quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Moda: 和服 - Kimono, yukata, haori e outras coisas lindas. ♡

Kimono chinês barato que eu quero.

Esse é um post sobre - dun dun! - kimono, contrariando a "tradição" de street fashion desse blog. Ou não, já que quero falar de várias coisas, passando por Kimono Hime.

E por que eu resolvi falar de kimono logo agora? Tem duas explicações pra isso. A primeira, que preguiça define, e eu ando com preguiça de atualizar aqui, daí a falta de posts. Lições de japonês no Busuu - recomendadíssimo! - Natal, cosplay (dun dun~), milhões de trabalhos, tarefas e coisas pra fazer tem tomado todo o meu tempo e disposição pra manter isso aqui apresentável. ;_;
A segunda é que eu recentemente virei fã de kimonos. Fato pra conhecimento geral: eu não sou nem um pouco ligada em era feudal japonesa e/ou coisas tradicionais - até aqueles Saiunkoku Monogatari da vida me cansam profundamente - e nunca tinha ligado pra kimonos antes. Mas aí...


 

Essa história toda começou quando eu - como boa weeaboo velha que sou - encontrei uma peça de wafuku que eu nem sequer lembrava que tinha no armário. Como estava sem roupa para ir no Ressaca Friends - aquele evento que eu torço muito pra conseguir ir, mas os ingressos e o hotspot já esgotaram antes que eu pudesse ter dinheiro, e Yamato: por que és tão fdp? - fiquei com essa idéia de usar aquilo na cabeça.
Acontece que eu nem sabia o que era aquilo. Sabia apenas que não era um kimono, porque algumas partes me eram um pouco estranhas - tinham tiras que eu desconhecia, e parecia curto demais. Chutei que fosse um yukata, na minha completa ignorância, e só muito tempo depois fui descobrir que era um dochuugi. Que, aliás, não tem nada a ver com um yukata.

Pra quem não sabe, yukata é uma espécie de "kimono informal"; Feito de linho ou algodão, é utilizado em onsen (casas de banho), e em alguns casos durante os verões quentes, em áreas rurais, por exemplo - vide as imagens abaixo para algumas ilustrações em anime/jogos. É também aquele "kimono" que vemos os personagens de cidades modernas usando durante os festivais (matsuri), etc.

Chie Satonaka de Persona 4 em yukata. Fonte: Megami Tensei Wiki

Até chegar nas terminologias - de yukata, para haori, para diferentes tipos de wafuku, incluindo o dochuugi - eu procurei mil coisas, inclusive achei que ia precisar comprar um obi. (Podem rir agora. OTL) O obi é a faixa que teoricamente "segura" o kimono/yukata na cintura. Quando comecei a pesquisar isso tudo, estava tão crua que não sabia como se usa de fato um kimono, e pensava que bastava um obi para mantê-lo bonitinho.
Eu não fazia idéia nem de que tinham uns cinco acessórios pra mantê-lo alinhado, e nem da dificuldade que é pra achar um obi e outras peças de wafuku aqui no Brasil. Quando você procura kimono em sites de compra padrões, o máximo que vai encontrar são keikogi (uniformes de artes marciais).

Então, com isso, dá pra ter uma idéia de como eu sou uma completa novata nesse assunto. Sintam-se livres pra corrigir quaisquer barbaridades que eventualmente estejam aqui.


Acontece que, por causa dessa história, eu acabei lendo muitas, muitas páginas mesmo, em português, inglês, e até alguma coisa em japonês (caham, tutoriais!) pra tentar entender mais sobre kimonos e kitsuke - o nome usado para designar a prática de usar kimonos. O que eu acabei descobrindo foi que, não só essas vestimentas são muito lindas e literalmente artísticas, todas cheias de detalhes na sua manufatura - como muita coisa japonesa tradicional, mas né - elas também são cheias de histórias interessantes.

