segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Resenha: Tenshi no Tamago (Angel's Egg) - Do japonês, "ela se atirou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender."


Tenshi no Tamago (também conhecido pelo nome Angel's Egg) é um filme animado de 1985, produzido pelo Studio DEEN na época em que ele era bom numa colaboração entre o artista Yoshitaka Amano, possivelmente mais conhecido como o principal artista dos seis primeiros jogos da série Final Fantasy, e o diretor Mamoru Oshii, mais conhecido pelo seu trabalho em Ghost in the Shell. À época, ambos já eram conhecidos por outros trabalhos, mas aparentemente esse filme foi um decepcionante flop.

Eu estou fazendo uma resenha sobre ele, porque esse é um filme que eu queria ver já há bastante tempo. Eu o conheci através de uma resenha de uma pessoa de gostos relativamente parecidos com os meus, falando muito bem da dimensão poética da obra e tudo mais, e fiquei curiosa. Da primeira vez que eu tentei ver, porém, talvez por estar mais no clima pra ver mecha alegrinho do que anime filosófico eu acabei ficando com sono nos dez primeiros minutos e desistindo de ver. Sono. Era completamente entediante, até por ser praticamente mudo e escuro.

O filme ficou lá no meu computador, e agora, por conta da Meta 2014!!, eu acabei olhando esse nome de novo... e... "puxa, eu nunca terminei de ver isso, né?". E agora, o que eu penso sobre ele? A impressão de ser "um ótimo filme pra dormir" não passou. Mas, pelo menos, é um ótimo filme. Assim, pra dormir.



Mas já vou começar dizendo que, como uma narrativa, eu diria que o filme é fraquíssimo. Na minha opinião. A narrativa mistura alguns elementos interessantes - por exemplo, na ambientação, que se dá em uma cidade completamente vazia de pessoas, com elementos de arquitetura gótica e uma vibe vagamente cyberpunk - e tem algumas frases de efeito que são interessantes. É interessante para se refletir sobre, sim. Mas, na maior parte, falha em passar algo realmente interessante para o espectador. Acaba parecendo mais uma experimentação de narrativa, em que tudo parece se resumir em um único ponto, que diz respeito à questão da vida e a morte.

E eu tenho tendência a considerar qualquer asserção feita sobre vida e morte bastante pedante, porque né, fica aquela pergunta do "você já morreu pra saber?". Eu honestamente não quero respostas poéticas aqui, e eu entendo de verdade quem pensa sobre isso e quem acha válido, mas na minha opinião, centrar uma narrativa inteira em uma resposta pra isso acaba tornando-a bastante... sem base, talvez? Tudo bem divagar, mas daí a tentar embasar nada evocando simbolismo bíblico é um pouco... hmm.

A parte do simbolismo bíblico é que realmente... realmente não desceu. Quer dizer, se você é uma daquelas pessoas que gostam de Evangelion pelo simbolismo profundo *gasp*, eu super recomendo Angel's Egg, já que tem um nível maior de pretensão. No mais, hmm, é bem executado, é definitivamente ~profundo~, mas mesmo interagindo num nível interpretativo, eu simplesmente não consigo levar a sério.


Tendo dito isso, e em compensação, a arte foi o que me fez apreciar essa hora de filme. É tudo muito lindo, na minha humilde opinião, e tem aquele ar de ♥ Yoshitaka Amano  em todos os cantos. O aspecto obscuro, os personagens pálidos, com as pálpebras caidas e cabelos desgrenhados, mostrando expressões sérias, é tudo muito lindo. Digo "na minha humilde opinião" porque isso é de fato um gosto pessoal; Eu sou bastante fã do estilo dele, então pra mim, no mínimo, agradou aos olhos.

Lendo a página na Wikipedia, eu vi um comentário de como o filme já foi interpretado como uma "pintura animada", e foi exatamente essa a impressão que eu tive; Como uma exposição temática ou um artbook do Yoshitaka Amano transformado em animação. Ou seja: legal. Enquanto via, pensei ainda em como os aspectos mais fantásticos do filme eram bastante reminiscentes de filmes mais antigos do Studio Ghibli, e conforme eu li depois, o produtor de Angel's Egg, Toshio Suzuki, foi um dos fundadores do Studio Ghibli, o que provavelmente explica o ar.


Quanto à história em si, resume-se da seguinte forma - há uma garota que passa todo o tempo com um grande ovo, carregado na altura da sua barriga, cujo conteúdo ela desconhece. Essa garota encontra um homem, com uma aparência de guerreiro na cidade desolada. Ele a ajuda, e ambos começam a andar juntos, ao mesmo tempo em que ela procura proteger o ovo do próprio homem.

A animação demora bastante - aproximamente meia hora - pra realmente engrenhar, com a presença simultânea dos dois personagens, e coisas começarem a acontecer. E por coisas, entenda tão somente a discussão filosófica central do filme. Ainda assim, tem algumas seqüências muito longas em que praticamente nada acontece. Vem à mente uma certa cena estática, com duração de mais de meio minuto, acompanhada de alguns sons. Aliás, o silêncio é outra coisa que pode tornar o filme entediante. O filme inteiro é praticamente mudo, à exceção de alguns barulhos e sons esparsos - e para uma animação da década de 80, isso com certeza pesa bastante.

