segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Anime: Glasslip - Além do Óbvio Ululante que Pulula nas Mentes Humanas.


 
Why is Jonathan the only Jonathan?

Olá! Venho aqui hoje para me arriscar a fazer uma resenha de um anime que é forte concorrente a trainwreck da temporada, e quiçá até do ano - e olha que estamos falando aqui do ano de Samurai Flamenco [resenha]. O anime, no caso, é Glasslip. (P.S.: se você entendeu a referência do título, parabéns - você provavelmente está ficando velho!)

Glasslip é um anime recém-terminado, de 13 episódios, produzido pelo estúdio P.A. Works (Tari Tari [resenha], Nagi no Asukara). Um primeiro aviso importante pra quem pensa em assistir Glasslip: Não vá achando que é Nagi no Asukara nem Tari Tari, porque não é. Glasslip é extremamente anticonvencional - e, a maioria concordaria, de um jeito ruim. Com a promessa de ser "o novo Nagi no Asukara", muitas pessoas assistiram o começo do anime, e mais da metade dessas provavelmente desistiram dele no meio do caminho.

Porque mesmo pra quem gosta de romance parado, com muitos toques de fantasia e um enredo envolto em mistérios e cheio de metáforas - o que já é um público bem específico - Glasslip promete mas não cumpre. O que não significa que eu, pessoalmente, não tenha gostado do anime, mas por todos os motivos errados. (Os motivos errados: O quanto eu ria semanalmente com as pirações dessa série.)


Então Glasslip começa da seguinte forma: Tem um grupo de amigos que mora em um determinado vilarejo; A garota, Touko, que é supostamente a protagonista do anime, é uma das pessoas desse grupo. A família dela tem um negócio artesanal de fundir vidros e fazer vasos e tal, daí vem o nome do anime, aparentemente. Mas não é só por isso: É também porque ela vê o futuro em vidros.

Que bonito, né! Fantasia é tão interessante! Uau, ela vê o futuro! Só que não. Na verdade, ela não vê "o futuro". E essa é exatamente a parte engraçada pra uns, decepcionante pra outros: Se a fantasia não é "real", o que ela vê afinal? Isso também não fica claro em momento nenhum. Alguns diriam que ela vê o que ela quer ver. Se não é real, ela não "vê" nada, digamos assim. É aí que as coisas começam a ficar realmente confusas. Afinal, se você vai esperando um anime de "romance e fantasia", e ele não te dá nem fantasia, e muito menos romance - já que Glasslip é um genuíno anime do tipo "tudo é muito confuso, vamos todos ser amigos" - bem, é claro que você espectador que foi esperando ambas as coisas vai se decepcionar. É esse o fenômeno principal (nada complicado nem difícil de entender, certo?) que faz com que o anime tenha notas tão baixas e resenhas tão negativas por aí, acredito.


Penso que talvez seja isso também que faz com que, dentre as várias pessoas que desistiram de Glasslip antes mesmo de terminarem de assistir, a maioria tenha desistido ainda antes de a série chegar na metade - porque estava claro que ela não tinha nenhum compromisso com aquela promessa inicial, e até aí tudo bem. Afinal, várias séries não cumprem com as expectativas iniciais, e nem por isso deixam de ser boas ou aclamadas. Um exemplo óbvio: Madoka Magica. Mas por que então, ao invés de se tornar aclamada, Glasslip provavelmente cairá no esquecimento dos fãs de anime em geral? Por que mesmo entre as pessoas que terminaram houve insatisfação?

Porque o anime não tem compromisso com... nada. Nada de nada fica claro. Ficam apenas as pistas, metáforas, visões, ideias jogadas mas não desenvolvidas, teorias que nunca serão confirmadas. E isso é ruim? Olha, depende muito. Pra quem adora "anime de metáforas", eu fico cada vez mais com a impressão de que Glasslip é um prato cheio. Eu, pessoalmente, não sou a pessoa mais esperta pra captar as metáforas, mas lendo comentários na Internet - principalmente no Reddit [spoilers], que por algum motivo ama esse anime - de fato tem várias imagens (trocadilho não intencional com a questão da "imaginação" dos personagens) que podem ser analisadas com mais cuidado.

Simbolismo em anime de romance/fantasia não é exatamente novidade, e o próprio estúdio P.A. Works já tem uma tradição de fazer esse tipo de série com uma pegada KeyAni, que unem o típico "slice of life moe" a magias e metáforas - além de NagiAsu, Angel Beats! e True Tears, pra citar mais algumas - mas o fato de Glasslip se sustentar nisso, ao invés de, bem, um enredo conciso, chega a ser... original. "Original" é uma palavra difícil de ser dita sobre um produto de uma indústria que lança centenas de produtos anualmente, então se me arrisco a dizer aqui é porque é importante. E "se sustentar", eu digo, porque realmente não tem mais nada. Afinal, o que é enredo?

