fortíssima, e depois dessa, espero que as próximas recomendações aliviem um pouquinho a barra, né... e vale muito a pena ser assistido e discutido.

Até mais!

4 comentários:

  1. Eu assisti só o 1º episódio de Yamishibai, mas acabei ficando mais amedrontado que o esperado (sou fraco para fantasmas japoneses) e acabei parando nele mesmo. Sua resenha me deixou com vontade de tentar novamente.

    Gostei de como se preocupou em contextualizar alguns aspectos importantes, e pelo texto ter sido direto. o divertido da corrente é conhecer blogs também, e por enquanto este foi um dos que mais gostei. Parabéns

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que a resenha lhe serviu pra algo! (*^▽^*) Mas sério que o anime te deixou tão assustado assim? Também acho o terror japonês um tanto forte, mas acho que, em meio às questões colocadas, o susto não foi nem o que mais me pegou.

      Poxa, muito obrigada! Às vezes eu acho que meus textos aqui são diretos até demais, hahah. Então fico realmente feliz que tenha gostado do estilo. Concordo que o interessante da Corrente é justamente poder conhecer outros blogs (e inclusive, já havia lido a sua resenha e contou pontos para eu assistir Kara no Kyoukai num futuro. Sua opinião forte me deixou intrigada.)

      Obrigada mesmo pela visita e pelo comentário! Até mais!

      Excluir
  2. A atmosfera me pegou de jeito mesmo. Mas foi só 1 ep também... Quando digo sou fraco, a coisa é ridiculamente séria mesmo.

    Tive que comentar novamente porque acho minha resenha de Kara no Kyoukai tão esquisita, sabe aquela sensação de bem aquém do que deveria? Fico contente então dela ter "causado" algo então. Valeu

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hahah entendi. E imagina, sem problemas! Eu entendo o que você quer dizer pois sinto isso comumente, mas eu gosto de acreditar que a melhor resenha não é necessariamente aquela mais bem-escrita, mas sim aquela que causa um efeito. Achei seu texto bem honesto, então me deixou curiosa. Obrigada por isso! ^^

      Excluir