(Spoilers a seguir.)

Nessa linha de "pintura animada", tudo isso culmina na quebra (bem esperada?) do ovo. É horrível o grito da garota ao ver o ovo despedaçado; Esse grito de dor, ao ver o ovo quebrado, é exatamente a parte impactante da "pintura". São aqueles um ou dois segundos em que todo o peso do conceito cai nas suas costas. É pedante, sim. Mas é bonito, também.

Eu não iria tão longe - quanto algumas resenhas que tenho lido... - pra dizer que pra gostar de Angel's Egg você precisa ser "pretensioso ou maluco", ou qualquer coisa do tipo mas com certeza não é um filme pra qualquer um. No mínimo, você precisa ter algum nível de apreço por animação antiga, filmes mudos, e um estilo de arte atípico. Mas, pra quem tem, também não acho que o filme seja tão complexo ou cansativo assim. Quer dizer,... é bonito. E ótimo pra dormir, prometo.

    

13 comentários:

  1. ja viu ele dublado aqui rsrs http://youtu.be/Dfh8-FDzwhs

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  2. Olá,
    Tive a chance de assistir essa animação em uma mostra de animes na minha cidade. Era uma versão com um bizarro live-action australiano intercalado entre as cenas animadas. Não gostei na época e finalmente tive a chance de ver o original em japonês com legendas em espanhol. É uma história hermética (como a mente de Mamoru Oshii), repleta de simbolismos e realmente difícil de elucidar. Qualquer especulação pode ser atribuída à trama, desde a queda dos anjos até a queda do homem e por aí vai. A garota é um anjo inexperiente, carregando a esperança da humanidade no ovo ainda não "chocado". Vale pela arte, vale pela "viagem".
    Daniela Lopes.

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    1. Olá, Daniela,

      Nossa, é mesmo, que curioso! :) Fui procurar no Google agora, e descobri que o nome desse filme que intercala cenas de Angel's Egg é In The Aftermath: Angels Never Sleep, de 1988. Os créditos do filme australiano tem tanto os nomes da "equipe americana" quanto os da "equipe japonesa", como eles chamam exatamente os mesmos nomes de Angel's Egg... Caso curioso, no mínimo.
      E é... hermética é um jeito mais delicado de colocar, haha. Na época que eu escrevi esse post, ainda não conhecia Ghost in the Shell, e depois de conhecer (e amar o filme original) e revisitar Angel's Egg, eu sinto que ele foi abandonando um pouco esse estilo. Que eu acho que tem um lado adorável, pessoalmente. Por mais que eu tenha criticado a narrativa, concordo 100% que vale nem que só pela arte e pela "viagem", e é um filme que eu volta e meia lembro com carinho. :)

      Grata pela visita e pelo comentário, e até mais! ♡

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  3. Parece interessante, acho que vou ver depois.

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    1. Olá, Marcio!
      É interessante sim, de um ponto de vista artístico, mas não nego que é sonolento! Rs! :) Obrigada pela visita e pelo comentário!

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  4. Assisti hoje e gostei! Adoro essas animações antigas, parecem mais caprixadas.. Não me deu sono. Acho que quem curte rock progressivo/psicodélico vai perceber a grandiosidade dessa obra. Os sons que preenchem a falta de diálogos é algo maravilhoso. Esse ar sombrio, os tons escuros, fazem refletir e entrar no clima. Enfim, eu como fã do Pink Floyd, enxergo elementos que estão presentes em muitas músicas psicodélicas ou progressivas.

    Kleber Carpegiani, Natal RN

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    1. Oi Kleber, muito obrigada por sua visita e seu comentario!
      Verdade, creio que o estilo da animacao permitia uma coisa mais artistica e a industria tambem era menos padronizada, porque atualmente nao se usa o potencial da tecnologia disponivel assim de graca, apenas em poucas cenas etc. Tambem uma questao da prosperidade economica da epoca talvez, a queda do traco de anime dos 80s pra 90s e imensa. A ambientacao e mesmo o ponto forte do filme. Eu nao entendo do estilo musical mas curti.

      Novamente, obrigada por compartilhar impresspes e ate mais!