Minha opinião sobre esse tipo de história não é necessariamente negativa. Eu não faço questão que minhas histórias cheguem a algum lugar. Afinal - sem querer ser profunda aqui, mas sendo acidentalmente - a vida é assim: estranha, sem pé nem cabeça, onde você é lançado a lugar nenhum e eventualmente você morre, então eu não me sinto ofendida quando uma história não se propõe a chegar em algum lugar. E a escrita de Glasslip, em si, não é ruim; Ela é consistente com a sua proposta - ou falta de. O problema de Glasslip, ao meu ver, não é isso; É sim o fato de que, não importa o quanto você se arrisque nas interpretações, Glasslip não dá muitas respostas. E é aí que fica a súplica de que "Glasslip tinha tanto potencial, mas falhou", mesmo de quem gostou do que viu, que já não são muitas pessoas.


Tenho por mim essa crença de que, caso contrário, Glasslip tinha potencial pra ser uma daquelas séries tipo Evangelion ou Madoka dentro do seu gênero, que desconstroem coisas clichês e esperadas pra construirem algo mais inovador/interessante por cima, que eventualmente são reconhecidas por isso, e que, mesmo que você não goste num nível pessoal, tem ao menos que admitir que a série tem seus méritos. Afinal, tecnicamente falando, Glasslip é decente.
A maioria das músicas em Glasslip são medianas-adoráveis, mas as músicas tocadas dramaticamente no piano no meio da série poderiam ter sido tão bem utilizadas se realmente houvesse um fundo de drama em algum canto da história. Mas não tem, Glasslip é feliz. Tem sofrimento da parte dos personagens, mas o anime é feliz - e esse, no meu conceito, foi até um defeito. Se existe alguma mensagem triste ou dramática no fundo, era tão pouco claro que ninguém ou quase ninguém captou. Então, sobre o sentido que a música poderia ter, simplesmente... não teve.
Similarmente, como deve dar pra perceber pelas screencaps, a parte visual é bem feel-good. Tem cenas super bonitas, a paleta de cores é sempre muito agradável. As bolinhas de vidro através das quais a Touko vê os "fragmentos do futuro"? Lindas. Pena que elas não tem significado nenhum, afinal, ela podia ver esses trecos numa lâmpada ou na cabeceira da cama. Então, é bonito, mas não representa nada. E "é bonito, mas não representa nada" é uma frase que pode se estender pra basicamente todos os aspectos de Glasslip.

Com tudo isso, o espectador comum tende a ter apenas uma impressão ao final do anime: "O que raios eu assisti?". "Pra que tudo isso?"; "Que perda de tempo?" também não é uma reação incomum. Afinal, o anime vai do nada a lugar nenhum, e deixa um monte de questões na cabeça. Eu, que assisti até o final com prazer, não estou no grupo dos que se incomodam com o que procurou ser. Só me incomodo um pouco, sim, com o fato de que deveria ter sido muito mais.

No fim das contas, três foram os motivos para eu ter gostado de Glasslip. O primeiro, mais óbvio: É bonito, é bem produzido, como não gostar? Em segundo: O fato de que eu me diverti demais semanalmente, rindo de todas as loucuras que aconteciam. Quando eu achava que não podia acontecer algo mais bizarro, algo mais bizarro acontecia. Mas não como em Samurai Flamenco [resenha], onde você já nem se importa mais com a próxima coisa bizarra que vai acontecer; Glasslip mantém o tempo todo suas raízes firmadas no "slice-of-life de romance e fantasia", ainda que nunca entregue diretamente nenhuma das duas coisas, então ver o protagonista conversando com dois clones seus no meio da série é algo que ainda surpreende de verdade. Eventualmente os amigos-clones até reaparecem. Tudo é muito engraçado.
"Ah, mas o que são os clones?" "São outros futuros dele!", um espectador responde; "Apenas imaginação", responde o outro. Conclusão: ninguém sabe. Mas é hilário. Pelo menos pra quem tem um senso de humor tão idiota quanto o meu.