Acho que a primeira vez em que eu comecei a ver o kimono por uma ótica mais apreciativa/artística - ou, se não a primeira, ao menos a primeira vez em que eu me importei o bastante - foi através de um mangá BL, cujo nome realmente me esqueci, mas que tem personagens que são artistas que pintam em kimonos. O mangá incluia alguns detalhes e curiosidades técnicas (porque aparentemente kimono é um desses nichos. Eu tenho achado um número de mangás BL/yaoi com cenas com kimonos, - alguns com temáticas similares são Ai ni Somare, Adeiro Yuugi e Kimi ga Koi ni Midareru - e hoje em dia eu não posso mais negar que é bonito mesmo. ;_;)

Painel do cap. 1 de Adeiro Yuugi.

Eu achava que kimonos eram simplesmente vestimentas costuradas em tecidos pré-fabricados, então descobrir que existiam pessoas que trabalhavam especificamente com pinturas em kimonos foi interessante pra mim. Eu fiquei com essa curiosidade, e só recentemente soube que, hoje em dia, realmente tem os dois; Os kimonos industrializados, com tremendas variações em termos de estilo e fidelidade aos padrões originais, e os feitos a mão, costurados delicadamente, com emendas em lugares específicos, pra que possam ser desmontados e re-costurados quando preciso, e até mesmo peças pintadas a mão.

Muitos kimonos são como obras de arte, e, de fato, não é incomum que sejam pendurados nas paredes por entusiastas. Há tipos de kimonos muito diferentes, para diferentes ocasiões - a depender de coisas fundamentais, como o sexo da pessoa que o veste e o seu propósito, até o grau de formalidade, classe social (por exemplo, o kimono de uma mulher casada tem mangas mais curtas que de uma mulher solteira; O kimono da mulher que se casa pode ser o shiromuku ou o uchikake, a depender da religião da cerimônia, enquanto suas parentes poderão estar usando o tomesode, e assim por diante). Todos eles, entretanto, parecem compartilhar de um certo padrão de costura, estilo das mangas, gola, e o comprimento longo.


O comprimento do kimono depende muito da época em que foi feito - por exemplo, aqueles feitos antes da Guerra costumam ser os que tem mais pano; Os feitos neste período costumam ser os que tem menos, em contraste, pois naquela época precisou haver uma economia de materiais. Atualmente, me parece que os kimonos tradicionais tendem a ser um pouco mais curtos por razões financeiras, mas ainda longos o suficiente para possibilitarem o ohashori e, ainda assim, encobrirem as canelas das mulheres japonesas (~150cm de comprimento ou mais).
O ohashori é o acúmulo de tecido dobrado embaixo do obi. Ele é feito durante a amarração do kimono, e em geral se mantém preso por um koshihimo - uma corda que auxilia a prender o kimono - o qual é sobreposto pelo acúmulo de tecido; Sobre ambas as camadas virá o obi, mas não sem outros acessórios, como o obimakura e o obiage, e há ainda outros acessórios possíveis para deixar a amarração do kimono e do obi impecáveis. Diz-se que os kimonos tinham esse comprimento longo para que pudesse ser passado de geração para geração; Daí o ohashori ser indispensável.

Os sapatos, que são aqueles chinelos de madeira que vemos tipicamente, também variam muito. Atualmente, os mais comuns são o geta e o zori, o primeiro sendo menos formal que o segundo - geta é geralmente usado com yukata, como vemos em anime, aqueles chinelos com dois "dentes" sob a sola; Já o zori não possui dentes, e tem um formato mais similar a um chinelo, mesmo, sendo então preferíveis para cerimônias em lugares fechados e afins. Quanto ao geta, há ainda diferentes tipos. Além dos tradicionais, há aqueles em que os dentes são mais longos, tipicamente usados por mercadores (feirantes), para manterem seus pés afastados do chão sujo; Há aqueles de geisha e maiko (que seriam "aprendizes" de geisha, pelo que sei), que possuem uma plataforma única - como um salto anabela - entretanto, a parte próxima do calcanhar (o que seria o "salto" nos sapatos ocidentais) é voltada para dentro, de modo a acentuar o calcanhar saindo para fora do geta, o que é considerado belo; E assim por diante.


