quarta-feira, 23 de abril de 2014

Anime: Kyoukai no Kanata - Um "Apenas morno o bastante pra conseguir seu dinheiro"/10.

(Eu confesso que acho esse gif uma gracinha.)

A crítica da vez é sobre Kyoukai no Kanata, um anime curtinho, de 12 episódios, produzido pelo Kyoto Animation (Tamako Market, Hyouka), que, como vocês já devem ter percebido, é meu queridinho e eu procuro assistir tudo deles. Baseado em uma novel homônima de fantasia urbana, Kyoukai no Kanata conta majoritariamente a história de Mirai Kuriyama, uma meganekko fofinha que vive postando na Internet sobre sua vida ser uma droga (qualquer semelhança é mera coincidência), e Akihito Kanbara, um garoto imortal - literalmente imortal - com um fetiche por meganekkos.

Pra acrescentar à dinâmica, vale dizer também que Akihito é metade humano, metade "youmu" (妖夢) - no mundo de Kyoukai no Kanata, uma criatura que coexiste com os humanos, contendo seus sentimentos malignos. Essas criaturas servem para manter o equilíbrio do mundo juntamente com os humanos, não são necessariamente más, e inclusive podem ter filhos com humanos - e é esse, supostamente, o caso de Akihito, filho de uma Ikaishi maluca chamada Yayoi com um youmu imortal. "Ikaishi?" Pra manter esse equilíbrio, temos também Ikaishi, que são humanos com poderes especiais, de clãs diversos, com a missão de manterem em cheque os youmu e que podem (e devem) matá-los quando eles saem do controle normal.




Eu confesso que não gosto de um monte de terminologias próprias, mas são basicamente essas que nós temos; Traduzindo, é tudo um grande grupinho de pessoas com poderes sobrenaturais, e ainda que os youmu e Ikaishi sejam tipicamente contrapartes e rivais, nada impede que eles trabalhem juntos - e é necessário que eles estejam juntos para manter o tal do equilíbrio do mundo. A tal da Mirai é a última Ikaishi do seu clã, que era um clã tão poderoso quanto amaldiçoado e que carregava um certo estigma e coisa e tal. Numa tentativa de suicídio, ela acaba "conhecendo" Akihito, e descobrindo o seu segredo - da imortalidade - o que faz com que eles entrem numa dinâmica amigável, porém bizarra, de treinamento de assassinato e empréstimo de dinheiro pra comida, ou algo assim.


Em suma, é essa a ambientação e os personagens da história. Resumo assim porque um problema que eu achei foi que os personagens são, em geral, pouco marcantes; Talvez com exceção dos dois protagonistas - e ainda assim com ressalvas - o restante do elenco é extremamente esquecível, apesar de ser um elenco grande; O impacto que eles causam não chega nem perto do impacto das reflexões que eles fazem, por exemplo, e isso poderia ter sido melhor trabalhado - e acredito também que isso pode ter a ver com a adaptação e tudox mais. Então, não vou me dar ao trabalho de falar dos demais, mas basta dizer que além da mãe maluca, temos a irmã yamato nadeshiko e seu irmão siscon, uma chefe austera, irmãs youmus estranhas e toda uma série de personagens deliberadamente estereotípicos.


Por isso, já dá pra perceber que a história tem problemas; Por mais interessante que isso tudo possa soar, a associação imediata dos personagens nunca é muito esclarecida - entendemos que ambos são solitários; e compartilham de uma situação bem particular, mas essas motivações podiam ser melhor exploradas; Ao invés disso, o anime decide em grande parte se ater às piadas com os fetiches dos personagens. Não significa que a história ou as piadinhas sejam necessariamente ruins, mas fica a impressão de que falta algo. Somado a isso, os arcos seguem uma linearidade temporal, mas parecem desconexos entre si - para se ter uma ideia, um arco de vingança de uma amiga de infância do passado da Mirai (que eu, pessoalmente, achei bem "jogado") é seguido por um arco de um monstro otaku - e não há um compromisso nesse aspecto, exceto pelo final.


Apesar disso tudo, o que eu gostei em Kyoukai no Kanata é que tudo faz o anime ter um feeling extremamente contemporâneo. O que eu quero dizer com isso é que há muito mais um compromisso em ser "mercadologicamente agradável" que com ser "groundbreaking". Os personagens passam pouco de estereótipos que comprovadamente agradam ao nicho - e eu não vou dizer que não me agradaram, porque seria mentira, mas eles próprios se reconhecem/identificam como tal, e se encaixam em algum padrão - fora os óbvios, como a Mirai meganekko, coisas como o casal de protagonistas moeblobs, os irmãos mais sérios e silenciosos, ou a Ai sendo a "idol fofa", por exemplo - e em nenhum momento há um tom de crítica a isso (..até porque, pfft, aposto que o estúdio não ia querer perder 90% da sua fanbase). Não há um esforço pra negar que se é mais do mesmo; É mais um tom de "rir de si mesmo".


A história é meio que uma fantasia urbana - quer gênero mais pop pra uma Light Novel? - disfarçada de história de amor, porque as brincadeiras entre esses dois protagonistas - e vários momentos relevantes na série, mesmo - levam a entender isto, mas na realidade, ainda que seja importante na história, o lado romance é como que um "complemento" pros lados da fantasia (com os mitos japoneses, histórias de clãs e poderes sobrenaturais - isso nunca vai cansar, certo?) e uma pegada de filosófica (com os vários diálogos com um tom mais introspectivo/reflexivo entre os próprios personagens); E a cereja do bolo há de ser a comédia feita basicamente em cima do "moe". Eu confesso que adoro a comédia "bobinha" de Kyoukai no Kanata, que meio que lembra Clannad e outras séries do estúdio, mas digamos que eu reconheço que não é o humor mais sofisticado do mundo.

Não preciso dizer que a animação é belíssima, porque isso é repetir o que eu falo em todo post de anime do KyoAni; Eu gostei especialmente da paleta de cores dos personagens - em tons de rosa, azul, amarelo que combinam bem - que foi uma das coisas que me convenceram a assistir o anime. Aliás, de forma geral, o anime se usa de um colorido leve e bem delicado; Pra exemplificar, deixo aqui a seqüência de encerramento, belíssima, que é demonstrativa disso.


Em outras palavras, a impressão que tive de Kyoukai no Kanata foi de ser bonito, simpático, mas desesperado pra agradar o público com piadinhas fetichistas ao mesmo tempo em que a história se mantém no morno e no já conhecido. A história poderia ter se forçado mais, levando em conta que é uma história de fantasia sobrenatural, mas em momento algum tem a ousadia pra tanto. É isso, somado com a falta de desenvolvimento dos personagens, que faz Kyoukai no Kanata parecer uma olhada muito superficial sobre um universo que tinha bastante potencial, mas cujo potencial não foi explorado.

É claro que há explicações pra isso, a mais obvia sendo o fato de o anime ser adaptação de uma Light Novel que só tem 2 anos de existência. Mas o fato é que Kyoukai no Kanata passa essa impressão - nem simplesmente de obra inacabada, mas de obra que não se compromete em se distinguir, ser diferente ou ter um universo delimitado, mas se contenta em ser um bonito espelho do seu mercado, tornando-se tão agradável quanto esquecível. Se isso é ruim? Não necessariamente, mas lembrar que essa é uma das produções mais recentes de um dos melhores estúdios da animação japonesa no mínimo nos faz pensar um pouco sobre a atual situação do mercado.

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