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  5. Infelizmente esse filme passa mensagem puramente negativa, por mais que eu goste da arte do clima gótico e por amar esses traços antigos japoneses, mas a narrativa Iluminat mostra que a fé e esperança é algo ruim...E que a esperança não existe para quem tem fé , o ovo representa a fé e dentro dele a esperança da vida que a menina carregava achando que mudaria algo e o guerreiro não passa do Diabo que leva a esperança a fé e a vida da menina embora... (Eu sou cristão mas não concordo com a religião católica entre outras que usa nome de Deus em vão, aquilo ta mais para religião romana pagã, então se a critica é em relação a religião católica e suas derivadas ai até entendo pq tem muita coisa errada tanto ali como em mts religiões que nada fazem pela verdadeira fé e são vazios por dentro como o ovo por seguirem a esperança de lideres religiosos safados que nada seguem os verdadeiros ensinamentos, mas como ele não foi claro sobre isso então fico dividido nessa questão...) Mas existem outras mensagens interessantes como a dos soldados que destroem tudo com a guerra lutando por coisas vazias motivos vazios como uma sombra, e acabam destruindo tudo por algo sem sentido e vazio... Mas enfim o autor foi muito vago com relação ao que queria fazer ou criticar com a obra, e isso me deixou chatiado, mas mesmo não gostando da narrativa principal por ter pouca argumentação, teve as secundárias que foram interessantes então de 0 a 10 eu daria um 7...

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    1. Olá, Vaizard! Obrigada por ler e comentar nessa resenha. ^_^

      Exato, isso que eu quis dizer a respeito de ser meio... bem, não é ruim e certamente é um debate ótimo artisticamente falando, é super existencialista, mas é em última instância vazio. Afinal, é humanamente incapaz tirar conclusões sobre esses temas. Evocar elementos cristãos é especialmente pedante porque a mensagem é o contrário da mensagem bíblica, então sendo cristã me incomodou levemente na época. E encarando friamente como uma história e não a criação incrível que os criadores aparentemente queriam, é bem inconclusivo apesar da ambientação interessante e de evocar alguns pontos interessantes a se pensar. No geral eu concordaria com sua análise.

      O ovo poderia ter várias interpretações, mas eu diria atualmente que o ovo é uma metáfora para o nosso "vazio interior", paz de espírito, silêncio ou o que a concepção individual quiser chamar. Ele acaba com a felicidade simples da menina que ela cultivava com tanto carinho. Mas na época eu não saquei, pensei que fosse uma metáfora genérica sobre acabar com aquilo de que alguém precisa. Depois de ver Utena eu fiz a associação.

      Enfim, agradeço de coração o comentário e espero que visite mais vezes! Até! ^_^

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  6. Olá, interessante análise, e bastante honesta. Conheci o filme ao ver uma crítica a Ghost in the Shell que o citava. Bastou para mim ver uma pequena cena e me apaixonar pelos traços e ficar louco para ver, tanto que o assisti menos de um dia depois. Pois bem, sou estudante de ciências humanas, e por questão de pura paixão de encarar produções artísticas que enfocam o existencialismo, coloquei uma expectativa demasiada grande no filme. Dormi na metade do tempo e terminei de assistir horas depois. Não chego a dizer que foi decepcionante, muito pelo contrário, ele cumpre e muito bem o que "propõe",se é que algo foi claramente proposto, para início de conversa, pode ser que sejam justaposições simbólicas levemente interligadas com contextos exteriores a própria obra. Levando em consideração, então, que há uma proposta de mensagem, ela é mais para levantamento de perguntas, que nunca talvez poderão ser respondidas, do que de elucidações (e quando há alguma "resposta", ocorre de tal maneira que não se pode ser tomada como verdade absoluta). Sobre ser uma crítica a religião, sobretudo a cristã, corroborando o que acabo de dizer, é uma das poucas coisas que são plausíveis de se afirmar, tanto que se trata praticamente de um consenso do público, e é bastante pertinente, se a pessoa que assiste tomar como ofensa, fica complicada admirar toda a beleza do resto. Por fim, gostei bastante da experiência de ter visto algo tão singular, não por ter sido um ótimo filme, mas por ele ter sido o que é: uma obra capaz de fazer você pensar, pensar, e pensar. Minha reação ao terminar de ver, foi estranha, foi algo que não se sente com frequência. Definitivamente não é pra qualquer um, no mínimo tem que ser excêntrico ou curioso.

    Att, Marcos Lima.

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  7. Olá, Marcos! Primeiramente, bem vindo e obrigada por comentar.

    Sim, é verdade, o filme se propõe muito a transmitir mensagens em metáforas imagéticas e pouco em falar de coisas concretas ou tirar conclusões definitivas, o que não é necessariamente um defeito mas sim uma proposta simplesmente e eu respeito. O problema é justamente que independentemente de ser um filme existencialista ele é sonolento. Eu me sinto realmente triste de saber que ele critica a religião, também, porque ainda que eu consiga abstrair críiticas à religião, eu penso que é uma temática batida especialmente em anime e mídias japonesas e entendo também aqueles que podem eventualmente não gostar por causa disso. É uma opção, da mesma forma que não gostar porque é sonolento é uma opção. Eu também gostei da experiência, e me identifico com o que estás dizendo. ^_^ Mas, sim, não são todos que vão gostar de uma experiência tão singular.
    Novamente, obrigada por sua visita e por compartilhar sua impressão do filme, de verdade. Até!

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  8. Gostei bastante da resenha.. Vo assistir. Parece legal. :)

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    1. Ola, Arucard! Grata por visitar e comentar e assista sim se a resenha lhe interessou ;)

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