Enfim, a arte do kitsuke é cheia de particularidades. É uma tradição muito antiga, e por isso tem diversas variações e explicações históricas para cada uma delas. Mudou-se os tecidos, a posição do laço do obi - que já foi na frente, de lado, e hoje é atrás, - o comprimento em que o kimono é usado, - que precisou ser encurtado para facilitar a prática das tarefas domésticas pelas mulheres, - entre tantas outras coisas, mas essa vestimenta japonesa tradicional continua sendo reproduzida, ainda que com a inserção do youfuku (roupas ocidentais) na cultura japonesa, tenha-se reduzido bastante o uso de kimonos.

Hoje em dia, muitas jovens japonesas não sabem fazer amarração de kimono, e pedem a ajuda de pessoas mais velhas. Existem vários "brechós" de kimonos, em sua maioria do início do século XX, e nos quais os kimonos vendidos - por preços que variam de 500 yen (~10 reais) até o infinito - muitas vezes são reaproveitados para outros propósitos. O comércio de kimonos para o exterior também aumentou muito, e o kimono passou a ser mais divulgado como uma vestimenta tradicional japonesa; Há, inclusive, lugares no Japão - principalmente em capitais mais tradicionais, como Kyoto - voltados para pessoas que querem se vestir em kimonos, tais como turistas. Os visitantes pagam para serem completamente vestidos, literalmente dos pés à cabeça. Confesso que achei bastante interessante e iria se tivesse um lugar assim por aqui...

Enfim, com tudo isso, é inegável que o kimono veio perdendo sua popularidade para as novas tendências ocidentalizadas, como a noção de kawaii - que já tratei na série de posts sobre Fairy Kei e street fashion - e as roupas ocidentais, mais práticas; Entretanto, há várias tentativas de resgate da tradição, como as produções (mangás e afins) que citei acima, e uma delas é a adaptação desse estilo às novas modas.
Alguns estilos que incorporam características do kitsuke são o Wa-loli, um subgênero do Lolita no qual as vestimentas mesclam a parte de cima de kimonos, ligeiramente alteradas, com as anáguas típicas do estilo; Um outro é o kimono hime, que propõe, basicamente, o uso de kimonos tradicionais com combinações anti-convencionais.

Foto (c) Sumire - http://www.hanamachi.de/

O estilo popularizado pela revista Kimono Hime foi responsável por fazer ressurgir um boom dos kimonos em algumas secções da sociedade japonesa, em particular entre as mulheres mais jovens, ao propor novas formas de se usar um kimono - aderindo aos costumes antigos, mas combinando-os, por exemplo, com botas de couro, cachecóis ousados, ou penteados exóticos. Eu pessoalmente achei a idéia bastante interessante - algumas explicações possíveis para o sucesso da revista são o fato de kimonos "terem mais personalidade", por possibilitarem o uso de diferentes texturas em kimono(s), obi e acessórios de cabeça, por exemplo; E também o fato de kimonos vintage saírem por preços muito baratos atualmente.