O terceiro motivo pelo qual eu gostei de Glasslip, enfim: Os personagens. Por mais que eles sejam detestáveis às vezes - estou olhando especialmente pra você, Kakeru, que é um completo imbecil - eles são personagens interessantes. Eles tem famílias, e dinâmicas familiares, o que é sempre legal no meu conceito, pra acrescentar um pouco de background story e personalidade a cada um; Eles tem sentimentos complexos e identificáveis às vezes. O casinho do Yukinari e da Yanagi foi muito convencional, ainda que tivesse o twist de eles serem "irmãos", mas o modo que os sentimentos do Yukinari pela Touko se desenvolveram foi brutal e lindamente realista, assim como o fato de a Yanagi ser uma personagem complexa o bastante pra não ficar 100% focada nesse fato, e eventualmente manter até a amizade com a Touko, foi interessante; E aí tem a Sachi, que gosta do Hiro, mas também gosta da Touko, e isso é perfeitamente OK e nunca questionado, o que pode ser bom ou ruim da perspectiva do espectador; O Hiro é o mais idiota, e tipo, tudo bem, afinal todo grupo de amigos adolescente tem um mais lerdo ou idiota. Então, os personagens parecem muito naturais, e por que não realistas. Se não vão me marcar pra sempre, também não me fizeram torcer o nariz como uns e outros de séries do seu gênero por aí.


Sei que vou sentir falta de acompanhar essa série. Foi uma experiência diferente, mas agradável, afinal mesmo do que era absurdo demais pra ser bom eu pude rir. É claro que essa é uma experiência muito particular, e duvido que muitas pessoas tenham gostado pelos mesmos motivos.
Esse anime acabou recebendo opiniões muito polarizadas, e ironicamente, todas as pessoas que gostaram parecem argumentar na linha do "too DEEP for you?". Eu, pessoalmente, gosto de ter bad trips com ficção, especialmente quando a obra em questão é fofinha plus surreal/"estranha". Então repito que, se algo me decepcionou em Glasslip, foi o fato de ter ficado aquém do que podia ter sido em termos de drama e piração de fundo, e olha que isso vem de alguém que geralmente reclama de exageros de dramatização e "profundidade". Não gosto de muito tempero, mas sem sal também não dá.
Mas prefiro que erre pra menos do que pra mais, então deu pra assistir. Minha nota pessoal é um 7/10, mas com estrelinha de "me ganhou". Palavras-chave: Chuunibyou, esquizofrenia, folie à deux, "Às vezes eu falo comigo mesmo."

Você deve assistir Glasslip? Se essa resenha te intrigou em algum nível, claro, vá em frente. Glasslip é deveras intrigante, e você não vê algo assim todo dia. Pelo bem ou pelo mal.




4 comentários:

  1. Encontrei um gif que expressa o quanto eu concordo com esse review:
    http://i.imgur.com/nG5CWs3.gif
    ;)

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    1. Obrigada pela sua opinião de imensurável valor

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  2. Uau, gostei do seu ponto de vista da história ^^

    Eu terminei de assistir hoje e fiquei meio "Mano pera, acho que eu pulei algum episódio", algumas questões ficaram vagas, eu fui pesquisar pra ver se tinha sido burrice minha mas realmente Glasslip é um tiquinho complexo e tem muitas críticas negativas tipo muitas muitas mesmo D: e bem... eu curti o anime, também ri muito com ele, só esse lance que tu falou: podia ter sido melhor :P
    Acho que se tivesse mais um episódiozinho, mesmo que fosse uma OVA que tentasse acrescentar uma informaçãozinha pra jogar uma luz seria muito nice (tipo que nem em Mirai Nikki, que já tava bom mas com a OVA ficou espetacular :3 ) , ainda assim ficou mais a parte das galinhas que não vejo um jeito de ser explicado.

    ENFIM, Com tudo, com tudo...

    Curti o anime, curti muito a resenha, curti demais esse site, ;)

    Um abraço pessoinha, keep escrevendo resenhas pq tu manja o/

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    1. Olá Moni!~ Fico feliz que tenha gostado! (*^▽^*)

      HAHAH pois é. Tudo que ficou pendente, se bobear, não dava pra ser explicado em um episódio inteiro. Essa série é bizarra, e eu gosto disso. Gosto de coisas que me surpreendem apesar de tudo. Claro que a parte de não entender também pode ser por burrice minha.
      Verdade, concordo, o OVA de Mirai Nikki acrescentou muito. Concordo que Glasslip podia muito ter um - eu ia querer, pelo menos! - mas acho que, se bobear, só ia confundir mais todo mundo... orz
      Ah, um detalhe: A parte das galinhas é apenas uma piadinha interna, até onde eu sei. Ouvi dizer que o diretor do anime, Junji Nishimura, costuma incluir galinhas como um "easter egg" nas suas séries. Pelo menos True Tears também tem essa coisa das galinhas, enfim.

      Muito, muito obrigada pela visita e pelo comentário, fico realmente feliz que tenha gostado! ( ´ ▽ ` )ノ Volte sempre!

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