Pra quem se interessou pelo assunto e quiser saber mais sobre os temas abordados nesse post, recomendo os seguintes websites:
  • Wafuku.co.uk - diversos tipos de informação (como nomenclaturas e tutoriais) sobre diversos tipos de wafuku. 
  • From Black to White - ótimo blog em português (PT) com informações sobre geisha e kimono.
  • Kitsuke Vocabulary @ KawaiiClare.Wordpress.com - um ótimo post pra iniciantes no blog KawaiiClare, contendo os vocábulos mais comuns do kitsuke, e imagens didáticas.
  • KimonoNagoya e KimonoWorld - Tumblogs de imagens de kimonos, ótimos pra inspiração.
  • ImmortalGeisha e Ichiroya Boards - os melhores fóruns de kitsuke que eu achei na Internet.
  • Kimono Bunka - site de um projeto para ensinar gerações futuras de jovens japoneses a vestirem yukata da maneira tradicional. O site é Japonês, mas possui uma tradução; Apesar de possuir ilustrações, a tradução é meio engrish, naturalmente, então para quem entende inglês eu recomendo também os sites abaixo por possuirem uma gramática melhor.
    • MinkyShop - contém um tutorial muito básico de como vestir um yukata, para iniciantes; Vai parecer mais fácil que os outros links, e de fato o é, pois explica apenas o essencial (que já é bastante!).
    • Kidoraku Japan - mais um site Japonês com tradução em inglês e tutoriais bem ilustrados sobre como vestir kimono. Na minha opinião é o melhor, pois além de explicar o que são os acessórios e terminologias de uma maneira bem didática, inclui como usar acessórios como o Majic Belt, alternativas práticas mais usadas atualmente no Japão, que tornam a vestimenta mais simples e mais leve. 
    • Go Japan Go - Esse site é mais bagunçado, mas confesso que gostei muito da parte de como vestir um yukata - é o que possui mais ilustrações, mais claras, mas é preciso ter já alguma familiaridade com os conceitos de kimono.
  • The Great Lakes Kimono Revolution - Eu gostei muito desse site por ser um dos poucos que foca nas possibilidades de se vestir um kimono no Ocidente, onde é mais difícil achar peças de wafuku - atravessando inclusive questões como as cores/texturas do kimono em relação à estação do ano, e os níveis de formalidade, que não possuem equivalentes interculturais - e também por ser bastante didático. 
  • Vintage Kimono - um site em inglês que, além de ensinar sobre kimonos, também vende alguns modelos vintage autênticos do Japão.
  • Haori Photoshoot - uma sessão de fotos de uma garota ocidental vestindo seus haoris. Achei este o site mais interessante para aprender como combinar um haori em moda ocidental.
  • Komebukuro DIY - Extra - tutorial relativamente simples de como fazer um komebukuro (a bolsinha tradicional de se carregar arroz que as pessoas usam com o kimono)! Todo ilustrado, está na minha lista de coisas para tentar. ^_^
 
  Fonte: Isetan Yukata Selection 2013 (Modelo: Tina Tamashiro)

E é isso. Espero que tenham gostado desse post pouco usual feito totalmente nas coxas e por culpa da minha viagem no mundo do wafuku. Eu ainda me pergunto por que é tão difícil achar informações sobre kimonos no Brasil, ou até mesmo peças pra comprar, mas talvez eu esteja apenas procurando nos lugares errados... Ou talvez realmente não haja um interesse fora das colônias japonesas?... Enfim.
À quem leu, muito obrigada! Espero poder fazer outro post desses qualquer dia, se conseguir um kimono - meu novo sonho de consumo! 

4 comentários:

  1. Respostas
    1. São mesmo! Eu gosto das tradicionais também, mas fiquei especialmente apaixonada depois de ver as combinações do tumblr Kimono Nagoya. Tem algumas muito originais, é realmente incrível a estética dessas roupas! ♥ Eu estou querendo muuuito um, pena que é tão caro e eu estou pobre agora! ;_; hahah...
      Muito obrigada pela visita e pelo comentário! :**

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  2. Adorei a postagem, bem informativa >o< Eu amo todos eles, e um dia quero usar um *.*

    Kissus
    Aozora Namida

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Mari, fico feliz que tenha gostado!! *-* Eu também! <3 Ia ser legal se tivesse aqui no Brasil essas casas que vestem as pessoas em kimonos, né... TT__TT eu super iria numa dessas!
      Obrigada pela visita! :*

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